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O ano de 2026, marcado pela desincompatibilização de governadores que disputarão as eleições, expõe como poucas vezes a linha tênue — ou o abismo — que separa a gestão pública da militância política. Enquanto alguns mandatários utilizam a máquina para entregar obras e parcerias, outros preferem o caminho mais curto do confronto narrativo, deixando pelo caminho um rastro de projetos não enviados, protocolos ignorados e vidas perdidas. A seguir, uma análise aprofundada das diferentes posturas que definem o mapa da gestão no Brasil.
O desalinhamento que custa caro: quando o lacre substitui a caneta
O primeiro e mais emblemático caso é o de Romeu Zema (Novo-MG). Enquanto as chuvas castigavam a Zona da Mata mineira em fevereiro de 2026, deixando mais de 60 mortos e um rastro de destruição em cidades como Ubá e Juiz de Fora, a postura do governador e de seus aliados revelou prioridades no mínimo questionáveis. O governo federal, por meio do Ministério da Integração, liberou emergencialmente R$ 2,9 milhões para Juiz de Fora e R$ 482,4 mil para Ubá. O governo de Minas, por sua vez, limitou-se a enviar maquinário e equipes de bombeiros — ações importantes, mas reativas, e não preventivas.
O ponto mais grave, no entanto, foi a visita do deputado federal Nikolas Ferreira (PL-MG) a Ubá. Acompanhado de Zema, o parlamentar transformou a tragédia em estúdio a céu aberto. Moradores revoltados filmaram a comitiva: trânsito fechado, tratores parados, equipes de limpeza impedidas de trabalhar para que Nikolas pudesse gravar seus "vídeos para o TikTok". A população, soterrada pela lama, reagiu com indignação: "Não vem aqui fazer política. Aqui, não. É fácil vir falar agora. Nem um caminhão-pipa pra jogar uma água nos estabelecimentos tem", disparou uma moradora diretamente a Zema. O comediante Danilo Gentili resumiu o espírito da visita: "Nikolas é deputado influencer. Nada fez nada para resolver alguma coisa até agora". A ausência de projetos estruturantes do governo estadual para contenção de encostas — algo que exigiria planejamento e parceria com a União — ficou escancarada.
No Rio de Janeiro, o governador Cláudio Castro (PL) protagonizou outro capítulo dessa novela. Em uma manobra com claros contornos eleitoreiros, o governo fluminense enviou ao Ministério da Defesa um pedido de "empréstimo" de equipamentos da Marinha para uma ação policial. O erro não foi burocrático: foi intencional. A Lei determina que esse tipo de solicitação deve ser endereçada ao Ministério da Justiça, órgão responsável pela articulação da segurança pública com os estados. Ao errar o destinatário de propósito, Castro criou a narrativa pronta para lacrar nas redes: "o governo federal abandona o Rio". O resultado prático dessa irresponsabilidade foi uma operação desastrada, desarticulada, que culminou na morte de pelo menos 121 pessoas na Vila Cruzeiro — incluindo quatro policiais — justamente no feriado do Dia do Servidor Público, que o estado havia adiado. A conta, ensanguentada, ficou para as famílias das vítimas e para a população que segue refém da violência.
No Rio Grande do Sul, Eduardo Leite (PSD) prefere o embate político à coordenação federativa. Pré-candidato ao Planalto, o governador gaúcho tem sistematicamente priorizado a "disputa de narrativas" com o governo federal em vez de somar esforços em ações conjuntas. Enquanto isso, problemas estruturais do estado — como infraestrutura logística e recuperação econômica pós-enchentes — seguem aguardando soluções que poderiam ser aceleradas por uma parceria institucional madura, mas que são postergadas em nome do palanque.
O alinhamento que entrega: quando a caneta assina obras, não lacres
Na outra ponta, o prefeito do Rio de Janeiro, Eduardo Paes (PSD), oferece uma aula de como a articulação política pode — e deve — reverter em benefício direto para a população. Aliado declarado do presidente Lula, Paes não apenas mantém diálogo aberto com o governo federal, como transforma essa parceria em entregas concretas.
O resultado é tangível: onde há alinhamento político, há obra; onde há obra, há melhoria de vida. A população da Maré e de Santa Cruz não precisa escolher lado — ela apenas recebe aquilo que o poder público tem a obrigação de entregar.
No entanto, outras pautas também são colocadas como pretexto de direcionamento de oposição. Candidato pelo partido do centro-direita PSD, de Gilberto Kassab, Paes é grande apoiador e articulador da PEC 38/2025 De autoria de seu correligionário Pedro Paulo, a proposta leva o serviço público ao campo da meritocracia e acaba com sua estabilidade, conforme proposta de modelo administrativo adotado nas gestões do próprio prefeito, com avaliações anuais de servidores e bônus em dinheiro de acordo com "metas alcançadas". Apesar da retórica, o modelo apresenta falhas e brechas gritantes, que remontam o "cabide político" no uso da máquina pública.
O pragmatismo que funciona: Tarcísio e a lição de que oposição não pode ser sinônimo de paralisia
Em São Paulo, o governador Tarcísio de Freitas (Republicanos) oferece um contraponto interessante. Embora seja um nome fortemente ligado ao bolsonarismo e pré-candidato à reeleição com o apoio do ex-presidente, Tarcísio adota uma postura pragmática e institucional em relação ao governo federal. Diferentemente de seus correligionários, o governador paulista não permite que a rivalidade política paralise a máquina. Ele negocia, libera verbas e firma parcerias, especialmente nas áreas de infraestrutura e logística, onde a bancada paulista no Congresso e a expertise técnica do estado são acionadas em conjunto com a União.
Essa postura, embora criticada pela ala mais radical do bolsonarismo, revela maturidade política: Tarcísio entende que o eleitor não paga a conta do radicalismo. A população de São Paulo continua recebendo investimentos federais em rodovias, ferrovias e programas sociais, mesmo com o governador fazendo oposição no plano nacional. O resultado é que a máquina não trava, e as entregas acontecem.
A conta, como sempre, é do consumidor — e do cidadão comum
Ao final dessa equação, um elemento permanece constante: quem paga a conta é o povo. Seja no preço dos combustíveis, discutido na nota anterior, seja na falta de projetos de contenção de encostas em Minas, na operação policial malfeita no Rio, ou na paralisia gaúcha, o cidadão comum arca com o preço do espetáculo político.
Os governadores que preferem o lacre ao diálogo:
Já os gestores que priorizam a entrega:
Em um ano eleitoral, onde a desincompatibilização de governadores e secretários já começa a redesenhar o mapa do poder, o eleitor precisa estar atento: o voto não pode ser um prêmio para quem transforma a gestão em palanque, mas sim um instrumento para cobrar daqueles que usam a caneta para construir, e não apenas para lacrar. O Brasil não suporta mais quatro anos de gestão que colocam a briga política à frente da vida das pessoas.
Com informações de Congresso em Foco, Tarobá, Diário da Região, TV Pampa, Prefeitura do Rio de Janeiro, Correio Braziliense, Estado de Minas, TMC ■