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Entre o acesso e a segurança: a reforma da CNH que divide o Brasil
Uma análise crítica sobre as mudanças que prometem baratear a carteira de motorista em 70%, colocam as autoescolas em alerta máximo e acendem o debate sobre os reais impactos na segurança viária
Analise
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■   Bernardo Cahue, 05/02/2026

O processo para obtenção da Carteira Nacional de Habilitação (CNH) está no centro de uma revolução regulatória que vai muito além da polêmica sobre o fim da baliza. Implementadas pelo governo federal no final de 2025, as novas regras representam uma mudança de paradigma: de um sistema obrigatório e caro, centrado nas autoescolas, para um modelo flexível e digital que promete reduzir o custo final em mais de 70%. O objetivo declarado é ampliar o acesso a um documento que, segundo estimativas, cerca de 20 milhões de brasileiros não possuem, muitas vezes dirigindo ilegalmente. No entanto, essa corrida pela democratização coloca em rota de colisão interesses econômicos consolidados, modelos pedagógicos tradicionais e preocupações técnicas sobre a formação de condutores seguros.

O novo modelo: flexibilização, digitalização e queda drástica de custos

O cerne da reforma está na Resolução 1020/2025 do Contran e em uma Medida Provisória, que desmontaram a obrigatoriedade do modelo tradicional. As alterações são estruturais:

  • Fim do monopólio das autoescolas: O candidato não precisa mais se matricular em um Centro de Formação de Condutores (CFC). Pode optar por contratar um instrutor autônomo credenciado pelo Detran.
  • Curso teórico gratuito e online: As 45 horas presenciais de legislação foram substituídas por um curso oferecido sem custo pelo aplicativo "CNH do Brasil".
  • Redução radical da carga prática: A exigência mínima de aulas de direção caiu de 20 para apenas 2 horas.
  • Mudança no exame prático: Acabaram as falhas eliminatórias automáticas (como "deixar o carro morrer"). Agora, o candidato inicia com zero e soma pontos por infrações cometidas, sendo reprovado apenas se ultrapassar 10 pontos. A baliza deixa de ser uma etapa separada e eliminatória, integrando-se ao percurso normal de estacionamento.

O impacto financeiro é brutal. Estimativas indicam que o custo total, que facilmente ultrapassava R$ 2.200, deve cair para a faixa de R$ 700 a R$ 800, com exemplos detalhados apontando para valores próximos a R$ 660. A demanda explodiu: os pedidos pela primeira CNH quadruplicaram, saltando de 369,2 mil em janeiro de 2025 para 1,7 milhão em janeiro de 2026.

O grito das autoescolas: crise de um modelo de negócios

Para as autoescolas, as mudanças não são uma simples adaptação, mas uma ameaça existencial. A Associação das Autoescolas de São Paulo já anunciou que recorrerá à Justiça, classificando o fim da baliza obrigatória como "um retrocesso, uma falta de responsabilidade". O vice-presidente da entidade, Mateus Martins, vai além e afirma que "flexibilizar o exame hoje é trazer insegurança, é trazer risco à condição viária".

O discurso técnico sobre a importância pedagógica da manobra – que desenvolve noção de espaço, controle de embreagem e operação em baixa velocidade – esconde uma realidade econômica dura. O setor perdeu o monopólio sobre as aulas teóricas (agora gratuitas) e viu seu principal produto, as aulas práticas, ter a exigência legal reduzida em 90%. A criação da figura do instrutor autônomo introduz uma concorrência direta e desregulada, capaz de oferecer preços muito mais baixos. Apesar do governo afirmar que "a autoescola não vai acabar", fica claro que o modelo de negócios baseado em pacotes fechados e obrigatórios chegou ao fim.

O debate técnico: segurança viária em jogo?

Para além do lobby do setor, especialistas independentes levantam questionamentos profundos sobre os possíveis impactos na segurança. O coronel Ricardo Silva, vice-presidente do Detran-SC, aponta uma "insegurança jurídica muito grande" na fiscalização de instrutores autônomos e nas condições dos veículos de aprendizagem. Ele e outros críticos argumentam que o governo priorizou a redução de custos em detrimento de "critérios estruturais de segurança viária".

Preocupações centrais incluem:

  • Qualidade da formação: Com apenas 2 horas obrigatórias, há risco de o candidato chegar à prova prática sem domínio mínimo do veículo, transformando o exame no único filtro real.
  • Desprezo pela legislação: O curso teórico online, sem mediação, pode levar a um aprendizado superficial apenas para passar na prova, e não para uma compreensão cidadã das normas.
  • Perda de elementos avaliativos: Psicólogos do trânsito, como Juliana de Barros Guimarães, alertam que manobras como a baliza testam o controle emocional sob pressão, uma simulação valiosa do estresse do trânsito real.

O governo rebate que o novo modelo segue padrões internacionais (EUA, Reino Unido) e que o rigor deve estar na avaliação final, não na quantidade de aulas. O secretário nacional de Trânsito, Adrualdo Catão, defende que o exame agora é "mais real", focando na condução em vias públicas e na tomada de decisão, e não na execução mecânica de rituais como a baliza tradicional. Dados preliminares do Detran-SP mostram que a taxa de aprovação subiu apenas 2% na primeira semana sem a baliza eliminatória, sugerindo que a prova não ficou necessariamente mais fácil.

A estrada à frente: incertezas e um país dividido

A reforma da CNH escancara uma encruzilhada nacional. De um lado, um argumento social e econômico poderoso: a habilitação é um documento essencial para a mobilidade e o emprego, e seu custo proibitivo era uma barreira de exclusão. O aumento de 360% na demanda é um indicador claro dessa necessidade reprimida.

De outro, pesam as incógnitas sobre segurança. O Brasil já possui um trânsito violento, e especialistas temem que a formação enfraquecida possa agravar o problema a médio prazo. A flexibilização exige, em contrapartida, um sistema de avaliação infalível e uma fiscalização de trânsito eficiente, dois pontos historicamente frágeis no país.

O caminho agora será de acompanhamento de dados de acidentes, judicialização das mudanças e uma pressão constante por ajustes. O sucesso ou fracasso desta política não será medido apenas pelo número de novas carteiras emitidas, mas pelo impacto na segurança das ruas e estradas brasileiras. A busca por um equilíbrio entre acesso democrático e formação qualificada define uma das mais complexas reviravoltas no trânsito nacional das últimas décadas.

Com informações de: Agência Brasil, CNN Brasil, Gov.br/Secretaria de Comunicação Social, G1/Fantástico, G1 São Paulo, ND Mais, R7, TNH1 ■

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