Siga nossas redes sociais | ![]() | Siga nossos canais |
O ouro consolidou uma de suas altas mais expressivas das últimas décadas nesta quarta-feira (4), com o preço à vista superando a marca de US$ 5.000 por onça e os contratos futuros nos EUa alcançando US$ 5.068,90. O movimento, que segue um salto de quase 6% na terça-feira (3) — o maior ganho diário desde novembro de 2008 —, é impulsionado por uma combinação explosiva: a escalada das tensões entre Estados Unidos e Irã e as dúvidas sobre a independência e os próximos passos do Federal Reserve (Fed), o banco central americano.
Analistas apontam que os investidores estão buscando ativos considerados refúgios seguros diante do aumento dos riscos. "Há uma soma de riscos impulsionando a demanda, incluindo dúvidas sobre a independência do banco central americano e o aumento das tensões geopolíticas", afirmou Nitesh Shah, estrategista da WisdomTree.
A volatilidade recente é extrema. Após atingir um recorde histórico de quase US$ 5.595 na quinta-feira passada, o ouro sofreu uma correção brusca, acumulando queda próxima de 10% entre sexta-feira e segunda-feira. A recuperação explosiva dos últimos dois dias, no entanto, coloca o metal novamente em território de valorização acentuada, com ganhos superiores a 17% no ano.
O incidente que reacendeu o temor dos mercados ocorreu no Mar da Arábia. Na terça-feira (3), as Forças Armadas dos EUa informaram que derrubaram um drone iraniano que se aproximou de forma "considerada agressiva" do porta-aviões Abraham Lincoln. O episódio acontece em um momento de extrema tensão interna no Irã, com uma onda de protestos que já dura mais de duas semanas e uma repressão violenta por parte do regime, que impôs um apagão quase total da internet no país.
O presidente Donald Trump elevou o tom contra o regime iraniano, ameaçando tomar "medidas muito enérgicas" caso manifestantes presos sejam executados. Em declarações públicas, Trump chegou a alertar: "Não vai acabar bem". A Casa Branca também emitiu um alerta para que cidadãos americanos deixem o Irã "imediatamente". Essas declarações e ações reavivam o risco de um conflito aberto, aumentando a aversão global ao risco e beneficiando ativos como o ouro.
Paralelamente à crise geopolítica, o mercado financeiro global enfrenta incertezas sem precedentes sobre a política monetária americana. O cerne da questão é a percepção de que a independência do Federal Reserve está sob pressão. Recentemente, o governo Trump ameaçou indiciar o presidente do Fed, Jerome Powell, por declarações feitas ao Congresso. Powell afirmou que a acusação integra a "pressão contínua do governo" para interferir nas decisões de política monetária.
Essa turbulência ocorre em um momento crucial de transição. O mandato de Powell como presidente do Fed termina em maio, e Trump já sinalizou que quer nomear um substituto disposto a cortar juros de forma mais agressiva. "Quero meu novo Presidente do Fed para baixar as taxas de juros se o mercado estiver indo bem, não destruir o mercado sem motivo algum", escreveu Trump em uma rede social.
No entanto, o próprio Fed sinaliza cautela. Em sua última reunião, em janeiro, a instituição manteve a taxa de juros inalterada na faixa de 3.5% a 3.75%. A projeção mediana dos membros do Fed (o "dot plot") aponta para apenas mais um corte de 0,25 ponto percentual em 2026, um cenário muito mais conservador do que as múltiplas reduções desejadas pelo governo. Essa divergência cria um terreno fértil para a volatilidade, que beneficia o ouro.
A fuga para a segurança não se limitou ao ouro. Outros metais preciosos também registraram altas expressivas:
Enquanto isso, os mercados de risco sentiram o impacto. O índice S&P 500 abria em queda, e o dólar enfraquecia. No Brasil, o Ibovespa também demonstrava sensibilidade aos ventos globais de aversão ao risco.
Para o futuro, analistas de grandes instituições mantêm uma perspectiva positiva para o ouro. O JPMorgan, por exemplo, projetou em um relatório recente que o metal pode atingir US$ 6.300 por onça até o final de 2026. O fundamento por trás dessa visão é que os dois principais motores da alta — um dólar americano sob pressão e a compra de ouro por bancos centrais de economias emergentes — devem permanecer. "Com a expectativa de novos cortes de juros, o ambiente tende a favorecer o ouro", resumiu Giovanni Staunovo, analista do UBS. Enquanto a geopolítica ferver e a política monetária for uma incógnita, o brilho do metal como porto seguro deve continuar a atrair investidores.
Com informações de Valor Econômico, G1, RSM, Metrópoles, Al Jazeera, Trading Economics, Annahar e Bankrate ■