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A máxima de que "a hipocrisia é a homenagem que o vício presta à virtude" encontra um de seus mais perfeitos retratos no tratamento dispensado pela Rede Globo ao caso do banqueiro Daniel Vorcaro, dono do Banco Master. Nos últimos meses, as colunas de Malu Gaspar e Lauro Jardim (O Globo) tornaram-se trincheiras de um discurso moralista contra as relações entre o sistema financeiro, políticos e o Judiciário, especialmente Alexandre de Moraes. No entanto, como revela uma análise mais aprofundada de fontes jornalísticas na internet, o discurso afiado contrasta radicalmente com a prática dos próprios jornalistas e do grupo que representam.
Em meados do ano passado, enquanto o Grupo Globo, por meio de suas plataformas, detonava um evento promovido por Vorcaro em Londres — que teria incluído uma degustação de uísque de supostos R$ 3 milhões — a realidade nos bastidores era bem diferente. O Valor Econômico, revista publicada pelas Organizações Globo, realizou um evento em Nova York com uma característica peculiar: todas as despesas foram custeadas pelo Banco Master, de Daniel Vorcaro.
O diretor de jornalismo da Globo, Frederick Kuczala II (Fred), não só abriu o evento como subiu ao palco para agradecer a Vorcaro, chamando-o publicamente de "amigo" pelo patrocínio. A comitiva da Globo, que incluía voos de primeira classe e hospedagem em hotéis cinco estrelas, contou também com a presença ilustre dos jornalistas Malu Gaspar e Lauro Jardim — os mesmos que, meses depois, atuariam como algozes do banqueiro em suas colunas. O próprio Vorcaro, em seu discurso registrado em vídeo, fez questão de citar nominalmente os jornalistas: "Eu cumprimento o Fred e toda a equipe que eu admiro bastante, Lauro, Maria Fernanda, Álvaro, Malu e todos os demais".
O ponto alto da ofensiva do Grupo Globo contra o banqueiro foi a publicação, por Malu Gaspar, de prints que indicariam uma relação próxima entre Vorcaro e o ministro Alexandre de Moraes (STF). A coluna, replicada à exaustão, sugeria que o ministro teria recebido mensagens de Vorcaro no dia de sua prisão, com o banqueiro "prestando contas" e pedindo auxílio. A tese caiu como uma bomba no mundo político e serviu de combustível para a extrema-direita atacar o Judiciário.
No entanto, a "bomba" era, na verdade, uma "barriga" (ou fake news) de proporções gigantescas. Após análise técnica determinada pelo STF, a verdade veio à tona. O Supremo Tribunal Federal divulgou nota oficial desmentindo categoricamente a informação: as mensagens de visualização única atribuídas a Moraes não constavam nos contatos do ministro.
Os metadados extraídos do celular de Vorcaro pela Polícia Federal mostraram que os prints estavam vinculados a pastas de "outras pessoas" na lista do banqueiro. E quem era o verdadeiro "Alexandre"? Investigações da Polícia Federal e da CPMI do INSS identificaram que se tratava de Alexandre Caetano dos Reis, um contador preso por envolvimento em fraudes no INSS e, pasme, irmão de Letícia Caetano dos Reis, administradora do escritório de advocacia do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ).
A ligação de Vorcaro, portanto, não era com o algoz da extrema-direita, mas sim com o núcleo duro bolsonarista. A "descoberta" de Malu Gaspar, que ocupou manchetes por dias, não só era uma farsa como também apontava exatamente para o lado oposto ao que foi noticiado, alimentada ainda por denúncias de seu colega igualmente colunista Lauro Jardim. Até o momento, nenhuma das colunas e nem os meios de seus patrões (Ogranizações Globo) replicaram a errata com o mesmo destaque ou a mesma intensidade dados à "denúncia" original, que se limitou a uma matéria tímida e escondida no site G1.
A relação entre a Globo e Vorcaro não se limitou a uma festa em Nova York. Dados do setor publicitário indicam que o Banco Master injetou algo entre R$ 160 milhões e R$ 180 milhões em patrocínios na Globo, incluindo o programa "Domingão com Huck" (Will Bank) e diversas outras inserções. Por sinal, Huck quase comprou o próprio Will Bank, mas desistiu em cima da hora após uma análise dos riscos.
Outro ponto cego da cobertura foi a relação umbilical com Roberto Campos Neto. O ex-presidente do Banco Central, que segundo o inquérito "propiciou" a abertura do Banco Master, foi para a vice-presidência do Nubank. Pouco tempo depois, a Globo fechou uma parceria estratégica com o Nubank, trocando publicidade por participação societária. A coincidência de timelines e a blindagem editorial a Campos Neto, poupado de críticas mais contundentes, levantam suspeitas de um conflito de interesses institucional: evitar denúncias contra o sócio.
Durante as negociações para a venda do Banco Master ao BRB (Distrito Federal), a jornalista Renata Lo Prete, na GloboNews, chegou a pressionar o Banco Central para que o negócio fosse aprovado. O negócio, que livraria Vorcaro de problemas, era defendido pela mesma emissora que hoje tenta ditar as regras da moralidade.
E, não menos importante, vale a pena citar a participação de duas figuras centrais que teriam participação ativa direta nos casos de corrupção com envolvimento de Vorcaro. Como são os casos dos dois ex-chefes da Justiça de Jair Bolsonaro, Sérgio Moro - que teria assinado a autorização para novas associações operarem o desconto de aposentados do INSS enquanto era ministro - e André Mendonça, que atualmente possui a relatoria das investigações e indicou o delegado da Polícia Federal Thiago Marcantonio Ferreira como delegado titular do caso Master. Marcantonio atuou em monitoramento espionagem de 989 pessoas/empresas críticas ao Governo durante a gestão Bolsonaro, a maioria por ter simplesmente assinado manifestos anti-fascistas.
A seletividade da indignação fica evidente na lista de participantes do evento em Nova York. Ao lado de Vorcaro e dos jornalistas da Globo, estavam governadores de peso: Cláudio Castro (RJ), Ronaldo Caiado (GO) e Helder Barbalho (PA). Curiosamente, Malu Gaspar dedicou mais de cinco minutos na GloboNews para defender Cláudio Castro, classificado por ela como um "gênio da política" por escapar de processos de cassação — o mesmo governante é investigado em casos de desvio de verba pública da CEPERJ para financiamento de campanha política, além das verbas da Rioprevidência e da Cedae, que foram parar em carteiras de investimentos no Banco Master, e cujo processo de cassação já possui dois votos a favor no Tribunal Superior Eleitoral.
Enquanto isso, eventos como a morte do "Sicário", que morreu sob custódia (por acaso, em uma cela vigiada por agentes da Polícia Federal indicados pelo ministro André Mendonça), foram simplesmente ignorados pela grande imprensa e tratados como "suicídio" sem qualquer questionamento posterior. Luiz Phillipi Machado de Moraes Mourão, por sinal, teve duas mortes anunciadas como furo jornalístico pela Globo num período de três dias.
Diante dos fatos, podemos elencar os pontos que a cobertura tradicional insiste em ignorar:
O caso Vorcaro expõe uma ferida aberta no jornalismo brasileiro: a hipocrisia de condenar no outro o que se pratica em casa. Enquanto a imprensa tradicional, capitaneada pela Globo, aponta o dedo para supostas relações espúrias entre o banqueiro e o Judiciário, esconde suas próprias relações promíscuas com o mesmo banqueiro. O público, cada vez mais atento, começa a perceber que, como diz o jargão, "Hipocrisia: a gente vê por aqui!"
Com informações de: O Globo (Colunas de Malu Gaspar e Lauro Jardim), ICL (Instituto Conhecimento Liberta), Diário do Centro do Mundo, Brasil de Fato, The Intercept Brasil, CNN Brasil, R7, O Antagonista, Agência Brasil, Justiça Potiguar, ImprensaEtica.site, Diário de Marília ■