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Mundo entra em território desconhecido com o fim do último grande tratado nuclear entre EUA e Rússia
Fim do acordo New START deixa, pela primeira vez em mais de meio século, as duas maiores potências nucleares sem limites legais para seus arsenais estratégicos, em um momento de elevadas tensões globais
Analise
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■   Bernardo Cahue, 06/02/2026

A expiração do Tratado New START à meia-noite de quarta-feira (5 de fevereiro) marcou um ponto de inflexão na segurança global. Pela primeira vez desde 1972, não há mais um acordo vinculante limitando o tamanho e a composição dos arsenais nucleares estratégicos da Rússia e dos Estados Unidos, países que juntos detêm mais de 90% das ogivas nucleares do planeta. O Secretário-Geral da ONU, António Guterres, classificou o momento como “sério para a paz e a segurança internacionais”, alertando que o risco do uso de armas nucleares é o mais alto em décadas.

Propostas em jogo e respostas divergentes

Nos meses que antecederam a expiração, diferentes propostas foram colocadas na mesa, revelando posições profundamente divididas:

  • Proposta Russa: Em setembro de 2025, o presidente Vladimir Putin anunciou que a Rússia continuaria a aderir aos limites numéricos do New START por mais um ano, mesmo após o fim do tratado, e convidou os EUA a fazerem o mesmo. O Kremlin expressou preocupação com a falta de uma resposta formal dos Estados Unidos, alertando que a situação é “muito ruim para a segurança global e estratégica”.
  • Posição Americana: O presidente Donald Trump descreveu a ideia russa como “boa”, mas sem se comprometer formalmente. Em declarações públicas, adotou um tom mais casual: “Se expira, expira”, afirmando que um acordo melhor poderia ser alcançado posteriormente. Analistas apontam que os EUA estão interessados em incluir a China em qualquer futuro acordo, algo que Pequim rejeita veementemente.
  • Rejeição Chinesa: A China expressou “pesar” pela expiração do tratado e pediu que Washington retome o diálogo com Moscou. No entanto, o porta-voz do Ministério das Relações Exteriores, Lin Jian, foi categórico ao reafirmar que “a China não participará de negociações de desarmamento nesta fase”, justificando que seu arsenal nuclear é muito menor que os norte-americano e russo e serve apenas para defesa própria.

O que se perde com o fim do New START

O Tratado New START, em vigor desde 2011, estabelecia limites verificáveis ??e era considerado um pilar da estabilidade estratégica. Sua expiração tem consequências concretas:

  1. Fim das Inspeções e Troca de Dados: O mecanismo de verificação, incluindo inspeções in loco em bases militares e intercâmbio regular de dados, está extinto. A Rússia já havia suspenso sua participação nesse regime em 2023, mas a expiração torna a situação permanente.
  2. Fim dos Limites Numéricos: Não há mais um teto legal de 1.550 ogivas nucleares estratégicas implantadas e 700 sistemas de lançamento (mísseis e bombardeiros) para cada lado.
  3. Perda de Previsibilidade: A transparência mútua, que ajudava a prevenir mal-entendidos e uma corrida armamentista descontrolada, desaparece.

Análise: Um sistema em colapso e um futuro incerto

Especialistas em desarmamento veem a expiração não como um evento isolado, mas como o colapso final de um sistema de controle de armas construído ao longo de décadas, desde os tempos da Guerra Fria. O fim do New START ocorre em um contexto geopolítico marcado pela guerra na Ucrânia e pela crescente rivalidade entre grandes potências, onde a confiança para negociações bilaterais é praticamente inexistente.

Os países já estão em uma corrida pela modernização de seus arsenais. A Rússia desenvolve novos sistemas como o míssil de cruzeiro com propulsão nuclear “Burevestnik” e o torpedo nuclear “Poseidon”, que não eram cobertos pelo New START. Os Estados Unidos, por sua vez, seguem com planos de modernizar seus mísseis, submarinos e bombardeiros. A ausência de limites pode acelerar esses programas e levar a um aumento quantitativo dos estoques, algo que não acontecia há décadas.

Para o Secretário-Geral da ONU, este momento também representa uma “oportunidade para reiniciar o regime de controle de armas” e criar um novo quadro adaptado aos desafios atuais. No entanto, qualquer futuro acordo terá de lidar com questões muito mais complexas, como a inclusão de outras potências nucleares (principalmente a China), o avanço de sistemas de defesa antimísseis e o surgimento de novas tecnologias de armas convencionais de longo alcance. No curto prazo, a comunidade internacional assiste com apreensão a um cenário de imprevisibilidade e risco crescente.

Com informações de news.un.org, vcdnp.org, Yahoo News, Reuters, CNN Espanol, European External Action Service (EEAS) ■

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