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A então improvável ascensão do Paquistão como mediador global
Menos de um ano após ver seus arsenais vazios e sua soberania ameaçada em uma crise nuclear com a Índia, o Paquistão — que possui uma dívida tácita com Donald Trump por conta da interrupção de um conflito que não teria como sustentar — posiciona-se como o principal fiador da paz entre os EUA e o Irã, numa reviravolta que expõe as contradições da geopolítica contemporânea
Analise
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■   Bernardo Cahue, 08/04/2026

Há menos de um ano, as Forças Armadas do Paquistão enfrentavam o que talvez fosse seu pior pesadelo estratégico: uma crise iminente com a Índia em um momento em que seus arsenais estavam perigosamente vazios. Relatórios de inteligência indicavam que o país mal teria munição para sustentar 96 horas de combate em caso de um confronto em larga escala, uma limitação que expunha uma vulnerabilidade existencial. Em maio de 2025, quando os mísseis indianos da “Operação Sindoor” começaram a cair e o Paquistão se viu diante da ameaça real de uma guerra que não poderia vencer, foi a intervenção de última hora de Donald Trump — com ameaças de tarifas e a suspensão do comércio — que forçou um cessar-fogo.

Menos de um ano depois, o mesmo Paquistão está no centro das atenções globais, não como um peticionário desesperado por clemência, mas como um mediador-chave entre os Estados Unidos e o Irã. A contradição é gritante, mas a lógica que a sustenta é implacável: o país que quase foi à falência militar foi salvo por Trump, e agora tornou-se indispensável para salvar a paz no Oriente Médio — uma dívida de gratidão que se transformou em capital diplomático.

O quase-colapso de 2025: um país à beira do abismo

Para compreender a magnitude da reviravolta, é necessário reconstituir o cenário de maio de 2025. A Índia lançou ataques com mísseis contra alvos do Paquistão na região da Caxemira, em retaliação a um atentado terrorista que matou 26 turistas em Pahalgam. O primeiro-ministro indiano, Narendra Modi, concedeu às Forças Armadas “liberdade operacional total” para retaliar.

No entanto, a capacidade de resposta do Paquistão estava gravemente comprometida. Relatórios da época indicavam:

  • Os estoques de munição de artilharia do país estavam “perigosamente baixos”, limitando a capacidade de guerra a apenas 96 horas de combate de alta intensidade.
  • A escassez era atribuída à venda clandestina de munição para a Ucrânia e Israel nos anos anteriores, que teria gerado cerca de US$ 364 milhões em receita, mas deixou sistemas críticos como os obuseiros M109 e os lançadores BM-21 sem suprimento adequado.
  • O ex-chefe do Exército paquistanês, general Qamar Javed Bajwa, reconhecera publicamente que o país “não tem munição nem força econômica para se envolver em um conflito prolongado com a Índia”.
  • A crise econômica agravava o problema: inflação crescente, dívida externa e reservas cambiais em queda forçaram o Exército a cortar rações, combustível e até a adiar exercícios militares.

Em outras palavras, o Paquistão estava desarmado no momento mais crítico de sua história recente.

“Salvos por Trump”: a dívida que moldou a geopolítica

Foi nesse cenário que Donald Trump entrou em cena. O então candidato e posteriormente presidente dos EUA reivindicou ter ameaçado a Índia e o Paquistão com a suspensão total do comércio com os EUA, forçando ambos os lados a recuar. Em maio de 2025, Trump anunciou um cessar-fogo “completo e imediato” entre os dois países.

Embora a Índia tenha rejeitado veementemente qualquer versão de mediação terceirizada — com o premiê Narendra Modi afirmando categoricamente que a Índia “nunca aceitará mediação” —, a verdade é que o Paquistão não estava em condições de recusar ajuda. O general Asim Munir, chefe do Exército paquistanês, tornou-se uma figura familiar em Washington, e Trump passou a se referir a ele como seu “marechal favorito”.

O Paquistão retribuiu o favor de forma memorável: indicou Trump ao Prêmio Nobel da Paz “em reconhecimento à sua intervenção diplomática decisiva” durante a crise com a Índia. Mais do que um gesto simbólico, foi a consolidação de uma aliança pragmática que renderia frutos em 2026.

O mediador improvável: como o Paquistão capitalizou a dívida

Quando a guerra entre EUA e Irã eclodiu em 28 de fevereiro de 2026, o Paquistão estava em uma posição única. Não apenas tinha a confiança de Trump, mas também mantinha laços históricos com o Irã, com quem compartilha uma fronteira de cerca de 900 km e profundas afinidades culturais e religiosas.

O país rapidamente se posicionou como o principal canal de comunicação entre Washington e Teerã. O primeiro-ministro paquistanês, Shehbaz Sharif, e o marechal Asim Munir envolveram-se em negociações diretas com a Casa Branca, culminando no pedido formal de um cessar-fogo de duas semanas — o mesmo período que Trump acabou aceitando.

Em 7 de abril de 2026, Trump anunciou a suspensão dos ataques ao Irã por duas semanas, citando o pedido do Paquistão: “O primeiro-ministro do Paquistão pediu que eu suspendesse a força destrutiva que esta noite seria enviada ao Irã”. O Irã, por sua vez, aceitou reabrir temporariamente o Estreito de Ormuz.

Foi o auge da diplomacia paquistanesa — e uma prova de que a dívida de 2025 havia sido mais do que quitada.

Interesses próprios: por que o Paquistão não podia ficar de fora

A ascensão do Paquistão como mediador, no entanto, não foi movida apenas por gratidão. Havia interesses estratégicos profundos em jogo:

  • Dependência energética: O Paquistão depende fortemente de petróleo importado, grande parte transportado pelo Estreito de Ormuz. O fechamento do estreito elevou os preços dos combustíveis em cerca de 20% e forçou medidas de austeridade, como a semana de trabalho de quatro dias para servidores públicos.
  • Pacto de defesa com a Arábia Saudita: Em setembro de 2025, o Paquistão assinou um acordo de defesa com Riad que prevê que “qualquer agressão contra um dos países será considerada uma agressão contra ambos”. Uma escalada na guerra poderia arrastar o Paquistão para um conflito direto com o Irã — algo que o país, ainda se recuperando da crise de 2025, não poderia suportar.
  • Sentimento popular: Manifestantes pró-Irã foram às ruas em várias cidades paquistanesas durante a guerra, e alguns morreram tentando invadir o consulado americano em Karachi. Ignorar essa pressão interna seria politicamente custoso.
  • Ambição global: O Paquistão é “muito sensível a críticas de que não tem influência no cenário global”, e uma mediação bem-sucedida o colocaria “no topo do jogo diplomático global”.

A contradição exposta: o país em guerra que prega a paz

A ironia não passou despercebida pela imprensa internacional. O Paquistão, que no momento em que atua como mediador da paz entre EUA e Irã, está simultaneamente envolvido em uma “guerra total” com o Afeganistão. Questionado sobre a aparente contradição, o governo paquistanês afirma ter tentado anos de negociações sem sucesso, mas a imagem de um país que não consegue resolver seus próprios conflitos armados enquanto tenta resolver os dos outros é, no mínimo, paradoxal.

O professor Farhan Siddiqi, do Institute of Business Administration, resume o dilema: “O problema para nós é que, se formos chamados a entrar no conflito ao lado da Arábia Saudita, toda a nossa fronteira oeste ficará em grande parte vulnerável”.

Análise crítica: uma diplomacia de alto risco

A estratégia paquistanesa é, ao mesmo tempo, brilhante e perigosamente frágil. Brilhante porque capitalizou uma relação pessoal com Trump — construída sobre a gratidão pela intervenção de 2025 — e a transformou em capital diplomático. Frágil porque depende inteiramente da boa vontade de um presidente americano notoriamente imprevisível e da disposição do Irã em negociar.

Como observou Maleeha Lodhi, ex-embaixadora paquistanesa nos EUA, “se não desse certo, não seria por falta de habilidade do país, mas porque há um líder extremamente imprevisível e totalmente não confiável”.

Michael Kugelman, do Atlantic Council, alerta para o risco de reação negativa: “O Paquistão pode ser acusado de ingenuidade — [e que foi] levado a tentar negociar enquanto ambos os lados buscavam ganhar tempo para planejar os próximos passos rumo a uma escalada”.

Conclusão: a dívida que moldou o destino

O Paquistão de 2026 não é o mesmo Paquistão desarmado e desesperado de 2025. Mas a verdade é que, sem a intervenção de Trump há menos de um ano, o país talvez nem tivesse condições de sentar-se à mesa de negociação. A crise com a Índia expôs uma vulnerabilidade existencial; a guerra no Irã ofereceu uma oportunidade de redenção.

O marechal Asim Munir, que em 2025 viu seus arsenais vazios e suas fronteiras ameaçadas, agora negocia de igual para igual com a Casa Branca. O primeiro-ministro Shehbaz Sharif, que há um ano pedia clemência, agora dita os termos de um cessar-fogo. É uma reviravolta que desafia a lógica, mas que faz perfeito sentido no mundo da geopolítica contemporânea — onde as maiores oportunidades muitas vezes surgem das maiores fragilidades, e onde a dívida de gratidão pode se transformar no ativo mais valioso de um país.

Com informações de BBC News Brasil, G1, O Globo, Swissinfo, RTP, Reuters, Associated Press, AFP, Axios, The New York Times, The Washington Post, CNN, Fox News, Al Jazeera, The Guardian, The Times of India, Zee News, WION, India Today, The Telegraph India, Hindustan Times, News18, The Week, NV.ua (The New Voice of Ukraine), Kyiv Post, ANI, The Economic Times, Livemint, DNÁ India, The Tribune, L’Orient Le Jour, R7, Noticias R7, Poder360, Metrópoles, Correio do Povo, O Cafezinho, BBC Persian, Atlantic Council, Institute of Business Administration Karachi, Pakistan Ordnance Factories (POF), Truth Social, X (antigo Twitter), Yonhap Infomax, Bloomberg, FT ■

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