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A retórica oficial de Washington sempre foi a de combater o terrorismo, regimes autoritários ou a proliferação nuclear. No entanto, uma análise aprofundada das recentes operações militares dos Estados Unidos, especialmente durante a gestão do presidente Donald Trump, revela um padrão consistente e pouco sutil: as guerras travadas pelos EUA têm como motor principal o acesso e o controle de recursos estratégicos, principalmente petróleo e urânio. Longe de serem missões humanitárias ou de segurança, as intervenções americanas se configuram como ações de natureza colonialista, mascaradas por justificativas que, com o tempo, se mostram frágeis e transitórias.
O mais recente capítulo dessa política fica evidente na guerra contra o Irã. Após semanas de bombardeios e uma retórica inflamada sobre impedir que Teerã desenvolva armas nucleares, o Washington Post e outros grandes veículos da imprensa internacional revelaram que o Pentágono apresentou a Trump um plano de ação extremamente complexo e perigoso: uma operação de forças especiais para extrair e retirar do país cerca de 453 kg de urânio altamente enriquecido que estariam enterrados sob escombros de instalações nucleares bombardeadas.
Os detalhes da operação, solicitada pelo próprio Trump, deixam claro que o objetivo não é apenas "neutralizar" uma ameaça, mas sim apropriar-se fisicamente de um ativo estratégico. O plano envolve o transporte aéreo de centenas ou até milhares de soldados, além de equipamentos pesados de escavação. As tropas teriam de construir uma pista de pouso dentro do território iraniano, em meio a uma zona de guerra, para que aviões cargueiros pudessem retirar o material radioativo. Especialistas consultados pela BBC e pela imprensa americana classificaram a missão como uma das "mais complicadas operações especiais da história", com um risco altíssimo de baixas e a possibilidade de levar semanas ou meses.
O ponto central da análise, no entanto, não é apenas a ousadia militar. É a contradição inerente à política externa americana. A justificativa declarada para a guerra — impedir o programa nuclear iraniano — rapidamente se desdobra em um plano de confisco de recursos. A intenção de retirar o urânio enriquecido do Irã não é uma ação de fiscalização ou desarmamento, mas sim um ato de pilhagem de materiais de alto valor estratégico. A dúvida que permanece é: qual seria o destino final desse urânio? As reportagens não mencionam a entrega do material a órgãos multilaterais como a AIEA (Agência Internacional de Energia Atômica). A operação, portanto, serviria para retirar do Irã um recurso que, embora perigoso, também representa um ativo econômico e geopolítico imenso.
O próprio presidente Trump demonstrou a natureza volúvel e oportunista dessa política. Horas depois de o plano ter sido divulgado, Trump declarou à Reuters que "não se importa" com o urânio, afirmando que o material está "muito profundo" e que os EUA se contentariam em monitorá-lo por satélite. Essa mudança de postura, que parece contraditória, na verdade se encaixa perfeitamente no padrão de negociação e pressão que visa a extrair concessões, sejam elas materiais (o urânio) ou econômicas, em troca do fim da violência.
Se o caso do Irã pode ser visto como uma tentativa de aquisição forçada de um recurso nuclear, o exemplo da Venezuela é ainda mais emblemático para comprovar a tese colonialista. Em janeiro de 2026, forças especiais dos EUA capturaram o presidente Nicolás Maduro, que foi indiciado em Nova York sob acusações de "conspiração de narcoterrorismo e importação de cocaína".
No entanto, a cobertura da imprensa mundial, incluindo o jornal The Guardian e a rede Al Jazeera, mostrou uma rápida e reveladora mudança no discurso oficial. Horas após a operação militar em Caracas, que deixou dezenas de mortos, Trump já não falava sobre drogas ou terrorismo. Em entrevista coletiva em Mar-a-Lago, o presidente americano afirmou que os EUA iriam "administrar o país", reconstruir a infraestrutura petrolífera e "retirar uma quantidade tremenda de riqueza do solo" para vender a clientes globais, incluindo Rússia e China. Trump justificou a ação declarando que a Venezuela "tomou todo o nosso petróleo" e que os americanos "o querem de volta".
A Al Jazeera foi incisiva ao afirmar que, embora a retórica inicial fosse sobre o fluxo de narcóticos, as evidências, incluindo as próprias palavras de Trump, sugeriam que "o verdadeiro interesse de Washington está nas vastas reservas de petróleo da Venezuela". O jornal paquistanês The News também analisou o episódio como parte de um "impulso imperialista" dos EUA, que busca perpetuar sua hegemonia sobre a produção e o abastecimento global de combustíveis.
A substituição imediata do discurso de "guerra contra o narcoterrorismo" pelo discurso de controle e exploração do petróleo venezuelano é a prova mais clara de que as justificativas morais para as intervenções são, na melhor das hipóteses, secundárias. Elas servem como um verniz temporário para operações cujo verdadeiro objetivo é a apropriação de recursos naturais em larga escala.
Os casos do Irã e da Venezuela não são isolados. Eles se encaixam em um padrão histórico bem documentado de intervenções americanas em países ricos em recursos naturais. O Iraque, com suas imensas reservas de petróleo; a Líbia, também produtora de petróleo; e até mesmo o envolvimento em países africanos ricos em minerais estratégicos seguem a mesma lógica.
Um artigo do jornal nigeriano The Punch resume essa percepção ao destacar que os países no centro das mira dos EUA (Irã e Venezuela) compartilham uma "característica inconveniente": estão entre os maiores produtores de petróleo do mundo. A publicação argumenta que a aparente falta de uma estratégia coerente pode ser, na verdade, uma estratégia própria: a de uma potência em declínio relativo que recorre às ferramentas mais antigas do imperialismo — a guerra e a pilhagem — para garantir o fluxo de recursos que sustentam sua economia e seu poder global.
As evidências disponíveis são contundentes. A história recente demonstra que as guerras lideradas pelos Estados Unidos raramente são motivadas por ideais abstratos como "democracia", "direitos humanos" ou "combate ao terror". Quando o discurso oficial é desconstruído e confrontado com os documentos vazados, as declarações dos líderes e as ações no terreno, o que emerge é a imagem clara de um Estado que utiliza sua máquina militar para garantir acesso preferencial ou exclusivo a recursos energéticos e minerais críticos. A guerra nunca foi contra o terror. A guerra, para o império, sempre foi uma ferramenta de colonização e pilhagem.
Com informações de Agence France-Presse (AFP), Al Jazeera, Associated Press (AP), BBC News, CBS News, CNN, NBC News, Reuters, The Guardian, The New York Times, The Wall Street Journal, The Washington Post, Xinhua News Agency, Anadolu Agency (AA), The News (Paquistão), The Punch (Nigéria), Al Arabiya, Haaretz, The Times of India, NHK World-Japan, Press TV, Democracy Now!, The Inquirer, e The Express Tribune ■