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Relatórios internos da Polícia Federal indicam que delegados e agentes investigados por acesso ilegal a dados de ministros abasteciam a imprensa com informações seletivas; jornalista Malu Gaspar, colunista do jornal O Globo e comentarista da CBN, torna-se peça central de uma guerra institucional onde as fontes anônimas agora são alvo de mandados de busca e apreensão
Os desdobramentos da crise entre o Supremo Tribunal Federal (STF) e a cúpula da Polícia Federal revelaram um capítulo tão irônico quanto grave para o jornalismo político brasileiro. As investigações conduzidas sob a relatoria do ministro Alexandre de Moraes, com base em um relatório da Receita Federal, não apenas identificaram os responsáveis por acessos ilegais aos sistemas de dados de autoridades com prerrogativa de foro, mas também escancararam o modus operandi de um esquema de vazamentos seletivos que tinha como destino preferencial as páginas dos diários da Globo e os microfones da CBN.
De acordo com os autos da operação que cumpriu mandados em mais de 30 endereços, os delegados e agentes afastados não se limitavam a consultar informações sigilosas de ministros do STF sem autorização judicial ou da Procuradoria-Geral da República (PGR). Eles atuavam como fontes ilegais dentro da própria corporação, alimentando um ecossistema de reportagens com claro viés político contra determinados membros da Corte, especialmente Alexandre de Moraes.
No centro desse furacão está a jornalista Malu Gaspar. Colunista do jornal O Globo e comentarista da rádio CBN, Gaspar tornou-se a principal voz de uma série de reportagens que, nos últimos meses, adotaram um tom incisivo e investigativo contra o ministro Alexandre de Moraes e sua família. A ironia, agora desvendada, é que as fontes que garantiram a Malu o título de "bem informada" — como a classificaram seus colegas de redação — estavam, na verdade, forjando provas e acessando ilegalmente dados para validar teses contra o Judiciário.
A situação expõe três camadas distintas de um mesmo problema:
O jornalista Luis Nassif, em artigo publicado no Jornal do Brasil, questionou abertamente o que chamou de "campanha da Globo contra Alexandre de Moraes". Para Nassif, a insistência no tema e o uso abusivo de fontes anônimas — característica que ele atribui à repórter Malu Gaspar — sugere uma "conspiração" com objetivos ainda não totalmente claros, mas que podem estar ligados à defesa de legados jornalísticos antigos, como a Lava Jato, ou a interesses políticos do Centrão.
A análise de Nassif ganha contornos mais nítidos quando se observa a atuação coordenada dos veículos do Grupo Globo. Enquanto Malu Gaspar publicava as denúncias em seu blog no O Globo e no podcast "Conversa de Bastidor" na CBN, os comentaristas da casa reverberavam o material. Em dezembro de 2025, Carlos Alberto Sardenberg e Merval Pereira utilizaram o espaço na CBN para classificar as revelações como "gravíssimas" e defender que a situação "tinha que ter um fim", acenando com a possibilidade de impeachment do ministro — um salto editorial baseado em informações ainda sob investigação e não comprovadas.
O caso reacende um debate fundamental no jornalismo: a credibilidade das fontes anônimas. Em sua defesa, a Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (Abraji) saiu em solidariedade a Malu Gaspar, repudiando ataques misóginos e defendendo o direito da jornalista de proteger suas fontes.
No entanto, críticos apontam que a situação é mais complexa. O jornalista Moisés Mendes, do Diário do Centro do Mundo, fez um apelo direto a Malu Gaspar: "Vá à luta e mostre as provas". Mendes argumenta que, embora o jornalista tenha o direito de preservar a identidade de quem informa, ele tem o dever de provar a veracidade do fato narrado. No caso da reunião entre Moraes e Galípolo, tanto o ministro quanto o Banco Central confirmaram o encontro, mas negaram a pauta de lobby, afirmando que se tratava das sanções da Lei Magnitsky. Diante da negativa oficial, o ônus da prova recai sobre o autor da denúncia. Até o momento, as provas concretas não foram apresentadas, e as "seis fontes" mencionadas permanecem no anonimato.
Os principais pontos em jogo nesta crise de credibilidade são:
A operação da PF que mirou os próprios agentes é um marco. Ela sinaliza que o STF não tolerará que a máquina pública seja usada para desestabilizar a Corte, ainda que isso signifique confrontar diretamente a principal empresa de comunicação do país. Para Malu Gaspar, a situação é delicada: suas fontes não são mais apenas "bem-informadas", são investigadas. E, com a quebra dos sigilos e as buscas, a verdade sobre o que era informação de interesse público e o que era ação criminosa contra o Estado começará, inevitavelmente, a vir à tona.
O jornalismo de fontes, quando bem-sucedido, ilumina os porões do poder. Mas, quando as fontes mentem ou agem de má-fé, o jornalista corre o risco de se tornar um instrumento de desinformação e instabilidade. O desfecho dessa novela definirá não apenas o futuro dos delegados investigados, mas também os limites da relação entre a imprensa e as corporações de Estado no Brasil.
Com informações de: Jornal do Brasil, Brasil 247, Diário do Centro do Mundo, Gazeta do Povo, CBN, O Globo, Fronteiras do Pensamento ■