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O samba passa, a polêmica fica e o ferimento é no ego
Homenagem a Lula na Sapucaí sobrevive ao jurídico, mas acirra ânimos da oposição e acende alerta sobre o uso político da festa popular em ano eleitoral
Analise
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■   Bernardo Cahue, 15/02/2026

O Carnaval de 2026 no Rio de Janeiro entrou para a história não apenas pela beleza plástica dos desfiles, mas pelo embate político e jurídico que protagonizou. A homenagem da Acadêmicos de Niterói ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) levantou uma questão crucial para a democracia brasileira: até que ponto a manifestação popular e cultural pode ser confundida com propaganda eleitoral antecipada, a ponto de colocar em risco a candidatura de um chefe de Estado?

Até o momento, a resposta da Justiça tem sido favorável à festa popular. O Tribunal Superior Eleitoral (TSE) rejeitou liminares que pediam a proibição do desfile, com a ministra Estela Aranha destacando que a proibição representaria censura prévia. A decisão unânime seguiu a jurisprudência da casa, que veda intervenções em eventos futuros e incertos. No entanto, a presidente do TSE, ministra Cármen Lúcia, fez um alerta preciso ao comparar a situação a uma "areia movediça": quem nela pisa corre o risco de afundar, sugerindo que os limites entre a homenagem e o ilícito eleitoral são tênues.

Ao analisarmos o contexto, fica evidente que a força popular manifestada no samba-enredo transcendeu a simples homenagem. Com trechos que remetem a jingles de campanha e menções indiretas ao número 13, a festa popular se tornou uma provocação que desestabilizou a oposição. Para parlamentares do PL e do Novo, que acionaram a Justiça em múltiplas frentes, a mensagem é clara: a exaltação da trajetória do presidente em pleno ano eleitoral, com recursos públicos indiretos via Embratur, extrapola os limites da liberdade artística e configura abuso de poder político e econômico.

O deputado Marcel van Hattem (Novo-RS) classificou a situação como típica de uma "república soviética", onde o Estado é sequestrado para fins pessoais. A senadora Damares Alves (Republicanos-DF) também tentou, sem sucesso, barrar a homenagem na Justiça Federal, mas a ação foi extinta por inadequação da via processual. Essas reações demonstram como a manifestação popular atinge o ego da oposição, que se vê impotente diante da capilaridade cultural do fenômeno Lula.

Do outro lado, a estratégia do PT foi cercar-se de cuidados para evitar a judicialização. O partido emitiu uma cartilha recomendando aos militantes que evitassem:

  • Uso de vestimentas, bandeiras ou adereços com o número 13 ou referências às eleições de 2026.
  • Expressões de teor eleitoral como "Lula 2026", "É Lula outra vez" ou "O tetra de Lula".
  • Manifestações contra opositores políticos ou insinuações depreciativas.
  • Publicações em redes sociais com hashtags politizadas ou legendas que sugerissem pedido de voto.

Ao mesmo tempo, o Planalto vetou a participação de ministros no desfile e orientou a primeira-dama Janja a não desfilar, numa tentativa de blindar a imagem do governo. Essa postura defensiva evidencia o medo real de que a polarização gerada pela festa pudesse contaminar o ambiente das pesquisas eleitorais, transferindo o debate do mérito cultural para o campo da legalidade.

Ao fim, o desfile ocorrerá sem maiores incidentes jurídicos, mas a tensão permanece. Como bem observou o advogado Fernando Neisser, não há na letra do samba, até o momento, elementos que configurem pedido explícito ou implícito de voto. No entanto, o simbolismo de um presidente em exercício ser celebrado como "herói nacional" em plena Sapucaí, a poucos meses da eleição, é um capital político imenso que a oposição não pode ignorar.

A gritaria da oposição, embora tenha sido rejeitada no mérito pelos tribunais, cumpre um papel estratégico: polarizar o debate e especular sobre uma eventual desigualdade na disputa. Ao plantar a dúvida sobre a legitimidade da homenagem, semeia-se a desconfiança no eleitor e prepara-se o terreno para questionamentos futuros, caso o resultado das urnas não seja favorável. O recado das manifestações populares, no entanto, foi dado: a força das ruas e da cultura, quando espontânea, não cabe em liminares. Resta saber se, lá na frente, essa mesma força será interpretada pela Justiça Eleitoral como um ativo político lícito ou como um passivo capaz de decretar uma impugnação.

Em suma, a análise crítica é que a tentativa de condenar PT e Lula com base na manifestação popular do Carnaval naufragou no princípio da liberdade de expressão e na vedação à censura prévia. Contudo, a polêmica criada expõe a fragilidade da legislação eleitoral em distinguir, no calor da festa, o que é genuína manifestação cultural e o que é estratégia de campanha antecipada. A oposição, ao judicializar a cultura, corre o risco de fortalecer ainda mais a imagem do "herói do povo" que tenta combater, enquanto o PT caminha na corda bamba entre a celebração legítima e um suposto "abuso de poder" que, "na boca de quem não presta", transcenderia uma justa homenagem não ao político, mas ao pertencimento cultural na história brasileira.

Com informações de: Conjur, JC UOL, CNN Brasil, Diário do Centro do Mundo, Gazeta do Povo, Folha de S.Paulo, Reuters, Diário do Grande ABC ■

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