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Uma série de fotografias mostrando o prefeito de Nova York, Zohran Mamdani, e sua mãe, a cineasta Mira Nair, em cenários familiares com o criminoso sexual Jeffrey Epstein, Bill Clinton e outras figuras de elite, viralizou nas redes sociais em fevereiro de 2026. Apesar do realismo, uma verificação técnica revelou a verdade: todas as imagens foram fabricadas por inteligência artificial (IA). Ferramentas de detecção, como o SynthID do Google, identificaram uma marca d'água digital incontestável, provando que o conteúdo foi gerado sinteticamente. A investigação apurou que as fotos surgiram primeiro em uma conta de paródias na rede X, especializada em memes e conteúdo fabricado. Este caso não é um incidente isolado, mas sim a face mais recente de uma campanha global que usa tecnologia avançada para forjar narrativas e manchar reputações políticas a qualquer custo.
O contexto do vazamento foi crucial para a viralização. As imagens falsas começaram a circular um dia após o Departamento de Justiça dos EUA liberar mais de 3 milhões de páginas de documentos relacionados ao caso Epstein. A enxurrada de nomes reais citados nos arquivos criou um terreno fértil para a introdução de falsificações, aproveitando-se do clima de suspeita e do interesse público. O próprio prefeito Mamdani, que assumiu o cargo há pouco tempo, já havia sido alvo de campanhas de desinformação no passado, incluindo vídeos fora de contexto que tentavam associá-lo a multidões de muçulmanos na Times Square.
Enquanto as fotos de Mamdani são inteiramente falsas, os arquivos de Epstein de fato contêm menções reais a políticos brasileiros, embora de natureza distinta. Os documentos incluem um e-mail de 2018 em que o financista afirma ao estrategista Steve Bannon: "Chomsky me ligou com Lula. Da prisão". No entanto, essa alegação foi veementemente negada. Valéria Chomsky, esposa do linguista Noam Chomsky, classificou a informação como "infundada e mentirosa", explicando que os visitantes tinham os celulares confiscados na carceragem da PF. O Palácio do Planalto também emitiu uma nota oficial afirmando que "a citada ligação telefônica nunca aconteceu". As conversas também mostram Epstein e Bannon discutindo o então candidato Jair Bolsonaro com tom de apoio, com Epstein comentando que "Bolsonaro mudou o jogo" e Bannon se referindo a ele como "meu cara". Um post em *Threads* resumiu: "Lula e Bolsonaro foram citados normalmente entre conversas, não tem participação deles nesse caso macabro".
A discrepância entre os casos é instrutiva:
O ataque a Mamdani se encaixa em um padrão político claro. O prefeito, um democrata progressista, é um crítico aberto de Donald Trump. A fábrica de desinformação, portanto, tenta deslegitimar e criminalizar uma figura proeminente da oposição. Esse modus operandi é um reflexo da polarização global. No próprio Brasil, o presidente Lula tem sido alvo de um "verdadeiro bombardeio de conteúdos falsos", segundo análise da pesquisadora Magali Cunha. Ela aponta que, para além de questões internacionais como a fala sobre Israel, as fake news exploram narrativas sensíveis como "perseguição a cristãos", "liberação de drogas" e "questão sexual envolvendo crianças" para minar sua aprovação, especialmente entre certos grupos religiosos.
Tecnologicamente, estamos testemunhando um salto perigoso. Dados da agência Lupa mostram que o uso de IA na desinformação política no Brasil quase sextuplicou entre 2024 e 2025, saltando de 13 para 71 casos registrados. O relatório aponta que políticos como Lula, Bolsonaro, Trump e figuras do STF são os alvos preferenciais. A ferramenta predileta para disseminação continua sendo aplicativos de mensagem, como o WhatsApp, responsável por mais de 60% do fluxo. O caso Mamdani, usando IA generativa para fotos, é a vanguarda de uma tendência que deve se intensificar em 2026, ano eleitoral em vários países.
A reação das figuras públicas citadas nos arquivos de Epstein varia. Enquanto o casal Clinton aceitou depor no Congresso americano, o ex-presidente Donald Trump pediu que o país "virasse a página" do caso, insistindo que os documentos o inocentaram. Essa postura contrasta com a rapidez com que narrativas falsas baseadas nos mesmos arquivos são criadas e disseminadas contra seus opositores.
O episódio das fotos falsas do prefeito de Nova York é mais do que uma *fake news* isolada. Ele simboliza a entrada em uma era onde "provas" visuais incontestáveis ??podem ser fabricadas para atender a qualquer narrativa política. A estratégia é clara: aproveitar-se de escândalos reais e complexos (como o de Epstein) para injetar mentiras específicas e de alto impacto, visando a criminalização sumária de adversários. No Brasil e no mundo, a defesa contra essa nova arma requer não apenas ferramentas avançadas de verificação, mas também um profundo entendimento dos padrões narrativos e dos interesses políticos que alimentam essa indústria da calúnia digital.
Com informações de: G1 Fato ou Fake, ND+, Jovem Pan, Valor Econômico, Deutsche Welle, Jornal GGN ■