Siga nossas redes sociais
Logo     
Siga nossos canais
   
Os limites do aparato trumpista diante da insubordinação silenciosa nas Forças Armadas
Enquanto o governo mobiliza o ICE com retórica que ecoa extremistas e enfrenta denúncias de instrumentalização política, uma onda inédita de objeção de consciência e recusa moral se espalha entre os militares em meio à guerra contra o Irã
Analise
Foto: https://assets.newsweek.com/wp-content/uploads/2025/08/2675276-us-immigration-customs-enforcement-ice-agents.jpg?w=1600&quality=80&webp=1
Compartilhar:
■   Bernardo Cahue, 23/03/2026

A administração Trump vive um paradoxo crescente no início de 2026. De um lado, consolida um aparato doméstico de imigração e segurança alimentado por uma retórica que especialistas associam ao imaginário de grupos extremistas. De outro, enfrenta aquilo que analistas descrevem como uma crise silenciosa, mas estrutural, no interior das Forças Armadas: o descontentamento generalizado entre soldados que se recusam a ver suas vidas colocadas como moeda de troca em um conflito cujos contornos, na visão deles, atendem prioritariamente a interesses de Israel e a uma agenda política doméstica.

Essa tensão expõe uma fragilidade central do modelo trumpista de exercício do poder: o uso intensificado de agências federais como instrumento político — notadamente o ICE (Immigration and Customs Enforcement) — contrasta com a dificuldade crescente de manter a coesão e a moral da tropa justamente no momento em que os Estados Unidos estão em guerra declarada no Oriente Médio. Não se trata de uma insubordinação aberta, mas de um fenômeno igualmente preocupante para o Pentágono: o avanço das solicitações de objeção de consciência, o aumento de casos de fadiga extrema e a propagação, nos quartéis, do sentimento expresso na frase “não quero morrer por Israel”.

Para compreender esse cenário, é preciso separar os fatos verificados das alegações que circularam nas últimas semanas e analisar o que as evidências indicam sobre os dois lados dessa equação.

O aparato doméstico: retórica extremista e os limites da instrumentalização do ICE

Entre janeiro e março de 2026, ganhou força nas redes sociais a alegação de que o governo Trump havia “aparelhado” o ICE com membros dos Proud Boys, grupo classificado pela Anti-Defamation League como extremista de direita com histórico de violência e propaganda supremacista. A acusação mais contundente partiu de uma suposta postagem de Donald Trump na Truth Social, na qual ele teria declarado: “Estou limpando os guetos de Minnesota de escórias estrangeiras liberais e esquerdistas radicais loucos. Estou tão ‘orgulhoso’ dos meus ‘garotos’ do ICE […] Obrigado e continuem orgulhosos, garotos”.

A verificação de fatos realizada pelo Snopes, no entanto, classificou a postagem como falsa. A busca no arquivo oficial das postagens do presidente não encontrou qualquer registro do texto, e a imagem divulgada não correspondia ao formato real da página de Trump na plataforma. O conteúdo foi identificado como parte de uma desinformação que circulou após a morte do enfermeiro Alex Pretti, atingido por agentes da Patrulha de Fronteira em Minneapolis em 24 de janeiro.

A tese de que o ex-líder dos Proud Boys, Enrique Tarrio, teria sido contratado pelo ICE também se mostrou infundada. O nome de Tarrio apareceu em uma base de dados do site ICEList.is, o que levou veículos e usuários a especularem sobre seu suposto vínculo com a agência. A própria plataforma, no entanto, esclareceu que Tarrio estava listado como “agitador propagandista”, e não como agente. Em declaração exclusiva à Newsweek, Tarrio negou qualquer vínculo empregatício com o ICE, ironizou os rumores e afirmou estar avaliando ações legais contra os veículos que divulgaram a informação sem checagem. O Departamento de Segurança Interna (DHS) confirmou que ele “nunca foi contratado pelo ICE”.

O que as fontes verificadas revelam, contudo, é um fenômeno diferente, mas igualmente relevante: a retórica oficial do governo tem, sim, incorporado expressões e slogans historicamente associados ao extremismo de direita. Uma investigação do The New York Times mostrou que publicações oficiais do DHS e da Casa Branca utilizaram frases como “which way, American man?” — quase idêntica ao título de um livro antissemita dos anos 1970 — e “We’ll have our home again”, nome de uma canção adotada por grupos como os Proud Boys. Quando questionada, uma porta-voz do DHS negou qualquer referência, mas o próprio anúncio no Instagram trazia a música como trilha sonora, sendo retirado do ar após a reportagem apontar a contradição.

Essa sobreposição entre a linguagem do governo e a de grupos extremistas levou a um duplo movimento: a intensificação das operações do ICE — que chegaram a registrar picos de 1.500 detenções diárias — e, simultaneamente, um forte desgaste político. Em março, diante de pesquisas indicando que 58% dos eleitores consideravam que Trump “havia ido longe demais” na política de deportações, a administração iniciou um discreto ajuste de rota. De acordo com reportagem do The Wall Street Journal, o presidente orientou sua equipe a adotar um discurso mais centrado na captura de “criminosos”, abandonando temporariamente o termo “deportações em massa”. O ICE chegou a suspender operações de alto impacto em cidades como Chicago e Washington D.C., reduzindo o ritmo de detenções para cerca de 1.200 por dia.

A contradição, nesse ponto, já estava posta: enquanto o governo recuava taticamente na política doméstica sob pressão da opinião pública, aprofundava sua escalada militar no exterior.

O front externo: fadiga da tropa e a crise de legitimidade da guerra

Em 24 de fevereiro de 2026, com o início da guerra aberta entre Estados Unidos e Irã, o governo Trump esperava uma resposta de unidade nacional em torno das forças armadas. O que se seguiu, no entanto, foi uma das crises de moral mais profundas registradas nos últimos 20 anos, conforme apurado por veículos como o Huffington Post e o Hindustan Times.

O termo de alerta veio de uma organização tradicionalmente focada em direitos de consciência: o Center on Conscience & War (CCW), que em meados de março reportou um aumento de 1000% nas ligações de militares da ativa e reservistas em busca de informações sobre objeção de consciência. Seu diretor executivo, Mike Prysner, afirmou publicamente que “o telefone não para de tocar” e que um número muito maior de unidades foi ativado para implantação do que o público tem conhecimento.

Entre os relatos colhidos pelo CCW, o cônjuge de um soldado de infantaria da 31ª Unidade Expedicionária de Fuzileiros Navais, a caminho do Irã, disse que o marido “não quer nada com esta guerra”. A organização acrescentou que vários fuzileiros navais, especialmente na faixa de patentes E-3 a E-5, “não concordam com a missão”.

Na mesma linha, um oficial que atua no centro médico de Landstuhl, na Alemanha, responsável pelo atendimento de feridos evacuados do Oriente Médio, alertou que as tropas sofrem com “proteção e planejamento inadequados”, classificando a possibilidade de uma operação terrestre como um “desastre absoluto” diante da incapacidade atual de sequer defender plenamente uma base em terra firme na região.

Os números corroboram a gravidade do momento: até o final da terceira semana de conflito, os EUA já contabilizavam 13 mortos entre seus militares (sete deles em decorrência direta de ataques) e 232 feridos.

Entre os fatores que alimentam a queda de moral, destacam-se:

  • A falta de uma narrativa estratégica clara: Militares reservistas apontam a ausência de uma justificativa coerente da administração Trump para justificar a guerra contra o Irã, gerando a percepção de riscos desnecessários sem benefícios estratégicos definidos.
  • O ataque à escola em Minab como ponto de inflexão: O bombardeio a uma escola na cidade iraniana de Minab, ocorrido em 28 de fevereiro, que vitimou pelo menos 175 pessoas — incluindo dezenas de meninas — foi citado por muitos soldados como um “limite inaceitável” e um ponto de virada na disposição para lutar.
  • A percepção de servir a interesses israelenses: Soldados da ativa e reservistas têm repetido a frase “não queremos morrer por Israel”, associando a guerra a uma defesa de interesses de um governo estrangeiro, agravada pela memória da devastação em Gaza em 2023-2024.
  • A fadiga extrema das Forças Armadas: O caso do porta-aviões USS Gerald R. Ford expõe o desgaste estrutural. Após nove meses de desdobramento, a embarcação sofreu um incêndio na lavanderia que destruiu mais de 600 alojamentos. Analistas chineses ouvidos pelo South China Morning Post apontaram duas hipóteses: acidente por fadiga operacional ou ato deliberado de tripulantes para encerrar a missão. Em qualquer dos casos, o episódio revelou “disciplina frouxa, má gestão e baixa moral”.

O USS Gerald R. Ford, vale lembrar, enfrentara problemas semelhantes em janeiro, quando seus sistemas de encanamento falharam e a tripulação ficou sem vasos sanitários funcionais. Para muitos analistas, a sequência de incidentes em áreas de baixa tecnologia (lavanderia e banheiros) de um navio de 13 bilhões de dólares simboliza a desconexão entre o gigantismo militar americano e a exaustão humana que o sustenta.

Os nós da contradição

O que conecta os dois fenômenos — a radicalização retórica no plano doméstico e a crise de moral no plano militar — é um denominador comum: a percepção, tanto entre civis observadores quanto entre os próprios militares, de que as forças de segurança e defesa estão sendo instrumentalizadas para fins políticos e ideológicos, perdendo sua função constitucional e sua coesão interna.

Matt Howard, diretor da organização About Face: Veterans Against the War, sintetizou o sentimento que percorre os quartéis: “O problema não é apenas o Irã. É também o uso da Guarda Nacional em cidades americanas, a possibilidade de que os militares atuem em parceria com o ICE e sejam usados contra seus próprios vizinhos. A situação é muito instável porque as forças armadas estão sendo tratadas como um brinquedo para promover uma agenda autoritária”.

Nesse cenário, a tensão entre o aparato político doméstico e a tropa expõe uma vulnerabilidade estrutural. Enquanto o governo Trump busca endurecer o discurso migratório e expandir o uso do ICE, encontrando limites na reação popular e nos próprios números de desgaste da agência, enfrenta no front externo uma resistência silenciosa, mas consistente: soldados que não se recusam formalmente a lutar, mas que já não acreditam no motivo da luta.

Até o momento, não há evidências de uma onda de deserções em massa ou de motins declarados. O que os registros mostram, porém, é um fenômeno igualmente preocupante para o comando militar: a erosão da confiança no alto escalão e a proliferação de pedidos de objeção de consciência em patamares nunca vistos desde o período pós-Vietnã. Como observou um veterano de quase duas décadas de serviço, “nunca vi nada parecido”.

Com informações de Snopes, The New York Times, The Wall Street Journal (via American Chinese Network), South China Morning Post, Hindustan Times, Newsweek, Sputnik News, The Huffington Post (via Observador/Sohu), ARY News (Reuters) ■

Mais Notícias