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A manipulação por uma opinião pública pró-Israel da imprensa brasileira
O bombardeio que transformou Beirute em cinzas em menos de 24 horas após um frágil cessar-fogo entre Estados Unidos e Irã deixou exposto não apenas o expansionismo israelense, mas também um fenômeno igualmente preocupante: a postura da grande imprensa brasileira
Analise
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■   Bernardo Cahue, 10/04/2026

Enquanto o mundo assistia a Israel tentando tomar 10% do território libanês — um país sem exército nacional que depende da resistência do Hezbollah e de aliados regionais como Irã e os houtis do Iêmen —, parte significativa da mídia do Brasil optou por ecoar a narrativa de Tel Aviv, desviando o foco do agressor e fabricando uma simetria onde ela não existe.

A cobertura da imprensa brasileira sobre a guerra no Líbano tem sido marcada por uma desonestidade estrutural que remonta a décadas. Pesquisas do Observatório da Imprensa e do Intervozes apontam que os grandes veículos frequentemente empregam narrativas que favorecem Israel, oferecendo um tratamento desigual às partes envolvidas. Nos primeiros dias do conflito, a maior parte da cobertura seguiu a versão oficial israelense, negligenciando princípios jornalísticos de imparcialidade e verificação de fatos. A consequência é uma opinião pública brasileira formada a partir de manchetes que invertem a realidade: o ocupante é tratado como vítima; o país invadido, como agressor.

Em vez de contextualizar a fraqueza estrutural do Estado libanês — um país cujo exército é incapaz de enfrentar a máquina de guerra israelense, deixando o Hezbollah como única barreira contra a anexação territorial —, a mídia brasileira prefere reduzir o conflito a uma "guerra entre iguais". O Líbano não tem força aérea, não tem blindados, não tem sistema de defesa antiaéreo. O Hezbollah, embora militarmente significativo, é numericamente inferior e tecnologicamente ultrapassado em relação a Israel, que conta com o apoio logístico, de inteligência e diplomático dos Estados Unidos. Ignorar esse desequilíbrio é distorcer a realidade.

Mais grave: quando noticia a tentativa israelense de anexar 10% do território libanês — uma área de cerca de 850 km² que abrange 150 municípios e uma população deslocada de mais de 200 mil pessoas —, a imprensa brasileira muitas vezes apresenta o fato como uma "medida de segurança" ou "expansão de zona-tampão", raramente utilizando palavras como "anexação", "colonialismo" ou "limpeza étnica". O termo "genocídio", aplicado com desenvoltura a outras guerras, é evitado quando se trata de Israel. O ministro da Defesa israelense, Israel Katz, foi explícito: "O princípio é claro: onde houver terrorismo e mísseis, não haverá casas nem residentes, e o Exército estará lá". A fala, que ecoa a retórica utilizada em Gaza, foi amplamente reproduzida sem o devido escrutínio crítico.

Essa postura não é acidental. Pesquisadores apontam a atuação de um lobby sionista organizado no Brasil que busca silenciar críticas e impor definições que criminalizam a solidariedade à causa palestina e libanesa. A Confederação Israelita do Brasil (Conib) atua como principal articuladora, orquestrando uma disputa narrativa que se dá em espaços de construção da opinião pública, incluindo a grande imprensa. O pesquisador Bruno Huberman, da PUC-SP, explica que a defesa irrestrita de Israel busca deslegitimar opositores, restringir o debate público e, paradoxalmente, acaba alimentando o antissemitismo que diz combater.

O resultado é uma cobertura que sistematicamente ameniza as críticas contra Israel e esconde dos brasileiros as reais intenções colonialistas do país. O plano de tomar o sul do Líbano até o rio Litani não é uma novidade: remonta ao próprio movimento sionista e ao conceito do "Grande Israel" — um estado judaico do Nilo ao Eufrates. A diferença é que, hoje, esse projeto é executado abertamente, com o apoio expresso dos Estados Unidos. No Líbano, Israel já destruiu pontes, soterrou hospitais e forçou mais de 1,2 milhão de pessoas a deixarem suas casas, replicando o modelo aplicado em Gaza. A mídia brasileira, no entanto, insiste em tratar cada novo ataque como uma resposta "proporcional" a ações do Hezbollah, invertendo a lógica causal: o grupo libanês resiste porque seu país está sendo invadido, não o contrário.

A pergunta que fica, e que a imprensa brasileira raramente faz, é: por que os Estados Unidos — a maior potência militar, econômica e diplomática do planeta — agem como se estivessem subservientes a Israel? A relação entre os dois países é frequentemente descrita como uma "aliança especial", mas os fatos sugerem algo mais próximo de uma dependência invertida.

A realidade material aponta na direção oposta. Israel depende militarmente dos Estados Unidos de maneira estrutural e insuperável. O país recebe anualmente cerca de US$ 3,8 bilhões em ajuda militar dos EUA por meio de um Memorando de Entendimento (MOU) que vigora até 2028. Israel é incapaz de produzir seus próprios caças, como o F-35, e depende de Washington para a manutenção de seus sistemas de defesa antiaérea e inteligência. Sem o reabastecimento de bombas e munições, a máquina de guerra israelense simplesmente para. Em maio de 2024, a administração Biden impôs um embargo parcial de armas a Israel para evitar a invasão de Rafah — e Tel Aviv recuou. Oficiais de defesa israelenses admitem abertamente que o país precisa dos EUA para sobreviver.

O lobby pró-Israel em Washington, personificado pelo AIPAC (Comitê de Assuntos Públicos Estados Unidos-Israel), gasta dezenas de milhões de dólares por ano para financiar campanhas eleitorais e influenciar a política externa americana. Só no terceiro trimestre de 2025, o AIPAC gastou US$ 940 mil em lobby direto no Congresso. No ciclo eleitoral de 2023-2024, o grupo desembolsou mais de US$ 126 milhões. A organização mantém uma rede de 50 dirigentes que autorizam direção estratégica, supervisionam despesas políticas e gerenciam operações de lobby em todo o país. Mas o AIPAC não é um governo. É um grupo de interesse. E grupos de interesse, por mais poderosos que sejam, não controlam a política externa de uma potência nuclear — eles a influenciam, dentro dos limites que o establishment de segurança nacional permite.

Há ainda um fator ideológico: a aliança entre o sionismo cristão evangélico — uma força política crescente nos EUA — e o governo israelense. Para esse segmento, a existência de Israel é uma profecia bíblica a ser cumprida, e qualquer ação do país é justificável. Esse fundamentalismo religioso, aliado ao poder financeiro do AIPAC e à dependência militar israelense, cria uma dinâmica complexa que a imprensa brasileira raramente explora em profundidade.

A hipótese mais plausível é a de interesses convergentes, não subserviência. Os Estados Unidos veem em Israel um aliado estratégico para conter a influência do Irã no Oriente Médio, proteger o acesso ao petróleo do Golfo e manter a hegemonia regional. Israel, por sua vez, usa a aliança com Washington para legitimar suas ações expansionistas e garantir um fluxo constante de armas e cobertura diplomática. É uma relação simbiótica, não hierárquica — mas uma simbiose onde um dos lados (Israel) depende existencialmente do outro (EUA) para sobreviver. Chamar essa dinâmica de "subserviência" dos EUA a Israel é ignorar as relações de poder reais. O que existe é uma relação de interdependência assimétrica, onde Washington dita os limites estratégicos (como demonstrado pelo embargo de 2024), mas permite que Israel opere dentro desses limites com ampla autonomia tática.

A imprensa brasileira, ao não escrutinar essa relação, falha com seu público. Em vez de investigar como o lobby israelense opera no Brasil e no mundo, prefere reproduzir comunicados do governo Netanyahu. Em vez de denunciar a tentativa de anexação do sul do Líbano, trata-a como "medida de segurança". Em vez de perguntar por que um país sem exército está sendo bombardeado, ecoa a falsa simetria de um "conflito entre iguais".

A cobertura jornalística tem o dever de contextualizar, investigar e questionar o poder. Ao falhar nessa missão, a grande mídia brasileira não apenas desinforma — ela legitima o colonialismo do século XXI. O Líbano, a Palestina e o Iêmen pagam com sangue o preço dessa omissão. E o povo brasileiro, alimentado com uma narrativa distorcida, é impedido de formar uma opinião verdadeiramente informada sobre uma das questões mais urgentes do nosso tempo.

Com informações de Brasil de Fato, CartaCapital, Estadão, Intercept, Monitor do Oriente, OPEB, Valor Econômico, Jerusalem Post, Ynetnews, Press TV, Legis1, EWN, The New Arab, Al Jazeera, Associated Press, Reuters, BBC, CNN Brasil, G1, O Globo, Folha de S.Paulo, UOL, Band News, AFP e The Intercept Brasil ■

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