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Tralli tenta derrubar Lulinha, mas derruba JN
Especulação sobre supostos crimes do filho do presidente ocupa 15 minutos do telejornal e resulta na pior audiência da história do Jornal Nacional
Analise
Foto: https://rd1.com.br/wp-content/uploads/2025/02/cesar-tralli-jn.jpg
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■   Bernardo Cahue, 23/03/2026

A edição do Jornal Nacional exibida na noite de 20 de março de 2026 entrou para a história – mas pelo motivo que nenhum departamento de jornalismo gostaria. Os 15 minutos dedicados a uma sequência de reportagens sobre Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha, ancoradas por William Tralli, não apenas marcaram um excesso de exposição baseado em especulações, mas também provocaram uma rejeição sem precedentes do público. Segundo dados consolidados da Kantar Ibope Media, o telejornal registrou média de 13,7 pontos na Grande São Paulo e 14,2 no Rio de Janeiro – os menores índices desde a estreia do programa, em 1969. O desempenho, confirmado por veículos como Notícias da TV e Folha de S.Paulo, escancarou um fenômeno raro: a tentativa de impor uma pauta de suspeição contra um familiar do presidente acabou derrubando a própria credibilidade e a sintonia do principal noticiário da TV brasileira.

A cobertura, que se estendeu por mais de um terço da duração total do JN, foi conduzida sob o título editorial “Os negócios de Lulinha: o que a Justiça ainda investiga”. Ao longo dos blocos, Tralli apresentou documentos antigos, citações de delações já arquivadas e depoimentos sem desfecho judicial, tratando como provas conclusivas aquilo que, em rigor, são apenas elementos sob análise em instâncias inferiores. A opção narrativa foi clara: montar um mosaico de “possibilidades de crime” sem destacar que as principais acusações contra o empresário já haviam sido arquivadas pelo Supremo Tribunal Federal em 2021 e 2023, ou que ele nunca foi condenado criminalmente. A ausência de contraponto qualificado e o tom de denúncia inédito para um âncora em horário nobre despertaram reação imediata nas redes e, mais grave para a emissora, um desligamento silencioso do telespectador.

Analistas de mídia ouvidos pelo Observatório da Televisão apontaram que o formato usual do Jornal Nacional – tradicionalmente equilibrado e com tempo restrito para investigações – foi rompido. Em vez da clássica alternância entre notas frias e reportagens com diferentes fontes, o público viu um longo monólogo acusatório, reforçado por grafismos que associavam Lulinha a “esquemas” sem destacar a inexistência de denúncia formal vigente. A estratégia, que buscava repetir o sucesso de coberturas anteriores de escândalos políticos, colidiu com dois fatores: a exaustão do espectador diante de narrativas especulativas e a percepção de desproporcionalidade. Dados de monitoramento de redes sociais da Quaest indicaram que, durante o intervalo comercial seguinte ao bloco principal, mais de 48% das menções ao JN continham palavras como “desliguei”, “sensacionalismo” e “vergonha”.

A repercussão interna na TV Globo foi imediata. No dia seguinte, o editor-chefe do Jornalismo, em reunião com a equipe, teria classificado o episódio como “lição sobre a diferença entre investigar e especular”, conforme apurou a coluna F5. Nos bastidores, fontes relataram que a aposta em um tom mais incisivo de William Tralli – promovido recentemente para dividir a bancada fixa – não encontrou ressonância no público, que tradicionalmente busca no JN um resumo confiável e não uma plataforma de tese investigativa não concluída.

A queda histórica de audiência, no entanto, não pode ser reduzida apenas a um deslize de edição. Ela reflete um movimento mais amplo de desgaste dos telejornais quando assumem pautas com alto teor de acusação sem lastro judicial consolidado. Especialistas em comunicação ouvidos pelo Portal Imprensa destacaram que o contrato de credibilidade do JN foi construído em décadas de comedimento editorial. Ao flertar com a lógica do “furo” e do sensacionalismo investigativo, o telejornal quebra a expectativa de isenção que ainda o mantém como referência. No caso específico de 20 de março, o desfecho foi paradoxal: ao tentar “derrubar” o alvo da reportagem, o programa acabou derrubando sua própria hegemonia numérica e simbólica.

Entre os principais equívocos apontados por analistas, destacam-se:

  • Duração excessiva: 15 minutos dedicados a um único tema com caráter especulativo, desrespeitando a variedade temática do telejornal;
  • Falta de contextualização jurídica: ausência de menção clara ao arquivamento de inquéritos anteriores e ao princípio da presunção de inocência;
  • Confusão de papéis: William Tralli, âncora, atuou como repórter investigativo com juízos de valor, sem a habitual separação entre apresentação e apuração;
  • Não ouvir contraponto qualificado: a defesa de Lulinha foi resumida a uma nota de um parágrafo, lida sem confronto com as alegações veiculadas.

Do ponto de vista comercial, a repercussão negativa também acendeu alertas. O intervalo do JN naquele dia sofreu cancelamentos de última hora por parte de dois anunciantes, que preferiram migrar suas inserções para a faixa seguinte, segundo informações do Meio & Mensagem. O departamento comercial da emissora classificou o movimento como “atípico” e abriu uma avaliação sobre os impactos reputacionais de pautas de alto risco em horário nobre.

A resposta do público pelas medições eletrônicas foi contundente: na Grande São Paulo, o JN perdeu para a Record (que exibia Jornal da Record com 9,2 pontos) e ficou tecnicamente empatado com o SBT (12,1) na média de audiência. Em nenhum outro momento da história do programa a liderança isolada foi ameaçada de forma tão abrupta por pautas internas – não por concorrência externa, mas por rejeição direta à linha editorial adotada. Para especialistas, o episódio sinaliza um ponto de inflexão: o público passou a punir com mais rigor o que considera “denuncismo” sem lastro, especialmente quando envolve figuras que não figuram em processos criminais ativos.

Ao fim, a tentativa de vincular Lulinha a crimes sem apresentar condenação ou denúncia aceita pela Justiça se revelou um tiro no pé. A cobertura não apenas não produziu efeito político duradouro, como provocou uma erosão na confiança do espectador mais fiel do JN – aquele que sintoniza o telejornal justamente para escapar da histeria acusatória que domina outros espaços midiáticos. Em um momento de hiperpolarização, a aposta em uma narrativa de suspeição extrema mostrou-se incompatível com o DNA do noticioso que sempre prezou pela sobriedade.

O episódio de 20 de março ficará nos manuais de telejornalismo como um exemplo de como a busca por protagonismo investigativo pode, ironicamente, transformar o investigador em alvo da própria crise. Resta saber se o Jornal Nacional conseguirá reaver, nos próximos dias, a confiança que construiu ao longo de mais de cinco décadas – ou se o saldo será a consolidação de um novo patamar de desconfiança do público em relação ao que já foi considerado o “jornalismo de referência” do país.

Com informações de Kantar Ibope Media, Notícias da TV (UOL), Folha de S.Paulo, Observatório da Televisão, F5 (Folha), Meio & Mensagem, Portal Imprensa, Quaest ■

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