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Entre o rombo bilionário e a conta do povo: país segue sem arrecadação fiscal sobre banqueiros
Enquanto a maior fraude bancária da história escancara um prejuízo de R$ 55 bilhões e conexões perigosas entre o crime financeiro e o alto escalão da República, o Estado brasileiro patina na incapacidade de tributar os lucros extraordinários do sistema financeiro e de responsabilizar seus controladores, cuja decisão depende da boa vontade do Congresso
Analise
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■   Bernardo Cahue, 18/02/2026

A liquidação extrajudicial do conglomerado que envolvia os bancos Master, Will Bank e Pleno escancarou o maior colapso financeiro já visto no Brasil. Com oito instituições fechadas pelo Banco Central desde novembro de 2025, o rombo total já ultrapassa a cifra de R$ 55 bilhões, superando em muito o histórico e traumático caso do Banco Nacional, até então o recordista quando se aplica a correção inflacionária. Mas o que realmente está em jogo não é apenas o tamanho do prejuízo privado, e sim a absoluta fragilidade do Estado em garantir que os responsáveis paguem a conta e que os tributos sobre a renda e as movimentações fraudulentas sejam efetivamente recolhidos.

As investigações da Polícia Federal, no âmbito da Operação Compliance Zero, revelaram um modelo de negócio baseado na criação de "ativos fantasmas" e na maquiagem contábil. O esquema funcionava como uma bomba-relógio: o Banco Master captava recursos oferecendo taxas muito acima do mercado, lastreando esses investimentos em títulos podres e operações de crédito sem garantia, muitas delas com empresas de fachada ou ligadas aos próprios controladores. Quando a estrutura ruiu, ficaram os escombros:

  • R$ 40,6 bilhões em garantias a serem pagas pelo FGC (Fundo Garantidor de Créditos) apenas para o conglomerado do Banco Master.
  • R$ 6,3 bilhões destinados aos correntistas do Will Bank, banco digital que também operava com as mesmas práticas de risco.
  • R$ 4,9 bilhões adicionais para cobrir os prejuízos do Banco Pleno (antigo Voiter), que herdou uma carteira podre de CDBs do Master e não conseguiu se sustentar.
  • Estima-se que o total de operações fraudulentas possa chegar a R$ 12 bilhões, com a emissão de títulos fictícios que nunca tiveram lastro real.

O ministro da Fazenda, Fernando Haddad, classificou o episódio como "possivelmente a maior fraude bancária da história do Brasil". No entanto, enquanto a cifra do escândalo assombra o sistema financeiro, a estrutura de arrecadação tributária do país permanece operando na lógica do "peixe pequeno".

Onde está a Receita?

Em 2026, a Receita Federal ampliou o monitoramento das movimentações financeiras por meio do sistema e-Financeira, que obriga bancos e fintechs a reportarem ao Fisco os totais mensais de movimentação de pessoas físicas (acima de R$ 5 mil) e jurídicas (acima de R$ 15 mil). A justificativa oficial é o combate à sonegação e à lavagem de dinheiro, com o cruzamento desses dados para identificar incompatibilidades patrimoniais e omissão de renda. Ocorre que, para os verdadeiros artífices de fraudes bilionárias, esse sistema tem se mostrado uma peneira.

As operações do Banco Master envolviam complexas triangulações de recursos, passando por fundos de investimento, gestoras como a Reag (também liquidada) e até a venda de carteiras de crédito podres para instituições como o BRB (Banco de Brasília), em negociações que superaram os R$ 12 bilhões. A pergunta que ecoa nos corredores do Ministério Público e da imprensa especializada é: onde estava a fiscalização da Receita Federal enquanto bilhões de reais em títulos falsos e operações de risco circulavam pelo sistema?

Mais grave: o governo federal comemora o cumprimento da meta fiscal de 2025 com um déficit de R$ 13 bilhões (após abatimentos autorizados), graças a uma arrecadação recorde. Mas essa arrecadação não reflete a capacidade de tributar a renda e os lucros obtidos por meio de fraudes. O rombo de R$ 55 bilhões, que em grande parte será coberto pelo FGC — um fundo privado, mas alimentado por contribuições de todo o sistema financeiro, incluindo bancos públicos —, representa um custo social imenso. O dinheiro que sai do bolso do povo, via FGC, para cobrir a ganância de banqueiros, deveria ser o mesmo dinheiro que, se tributado corretamente, financiaria saúde, educação e infraestrutura.

O enlace perigoso entre o crime financeiro e o poder

A análise crítica do caso Master não pode ignorar o capítulo mais obscuro da trama: a promiscuidade entre os investigados e as mais altas esferas do Judiciário e da política. Documentos da Polícia Federal e reportagens investigativas revelaram uma teia de relações que levanta suspeitas gravíssimas sobre a imparcialidade e a lisura das investigações. Eis alguns dos pontos mais críticos:

  • Ministro Dias Toffoli (STF): Relator original do caso, teve de ser substituído após a PF encontrar em celular de Daniel Vorcaro (dono do Master) mensagens que citavam o magistrado. A suspeita envolve a venda da participação da família Toffoli em um resort para um fundo ligado ao banqueiro por cerca de R$ 6,6 milhões, além de viagens em jatinho com advogados do banco. Toffoli negou qualquer relação pessoal ou financeira com Vorcaro.
  • Alexandre de Moraes (STF): A esposa do ministro, a advogada Viviane Barci de Moraes, tinha um contrato de prestação de serviços jurídicos com o Banco Master no valor de R$ 3,6 milhões mensais. A informação não foi contestada pelos envolvidos.
  • Ricardo Lewandowski (ex-STF e ex-Ministro da Justiça): O escritório da família do ex-ministro prestou serviços ao banco de janeiro de 2023 a agosto de 2025. Lewandowski afirma que se desligou ao assumir o Ministério da Justiça, mas sua mulher e filho continuaram atuando para o conglomerado de Vorcaro.
  • Ibaneis Rocha (Governador do DF): Investigações apontam que a tentativa de venda de uma carteira de crédito podre do Master para o BRB, por R$ 12 bilhões, contou com articulação do governador e de diretores do banco estatal, negócio que gerou um prejuízo bilionário aos cofres públicos do Distrito Federal.

Esse cenário expõe uma verdade incômoda: a mesma República que não consegue tributar adequadamente os lucros do sistema financeiro é a que abriga, em seus mais altos postos, figuras que se relacionam umbilicalmente com os acusados de comandar a fraude. A pergunta que o ministro Paulo Rabello de Castro, ex-presidente do BNDES, deixou no ar é cirúrgica: "O Banco Central deixou a criança escorregar no precipício", referindo-se à leniência do órgão regulador. E complementa: "É um caso de prevaricação por excesso de leniência, não o contrário". A mesma leniência pode ser observada na omissão fiscal.

As fragilidades do sistema de arrecadação frente ao poderio bancário

O sistema financeiro nacional é historicamente marcado por privilégios. Em 2025, apenas os cinco maiores bancos privados acumularam lucros da ordem de R$ 58 bilhões. Apesar disso, a complexidade das operações financeiras, a velocidade das transações e a capilaridade das fintechs tornam a fiscalização tributária um desafio hercúleo para uma Receita Federal ainda carente de modernização. O próprio presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, admitiu a necessidade de aprimorar o perímetro de supervisão e defendeu aumento de orçamento para a autarquia.

O problema, no entanto, vai além da falta de recursos. Há uma fragilidade estrutural na maneira como o Estado encara o sistema financeiro. As novas regras de fiscalização do Pix e o envio de dados ao Fisco via e-Financeira são ferramentas importantes, mas atuam sobre o varejo, sobre o cidadão comum que movimenta R$ 5 mil. Para as grandes operações, as fraudes continuam a encontrar brechas. A regulamentação do Banking as a Service (BaaS) pelo BC, em novembro de 2025, é uma tentativa de coibir abusos, definindo claramente que a responsabilidade final é da instituição financeira regulada. Mas será que isso será suficiente para impedir que fintechs sejam usadas como "laranjas" para lavagem de dinheiro, como já identificado em operações contra o PCC?

Enquanto não houver um sistema robusto de tributação sobre grandes fortunas, heranças e lucros e dividendos distribuídos por bancos, a sensação de impunidade fiscal permanecerá. O rombo de R$ 55 bilhões do caso Master é um monumento a essa ineficiência: se o Estado não consegue tributar o que é lícito, muito menos irá tributar o ilícito antes que ele se transforme em prejuízo para o fundo garantidor — e, em última instância, para toda a sociedade.

Lições não aprendidas e a conta que não fecha

A história das fraudes bancárias no Brasil é pontuada por escândalos que se repetem com assustadora semelhança. Do Proer dos anos 1990 (que custou R$ 45 bilhões em valores atualizados) aos casos Marka-Fontecidam (2002), Banco Santos (2005) e Panamericano (2010), o padrão é o mesmo: gestão temerária, fraudes contábeis e, ao final, o FGC (ou o Estado) socorrendo os depositantes enquanto os controladores, quando muito, respondem a processos em liberdade.

No caso atual, Daniel Vorcaro chegou a ser preso, mas foi solto por liminar. A Justiça bloqueou bens, mas o rombo está aí. O economista Rabello de Castro é taxativo: "O BRB deveria ser liquidado, não capitalizado", criticando a tendência de usar dinheiro público para salvar instituições que se envolveram em negócios podres. A conta da fraude, mais uma vez, não será paga pelos banqueiros. Será rateada entre:

  • Os correntistas que tinham mais de R$ 250 mil aplicados e agora aguardam na fila de credores, sem garantia de receber um centavo.
  • Os bancos associados ao FGC, que terão de antecipar contribuições e aumentar alíquotas para recompor o fundo, repassando esses custos para toda a sociedade na forma de taxas e juros mais altos.
  • Os cofres públicos, que deixam de arrecadar tributos sobre a movimentação criminosa e ainda arcam com o desgaste institucional e a corrosão da confiança no sistema financeiro.

Enquanto isso, o país segue sem uma reforma tributária que efetivamente taxe os super-ricos e sem um mecanismo eficaz de fiscalização em tempo real das operações de risco no sistema financeiro. A lição que fica é amarga: o Estado brasileiro demonstra muito mais eficiência em apertar o cerco sobre o cidadão comum que movimenta R$ 5 mil no Pix do que em impedir que bilionários montem esquemas fraudulentos com a complacência de reguladores e a promiscuidade de membros do alto escalão da República.

O caso Master, Pleno e Will Bank não é apenas um colapso bancário. É o sintoma mais agudo de uma doença crônica: a certeza da impunidade e a fragilidade de um Estado que, na hora de garantir a arrecadação e a justiça fiscal, sempre parece olhar para o lado.

Para que a história não se repita, seria necessário:

  1. Fiscalização prévia efetiva: O Banco Central precisa de autonomia e recursos para intervir antes que a "bomba-relógio" exploda, e não depois, como ocorreu.
  2. Responsabilização criminal e patrimonial: Os controladores devem responder com o próprio patrimônio, e não apenas com o dinheiro do FGC, criando mecanismos de recuperação de ativos mais ágeis.
  3. Tributação real do sistema financeiro: É preciso avançar em uma tributação efetiva sobre lucros e dividendos distribuídos por bancos e sobre grandes operações especulativas, desestimulando o "risco moral" de que, no fim, a conta sempre sobra para o povo.
  4. Blindagem do sistema de Justiça: É inadmissível que ministros do STF ou seus familiares mantenham relações comerciais ou contratuais com investigados em fraudes bilionárias, sob pena de comprometer irremediavelmente a credibilidade das investigações.

Com informações de Poder360, DW Brasil, Extra Online, G1, Agência Brasil, CNN Brasil, Contábeis, A Verdade ■

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