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Se o futebol já foi palco de manobras políticas e interferências escusas, o pedido feito por Paolo Zampolli, enviado especial do presidente Donald Trump, para que a Fifa substitua o Irã pela Itália na Copa do Mundo de 2026 pode entrar para a história como um dos casos mais escancarados de apropriação do esporte por interesses geopolíticos. Não se trata de mérito esportivo, nem de regulamento, nem de justiça. Trata-se, em essência, de uma tentativa explícita de usar a principal vitrine do futebol mundial para reparar relações diplomáticas desgastadas entre Washington e Roma.
A justificativa apresentada por Zampolli, em entrevista ao jornal britânico Financial Times, é, no mínimo, risível do ponto de vista esportivo. "Com quatro títulos, eles têm o currículo necessário para justificar a inclusão", disse o enviado, referindo-se à Itália, que foi eliminada pela Bósnia e Herzegovina na repescagem das eliminatórias europeias — sua terceira ausência consecutiva em Copas. Ora, se o currículo histórico fosse critério para classificação, a Hungria (finalista em 1938 e 1954) ou a Holanda (três vices) também poderiam reivindicar vagas a cada edição. O futebol, felizmente, ainda se decide em campo — ou pelo menos deveria.
Enquanto a Itália amargava mais um vexame, eliminada nos pênaltis após empate em 1 a 1 no jogo final da repescagem europeia, o Irã garantiu sua vaga na Copa ainda em março de 2025, terminando em primeiro lugar no Grupo A das Eliminatórias Asiáticas, com 23 pontos. Em campo, a seleção iraniana fez sua lição de casa. A italiana, não. Essa diferença fundamental parece ter sido convenientemente ignorada pelo enviado trumpista.
É verdade que, desde então, o cenário geopolítico mudou drasticamente. No dia 28 de fevereiro de 2026, Estados Unidos e Israel lançaram ataques aéreos contra o Irã que mataram o líder supremo aiatolá Ali Khamenei e desencadearam uma guerra de proporções regionais. Em 11 de março, o ministro dos Esportes do Irã, Ahmad Donyamali, declarou à TV estatal: "Considerando que este regime corrupto assassinou nosso líder, sob nenhuma circunstância podemos participar da Copa do Mundo". O país, que tinha três jogos marcados nos Estados Unidos (dois em Los Angeles e um em Seattle), retirou-se oficialmente da competição. Mais de 1.300 civis iranianos foram mortos nos bombardeios, segundo a embaixada do país na ONU.
Diante da desistência iraniana, a Fifa tem, de fato, o desafio de substituir a equipe. No entanto, o regulamento da entidade é claro quanto ao critério continental: a vaga pertence originalmente à Confederação Asiática de Futebol (AFC). Assim, o substituto natural deveria ser o melhor classificado ainda não classificado da Ásia — cenário no qual Iraque e Emirados Árabes Unidos aparecem como candidatos naturais, e não a Itália, que sequer disputou as eliminatórias asiáticas. A própria Fifa já havia deixado claro, em declarações de Gianni Infantino, que "a seleção iraniana virá, com certeza" — antes da desistência oficial. A entidade, até o momento, não se manifestou sobre o pedido de Zampolli.
O que torna o caso ainda mais escandaloso é o pano de fundo político declarado. De acordo com fontes ouvidas pelo Financial Times, a proposta de substituição não visa reparar nenhuma injustiça esportiva, mas sim "reparar as relações estremecidas entre Trump e a primeira-ministra italiana, Giorgia Meloni". O racha entre os dois líderes ocorreu após Trump criticar duramente o papa Leão XIV por suas declarações sobre a guerra no Irã. Meloni, única líder europeia a comparecer à posse de Trump em 2024, classificou as críticas do presidente americano como "inaceitáveis". Trump respondeu à altura, questionando publicamente se os italianos "gostam" de sua premiê e afirmando que "a Itália nunca mais será o mesmo país".
Paolo Zampolli, aliás, não é qualquer enviado. Trata-se do homem que patrocinou o visto de Melania Trump para os Estados Unidos em 1996 e que, dois anos depois, apresentou a ex-modelo ao então empresário Donald Trump. Sua nomeação como enviado especial para parcerias globais reforça seu papel como articulador informal do círculo íntimo trumpista. E, agora, ele tenta usar o futebol como moeda de troca para consertar os estragos diplomáticos de seu chefe.
A imprensa internacional não poupou críticas. O jornal espanhol Marca chamou a eliminação italiana de "maior drama do futebol mundial". A Gazzetta dello Sport classificou a derrota para a Bósnia como "histórica" — no pior sentido possível. A L'Équipe, da França, debochou com um "Tchau, Itália" em sua capa. A Itália, tetracampeã mundial, não disputa uma Copa desde 2014 e agora amarga o recorde negativo de ser a primeira seleção campeã a ficar de fora de três edições consecutivas. Esse é o currículo que Zampolli quer "justificar".
Enquanto isso, o governo iraniano mantém uma posição firme quanto à sua ausência, mas a retórica belicosa não esconde o drama humano por trás da decisão. "Nossos filhos não estão seguros e, fundamentalmente, tais condições para participação não existem", disse Donyamali. Em meio a bombardeios, líder morto e milhares de civis assassinados, discutir futebol parece quase obsceno. Mas o episódio expõe uma verdade incômoda: o esporte jamais esteve isolado da política, e a Fifa, que sempre gostou de se vender como guardiã da pureza do jogo, agora se vê diante de um teste de fogo.
Se a entidade ceder à pressão americana e permitir que a Itália — eliminada em campo, de forma legítima, por uma seleção modesta como a Bósnia — assuma a vaga do Irã, o conceito de mérito esportivo estará oficialmente morto. A Copa do Mundo se tornaria, a partir daí, um torneio de convidados especiais, onde o peso geopolítico e o "currículo histórico" valem mais do que 90 minutos de jogo. É o velho tapetão em sua versão mais perversa: não aquele que resolve disputas jurídicas, mas aquele que rasga o regulamento em nome de alianças de ocasião e vaidades presidenciais.
Há ainda um agravante: a Fifa já negou pedido do Irã para transferir seus jogos para o México, justamente por serem os Estados Unidos um dos países-sede. Agora, a mesma entidade teria que explicar por que aceitaria substituir o país por uma seleção de outro continente, que não venceu suas eliminatórias, em nome de um pedido que sequer partiu de uma federação de futebol, mas de um enviado político americano. A hipocrisia seria institucionalizada.
Diante desse cenário, cabe à Fifa decidir se ainda é uma entidade esportiva ou se tornou um mero balcão de negócios da geopolítica global. Infantino, que já se mostrou hábil em flertar com poderosos, agora precisa demonstrar que o futebol ainda tem alguma dignidade. Caso contrário, a Copa de 2026 entrará para a história não pelos gols ou pelas zebras, mas pelo dia em que o tapetão venceu o gramado — e a Itália pífia tomou o lugar do Irã forte, não por mérito, mas por decreto de um enviado que queria agradar seu chefe.
Com informações de Financial Times, Reuters, Associated Press, BBC News Brasil, CNN Brasil, g1/Globo, UOL, Estadão, Yahoo Sports, Fox News, Daily Mirror, El País, FAZ (Frankfurter Allgemeine Zeitung), Anadolu Ajans?, RTHK (Hong Kong), Ahram Online (Egito), New Straits Times (Malásia), 9News (Austrália) e The Daily Beast ■