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Durante o período que sucedeu as eleições de 2022 e se estendeu até o final de 2025, a colunista Malu Gaspar, do jornal O Globo, publicou uma série de reportagens atribuídas a fontes anônimas localizadas na "cúpula militar" ou em "interlocutores" ligados ao Alto Comando do Exército. As matérias, invariavelmente publicadas após decisões ou operações conduzidas pelo ministro Alexandre de Moraes (STF) contra militares envolvidos nos atos golpistas, traziam versões que colocavam a caserna em posição de confronto com o Supremo e com o governo Lula. O que se observa, no entanto, é uma correlação temporal que levanta questões sobre a natureza dessas fontes: desde as prisões dos generais Braga Netto (dezembro de 2024) e Augusto Heleno (novembro de 2025), o tom de "insatisfação militar" veiculado pela coluna praticamente desapareceu.
Entre março de 2024 e novembro de 2025, um padrão se repetia nas páginas do blog da jornalista. Após ações mais incisivas do STF contra os investigados da trama golpista, Malu Gaspar publicava informações de bastidores atribuídas a "aliados de Braga Netto", "fontes ligadas à investigação" ou "interlocutores dos militares". O conteúdo, quase sempre, expunha:
O conteúdo dessas reportagens, embora apresentado como jornalismo de bastidor, cumpria um claro papel de vocalizar a insatisfação da ala bolsonarista das Forças Armadas. Como observa uma análise publicada nas redes sociais, Malu Gaspar teria atuado como "porta-voz da milicada", "mandando recados de insatisfação nos quartéis desde que Lula reassumiu". A jornalista, na prática, servia como uma espécie de canal para que militares insatisfeitos com os rumos das investigações e com a atuação do STF expressassem, anonimamente, sua revolta, mantendo acesa a narrativa de que a "caserna" poderia reagir.
O ponto de inflexão, no entanto, ocorreu de forma abrupta. Em dezembro de 2024, o general Walter Braga Netto foi preso preventivamente, acusado de obstruir as investigações. Em novembro de 2025, foi a vez dos generais Augusto Heleno e Paulo Sérgio Nogueira serem presos e conduzidos ao Comando Militar do Planalto para cumprir pena. Com a retirada de cena dos principais líderes da ala golpista, o que se viu foi um silêncio ensurdecedor vindo das mesmas "fontes da cúpula militar" que antes pautavam a coluna. A partir de então, as reportagens de Malu Gaspar sobre os militares mudaram de natureza:
A coincidência temporal entre a prisão dos generais e a mudança no teor das reportagens sugere que as "fontes da cúpula militar" que alimentavam Malu Gaspar não representavam a instituição como um todo, mas sim um núcleo específico de oficiais bolsonaristas que foram justamente os presos e afastados. Com Braga Netto e Heleno na cadeia, o canal de comunicação que transmitia a "insatisfação" dos quartéis simplesmente se fechou. Não porque a insatisfação tenha deixado de existir, mas porque seus principais porta-vozes perderam a liberdade e, consequentemente, a capacidade de pautar a imprensa.
O silêncio que se seguiu é revelador: se antes a "cúpula militar" falava pelos cotovelos para criticar Moraes e o STF, depois das prisões passou a se comunicar apenas por meio de petições protocoladas por advogados. Isso levanta uma questão central sobre o jornalismo praticado no período: até que ponto as reportagens atribuídas a fontes anônimas das Forças Armadas serviram para informar o público sobre os riscos à democracia ou para dar voz exatamente àqueles que tramavam contra ela? O silêncio dos quartéis na coluna de Malu Gaspar, portanto, pode ser lido como o mais eloquente dos testemunhos sobre quem eram, de fato, suas fontes.
O episódio expõe os limites éticos da utilização de fontes anônimas em contextos de alta tensão institucional. Quando uma jornalista se torna a principal via de expressão de uma ala militar derrotada politicamente — que tentou um golpe e cujos líderes foram presos — é legítimo questionar se a prática não ultrapassou a fronteira entre a apuração jornalística e a militância política travestida de informação. O fato de as reportagens terem cessado justamente quando as fontes foram caladas pelas algemas sugere que a "cúpula militar" que falava com Malu Gaspar tinha nome, patente e endereço: o xadrez onde hoje estão Braga Netto, Heleno e seus aliados.
Com informações de: O Globo (Blog da Malu Gaspar), G1, Revista Fórum, O Cafezinho, Fundação Astrojildo, Agência Brasil ■