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Falsas fotos geradas por IA expõem guerra de deepfakes eleitorais
Criação de "evidências visuais" sintéticas para criminalizar opositores marca escalada perigosa na desinformação, com padrões que se repetem globalmente
Analise
Foto: https://s.yimg.com/ny/api/res/1.2/Od8Knbze.wfBMSHgCw1yUA--/YXBwaWQ9aGlnaGxhbmRlcjt3PTk2MDtoPTExOTI7Y2Y9d2VicA--/https://media.zenfs.com/en/lead_stories_560/f5b569a781a8b7b035cdf210d7f47c14
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■   Bernardo Cahue, 04/02/2026

Uma série de fotografias mostrando o prefeito de Nova York, Zohran Mamdani, e sua mãe, a cineasta Mira Nair, em cenários familiares com o criminoso sexual Jeffrey Epstein, Bill Clinton e outras figuras de elite, viralizou nas redes sociais em fevereiro de 2026. Apesar do realismo, uma verificação técnica revelou a verdade: todas as imagens foram fabricadas por inteligência artificial (IA). Ferramentas de detecção, como o SynthID do Google, identificaram uma marca d'água digital incontestável, provando que o conteúdo foi gerado sinteticamente. A investigação apurou que as fotos surgiram primeiro em uma conta de paródias na rede X, especializada em memes e conteúdo fabricado. Este caso não é um incidente isolado, mas sim a face mais recente de uma campanha global que usa tecnologia avançada para forjar narrativas e manchar reputações políticas a qualquer custo.

O contexto do vazamento foi crucial para a viralização. As imagens falsas começaram a circular um dia após o Departamento de Justiça dos EUA liberar mais de 3 milhões de páginas de documentos relacionados ao caso Epstein. A enxurrada de nomes reais citados nos arquivos criou um terreno fértil para a introdução de falsificações, aproveitando-se do clima de suspeita e do interesse público. O próprio prefeito Mamdani, que assumiu o cargo há pouco tempo, já havia sido alvo de campanhas de desinformação no passado, incluindo vídeos fora de contexto que tentavam associá-lo a multidões de muçulmanos na Times Square.

Enquanto as fotos de Mamdani são inteiramente falsas, os arquivos de Epstein de fato contêm menções reais a políticos brasileiros, embora de natureza distinta. Os documentos incluem um e-mail de 2018 em que o financista afirma ao estrategista Steve Bannon: "Chomsky me ligou com Lula. Da prisão". No entanto, essa alegação foi veementemente negada. Valéria Chomsky, esposa do linguista Noam Chomsky, classificou a informação como "infundada e mentirosa", explicando que os visitantes tinham os celulares confiscados na carceragem da PF. O Palácio do Planalto também emitiu uma nota oficial afirmando que "a citada ligação telefônica nunca aconteceu". As conversas também mostram Epstein e Bannon discutindo o então candidato Jair Bolsonaro com tom de apoio, com Epstein comentando que "Bolsonaro mudou o jogo" e Bannon se referindo a ele como "meu cara". Um post em *Threads* resumiu: "Lula e Bolsonaro foram citados normalmente entre conversas, não tem participação deles nesse caso macabro".

A discrepância entre os casos é instrutiva:

  • Evidência: As acusações contra Mamdani são baseadas em imagens sintéticas criadas do zero por IA. As menções a Lula e Bolsonaro estão em documentos textuais reais (e-mails) liberados pela justiça, ainda que seu conteúdo seja contestado.
  • Natureza da Associação: As fotos falsas inserem Mamdani e sua mãe diretamente no círculo social e em cenas íntimas com Epstein. Os arquivos reais citam os políticos brasileiros em conversas políticas sobre eleições e governança, sem alegações de envolvimento em crimes sexuais.
  • Objetivo Percebido: A falsificação visual busca uma criminalização direta e emocional por associação visual. A descontextualização das citações reais busca envenenar o debate político e criar guilt by association.

O ataque a Mamdani se encaixa em um padrão político claro. O prefeito, um democrata progressista, é um crítico aberto de Donald Trump. A fábrica de desinformação, portanto, tenta deslegitimar e criminalizar uma figura proeminente da oposição. Esse modus operandi é um reflexo da polarização global. No próprio Brasil, o presidente Lula tem sido alvo de um "verdadeiro bombardeio de conteúdos falsos", segundo análise da pesquisadora Magali Cunha. Ela aponta que, para além de questões internacionais como a fala sobre Israel, as fake news exploram narrativas sensíveis como "perseguição a cristãos", "liberação de drogas" e "questão sexual envolvendo crianças" para minar sua aprovação, especialmente entre certos grupos religiosos.

Tecnologicamente, estamos testemunhando um salto perigoso. Dados da agência Lupa mostram que o uso de IA na desinformação política no Brasil quase sextuplicou entre 2024 e 2025, saltando de 13 para 71 casos registrados. O relatório aponta que políticos como Lula, Bolsonaro, Trump e figuras do STF são os alvos preferenciais. A ferramenta predileta para disseminação continua sendo aplicativos de mensagem, como o WhatsApp, responsável por mais de 60% do fluxo. O caso Mamdani, usando IA generativa para fotos, é a vanguarda de uma tendência que deve se intensificar em 2026, ano eleitoral em vários países.

A reação das figuras públicas citadas nos arquivos de Epstein varia. Enquanto o casal Clinton aceitou depor no Congresso americano, o ex-presidente Donald Trump pediu que o país "virasse a página" do caso, insistindo que os documentos o inocentaram. Essa postura contrasta com a rapidez com que narrativas falsas baseadas nos mesmos arquivos são criadas e disseminadas contra seus opositores.

O episódio das fotos falsas do prefeito de Nova York é mais do que uma *fake news* isolada. Ele simboliza a entrada em uma era onde "provas" visuais incontestáveis ??podem ser fabricadas para atender a qualquer narrativa política. A estratégia é clara: aproveitar-se de escândalos reais e complexos (como o de Epstein) para injetar mentiras específicas e de alto impacto, visando a criminalização sumária de adversários. No Brasil e no mundo, a defesa contra essa nova arma requer não apenas ferramentas avançadas de verificação, mas também um profundo entendimento dos padrões narrativos e dos interesses políticos que alimentam essa indústria da calúnia digital.

Com informações de: G1 Fato ou Fake, ND+, Jovem Pan, Valor Econômico, Deutsche Welle, Jornal GGN ■

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