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Em um movimento que expõe rachaduras na coalizão do presidente Donald Trump, o diretor do Centro Nacional de Contraterrorismo (NCTC) dos Estados Unidos, Joe Kent, renunciou ao cargo nesta terça-feira (17). Em uma carta de demissão divulgada publicamente, Kent declarou que não poderia, "em sã consciência", apoiar a guerra em curso contra o Irã, argumentando que o país não representava uma ameaça iminente aos EUA e que o conflito foi iniciado sob pressão externa.
"O Irã não representava nenhuma ameaça iminente à nossa nação, e está claro que começamos esta guerra devido à pressão de Israel e seu poderoso lobby americano", escreveu Kent em sua carta publicada na rede social X, tornando-se o primeiro alto funcionário da administração a deixar o cargo em protesto contra o conflito no Oriente Médio. A renúncia ocorre em meio a um aumento da vigilância interna após ataques recentes em solo americano, incluindo um atentado em uma sinagoga em Michigan.
A decisão de Kent, no entanto, gerou uma imediata e feroz resposta da Casa Branca. O presidente Trump classificou Kent como um "cara legal", mas afirmou que ele sempre foi "fraco em segurança".
A posição de Kent encontrou eco em setores improváveis. Apesar de ser uma figura associada a teorias da conspiração e com um histórico de declarações controversas, sua visão sobre a guerra foi endossada pelo principal democrata no Comitê de Inteligência do Senado, Mark Warner.
Senador Mark Warner (Democrata-Virginia): "Discordo fortemente de muitas das posições que ele defendeu ao longo dos anos, particularmente aquelas que arriscam politizar nossa comunidade de inteligência. Mas neste ponto, ele está certo: Não havia evidências críveis de uma ameaça iminente do Irã que justificasse arrastar os Estados Unidos para outra guerra de escolha no Oriente Médio".
Por outro lado, aliados de Trump no Congresso rejeitaram veementemente as acusações. O presidente da Câmara, Mike Johnson, que participa do seleto grupo "Gang of Eight" com acesso a briefings de inteligência, afirmou que a declaração de Kent está "claramente errada".
Mike Johnson (Republicano-Louisiana): "Eu recebi todas as briefings. Todos nós entendemos claramente que havia uma ameaça iminente. O Irã estava muito perto da capacidade de enriquecimento nuclear e estava construindo mísseis a um ritmo que ninguém na região conseguia acompanhar. Estou convencido de que, se o presidente tivesse esperado, teríamos baixas em massa de americanos".
Kent, um ex-boina-verde com 11 missões de combate e ex-agente da CIA, tem uma história pessoal trágica com o terrorismo: sua esposa, uma criptologista da Marinha, foi morta por um bombista suicida do Estado Islâmico na Síria em 2019. Sua renúncia reacendeu o debate sobre os critérios para a entrada dos EUA em conflitos no exterior e expôs a tensão entre a ala mais isolacionista da base trumpista e a abordagem mais agressiva adotada pelo governo em relação ao Irã.
Apesar de sua trajetória de sacrifício, Kent era uma figura controversa, tendo sua confirmação no Senado fortemente contestada por democratas devido a laços passados com figuras da extrema-direita e a recusa em se distanciar de teorias conspiratórias sobre o ataque ao Capitólio em 6 de janeiro. O deputado republicano Don Bacon celebrou sua saída com um sonoro "Boa viagem", classificando as alegações sobre Israel como antissemitas.
A saída de Kent ocorre às vésperas de audiências no Congresso sobre as ameaças à segurança nacional, onde a diretora de Inteligência Nacional, Tulsi Gabbard — chefe de Kent e que também já expressou ceticismo sobre intervenções no exterior — deverá ser questionada sobre a justificativa para a guerra e as divisões internas na administração.
Com informações de AP News, The New York Times, Reuters, Politico, CNN, Armenpress, Radio-Canada, NHK World, Inquirer.net ■