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Não é de hoje que a Amazônia serve de palco para disputas narrativas. Mas a mais recente tática de subversão da opinião pública eleva a desinformação a um patamar tecnológico inédito: o uso de inteligência artificial (IA) generativa para criar cenários bizarros, como uma imagem que viralizou mostrando indígenas dentro de um barco no meio da mata segurando uma faixa de apoio a Jair Bolsonaro com elefantes ao fundo. A cena, obviamente fabricada, sintetiza o que pesquisadores chamam de "bombas informacionais" — conteúdos criados menos para enganar o olhar treinado e mais para mobilizar afetos, testar limites e poluir o debate público.
A montagem não é um erro ingênuo. Ela carrega camadas de simbolismo: usa a imagem do indígena (historicamente associado a pautas ambientais e de esquerda) para gerar choque e pertencimento em nichos bolsonaristas. O elemento absurdo — os elefantes — funciona como uma espécie de trollagem que, em vez de denunciar a farsa, ajuda o conteúdo a escapar dos filtros racionais. Em agosto de 2022, uma versão preliminar dessa tática já havia sido flagrada: apoiadores de Flávio Bolsonaro usaram IA para simular apoio indígena, mas esqueceram de trocar a palavra "Amazon" (inglês) e deixaram hipopótamos na imagem. O erro grotesco não impediu a disseminação; ao contrário, virou piada e ampliou o alcance.
Esse fenômeno se insere no que o pesquisador Paolo Demuru (Universidade Paulista) chama de magia política — a substituição do debate racional por narrativas que encantam e criam laços de pertencimento. A extrema direita global descobriu que não é preciso que a imagem seja perfeita; basta que ela ressoe emocionalmente com uma base que já desconfia da grande mídia e das instituições. "É um simulacro de interação direta com o público", explica a semioticista Yvana Fechine (UFPE). "Quando um seguidor vê aquela imagem, ele não pensa no elefante; ele sente que os indígenas também estão 'do lado dele'.".
A estratégia de Bolsonaro e seus apoiadores, analisada no livro "Um bufão no poder", sempre foi a da presencialidade performática. Agora, com a IA generativa, eles ganharam uma ferramenta de escala industrial. O pesquisador Fernando Osório (ICMC-USP) demonstrou como é fácil contornar as salvaguardas éticas de programas como o ChatGPT para gerar conteúdo falso: em seus testes, o professor "matou" colegas e forjou biografias inteiras com poucos comandos. Se com texto é tão simples, com imagem o poder de fogo é ainda maior.
O impacto disso na formação da opinião pública é profundo. Estudos acadêmicos recentes apontam que as redes sociais, alimentadas por algoritmos de recomendação, criam bolhas onde a pós-verdade impera. O conceito, que ganhou força na última década, descreve como crenças pessoais e emoções frequentemente se sobrepõem aos fatos objetivos. No caso dos elefantes na Amazônia, a imagem falsa não precisa ser acreditada literalmente; ela serve para reforçar uma narrativa maior: a de que até os indígenas (supostos guardiões da floresta) estariam com Bolsonaro, logo, as críticas internacionais ao desmatamento seriam hipocrisia. Essa inversão retórica já havia sido usada em 2019, quando o governo Bolsonaro acusou ONGs de serem responsáveis por queimadas.
Há um precedente curioso e revelador sobre elefantes na Amazônia. Em 2019, a TV alemã N-TV exibiu uma reportagem sobre queimadas na floresta e, por um erro de edição, usou imagens de elefantes africanos fugindo do fogo. O erro foi corrigido, mas a oposição a Bolsonaro na época usou o caso para ridicularizar a cobertura internacional. Anos depois, a direita resgata o mesmo meme dos elefantes, agora com IA, para inverter o sinal: se antes a esquerda ria da imprensa internacional, agora a direita fabrica uma "prova" de que indígenas apoiam seu líder. O ciclo mostra como a desinformação se retroalimenta.
Diante desse cenário, as instituições tentam reagir. O Tribunal Superior Eleitoral (TSE) aprovou em 2024 um pacote de regras inédito, apelidado de "lei do silêncio para IA". A resolução proíbe qualquer conteúdo gerado ou alterado por inteligência artificial nos três dias que antecedem as eleições e nas 24 horas seguintes. Além disso, determina a rotulagem obrigatória de materiais sintéticos e o banimento de perfis falsos usados para difamar candidatos. A medida é um avanço, mas enfrenta o problema da velocidade: uma imagem como a dos elefantes pode viralizar e cumprir seu papel antes mesmo de ser derrubada.
Organizações de checagem e até entidades de preservação ambiental, como a Wildlife SOS, já estão se posicionando contra a onda de deepfakes de vida selvagem. Elas alertam que vídeos falsos de animais em perigo podem desacreditar resgates reais e dessensibilizar o público. No Brasil, o impacto é ainda mais grave porque a Amazônia é um território disputado simbolicamente. Quando a IA é usada para mostrar elefantes onde só existem árvores, ou para colocar palavras na boca de indígenas, não é apenas uma mentira; é um ataque à própria noção de realidade que sustenta políticas ambientais e direitos territoriais.
O pesquisador Edson Prestes, que integra o Painel de Alto Nível da ONU sobre Cooperação Digital, defende que o combate à manipulação passa pelo que chama de empoderamento digital. Não basta dar acesso à internet; é preciso ensinar as pessoas a questionar a tecnologia e entender como os algoritmos nos manipulam. "As pessoas têm que aprender a aprender", diz ele, destacando que a formação humanista é tão importante quanto a técnica para enfrentar esses novos desafios.
A imagem dos elefantes na Amazônia com indígenas pró-Bolsonaro é, portanto, uma metáfora perfeita do nosso tempo: absurda, mas poderosa. Ela nos lembra que, na era da IA generativa, a verdade se tornou um recurso escasso e disputado. E que o jornalismo, a ciência e a cidadania precisarão de novas armas — talvez tão criativas quanto as da desinformação — para defender o mínimo: que fatos ainda importam.
O desafio colocado é imenso. Não basta denunciar a farsa com racionalidade, como alertam os semioticistas. É preciso disputar também o campo do encantamento e da emoção, sob pena de deixarmos a "magia política" apenas nas mãos daqueles que a usam para destruir.
Com informações de Threads (Radar Brasil), G1 (Fato ou Fake), Jornal da USP, Wildlife SOS, Nações Unidas Brasil, RTP Notícias, The Intercept Brasil, Revista Ibero-Americana de Humanidades (REASE), Revista Comunicação & Informação (UFG) ■