Siga nossas redes sociais
Logo     
Siga nossos canais
   
Bolsonarismo aposta na dor do caminhoneiro para incendiar o país em ano de eleição
Enquanto o governo Lula enfrenta um choque externo sem precedentes com medidas duras e investigações, a extrema-direita ensaia um novo 2018, torcendo pelo caos para transformar a guerra no Oriente Médio em arma eleitoral contra o PT
Analise
Foto: https://imagenes.elpais.com/resizer/v2/OSRYALT4JJJ5HC2RNOGZH7CYWU.jpg?auth=f5847ce5713aec595501d23566c30edb980b503d38a18a8bc28ff7bac9cf79e8&width=1200
Compartilhar:
■   Bernardo Cahue, 21/03/2026

O Brasil respira aliviado, mas ainda sob forte tensão. Após dias de articulação intensa do governo federal, lideranças de caminhoneiros decidiram suspender a greve que estava prevista para esta semana, aceitando sentar à mesa de negociação com o ministro Guilherme Boulos. O recuo, no entanto, não apaga o fato de que o país esteve à beira de um abismo logístico e político. Mais do que uma crise de abastecimento, o que se desenhou nos últimos dias foi um ensaio perigoso de repetição da história, onde a extrema-direita, sedentária no poder, encontrou no atual cenário de guerra global a oportunidade de ouro para tentar reeditar o roteiro de 2018: culpar o governo do PT e semear o caos para colher dividendos eleitorais.

O gatilho para a tensão foi externo e brutal. A escalada do conflito no Oriente Médio provocou uma disparada nos preços internacionais do petróleo e uma desorganização nas rotas de abastecimento, expondo a fragilidade estrutural de um país que ainda importa cerca de 25% do diesel que consome. A Petrobras, buscando se proteger de uma volatilidade extrema, reduziu cotas e suspendeu leilões de venda de combustíveis, gerando um alerta vermelho nas distribuidoras, que viram o risco de desabastecimento se tornar concreto. Foi nesse ambiente de incerteza e medo que a narrativa golpista começou a ser costurada.

O governo Luiz Inácio Lula da Silva (PT), ciente do estrago político que uma paralisação dos caminhoneiros poderia causar — especialmente em um ano marcado por disputas eleitorais acirradas —, optou por uma resposta em três frentes que contrasta diametralmente com a omissão vista em momentos anteriores da história recente. Enquanto setores da oposição já ensaiavam discursos prontos culpando o “intervencionismo” e a “gestão petista”, o Planalto colocava em prática um pacote de medidas de alto impacto:

  • Força-tarefa regulatória e policial: A Polícia Federal instaurou inquérito para investigar suspeitas de formação de cartel e abusos na formação de preços, mirando agentes que tentaram se aproveitar do pânico para impor aumentos abusivos. A Agência Nacional do Petróleo (ANP) foi além: declarou estado de sobreaviso, notificou a Petrobras para retomar imediatamente os volumes dos leilões cancelados e passou a exigir transparência total sobre importações e estoques de 17 grandes agentes do setor.
  • Defesa da renda do transportador: Sabendo que o preço do combustível é apenas uma parte da equação, o governo endureceu a fiscalização do piso mínimo do frete. Em uma medida inédita, anunciou que empresas reincidentes no descumprimento da tabela poderão ser impedidas de contratar fretes, um mecanismo de punição severa que atinge diretamente o bolso dos grandes embarcadores que exploravam os caminhoneiros.
  • Diálogo direto: Ao escalar o ministro Guilherme Boulos para a negociação direta com as lideranças da categoria, o governo demonstrou que, ao contrário do que propaga a oposição, não há “abandono”, mas sim uma tentativa de construir soluções institucionais para um problema que, em sua essência, é global.

No entanto, para a ala mais radical da oposição bolsonarista, os fatos objetivos pouco importam. A estratégia, que já se tornou um padrão de conduta, é clara: transformar qualquer crise — seja ela sanitária, econômica ou geopolítica — em um ataque direto à figura do presidente Lula. Nos discursos nas redes sociais e em articulações nos bastidores, o discurso é orquestrado para fazer crer que a alta do diesel é fruto de “incompetência” ou “ideologia”, ignorando deliberadamente que os mesmos agentes de mercado que hoje são investigados pela PF já atuaram de forma semelhante no passado para desestabilizar governos.

A fala de lideranças como Wallace Landim, que condicionou a paralisação à falta de “sinalização do governo”, foi imediatamente capturada por esses setores. A intenção é clara: reeditar o espírito de 2018, quando uma greve dos caminhoneiros foi utilizada como estopim para desgastar o governo Temer e pavimentar o caminho para o bolsonarismo. Naquele ano, a crise foi usada para justificar uma intervenção militar e criar um clima de “salvador da pátria”. Agora, o objetivo é semelhante: gerar desabastecimento, caos nas cidades e desespero popular para colocar a culpa exclusivamente no campo progressista, tentando sangrar o governo em um ano eleitoral.

A análise de especialistas ouvidos pela imprensa reforça o caráter oportunista dessa movimentação. “O Brasil está exposto a um choque externo. As medidas da ANP e do governo mostram uma ação preventiva e enérgica, algo que não se via em momentos anteriores de estresse”, destacou análise da CNN Brasil, lembrando que a atual gestão herdou uma política de preços que já foi apelidada de “importadora de inflação”. A verdade é que, enquanto o governo federal lida com a complexidade de um mercado de commodities em chamas, a extrema-direita aposta todas as suas fichas no caos.

Felizmente, a suspensão da greve demonstra que, ao contrário do passado, o governo demonstrou capacidade de articulação política para esvaziar os ânimos antes que o barril de pólvora explodisse. A reunião com Boulos e o avanço das investigações da PF são passos fundamentais para isolar os oportunistas que querem usar o caminhoneiro como massa de manobra. Contudo, o alerta permanece. Enquanto a guerra lá fora não acabar, a guerra política aqui dentro continuará sendo alimentada por aqueles que, para voltar ao poder, não hesitam em torcer para que o povo brasileiro enfrente filas nos postos e paralisação na economia. A batalha pela narrativa está apenas começando.

Com informações de Agência Brasil, CNN Brasil, UOL Economia, Congresso em Foco, Diário do Centro do Mundo, CartaCapital, Cenário Energia, Minaspetro ■

Mais Notícias