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Manifestação reúne centenas em Milão contra a "Gestapo norte-americana"
Provável presença de agentes de imigração do ICE durante os jogos de inverno de Milão mobiliza italianos contrários à decisão da administração de Donald Trump
Europa
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■   Bernardo Cahue, 01/02/2026

A confirmação de que agentes da Imigração e Alfândega dos Estados Unidos (ICE, na sigla em inglês) atuariam nos Jogos Olímpicos de Inverno de Milão-Cortina 2026 desencadeou uma onda de protestos e um acalorado debate político na Itália, colocando em choque visões opostas sobre segurança, soberania e direitos humanos.

No sábado, 31 de janeiro, centenas de pessoas reuniram-se na Piazza XXV Aprile, em Milão, um local simbolicamente carregado por celebrar a libertação da Itália do fascismo em 1945. Os manifestantes, incluindo membros de partidos de oposição (como o Partido Democrata e o Movimento 5 Estrelas), sindicatos (como a CGIL) e associações de veteranos, expressaram sua rejeição à presença do ICE no território italiano. O som de apitos, uma referência a práticas usadas nos EUA para alertar sobre a aproximação de agentes de imigração, ecoou pela praça.

Os cartazes e faixas traduziam a indignação: "ICE = Gestapo", "Ice Out", "Não os queremos aqui" e "Nunca mais significa nunca mais para qualquer pessoa". Muitos manifestantes carregavam fotos de Alex Pretti e Renée Good, cidadãos americanos mortos em operações recentes do ICE em Minneapolis, ligando diretamente a violência nos EUA à presença indesejada dos agentes na Itália.

Política e soberania no centro do debate

A controvérsia rapidamente escalou para uma crise política. O prefeito de Milão, Beppe Sala, foi um dos mais veementes, classificando o ICE como uma "milícia que mata" e questionando: "Será que podemos dizer não a Trump ao menos uma vez?". Políticos da oposição acusaram o governo conservador da primeira-ministra Giorgia Meloni de subserviência ao ex-presidente americano Donald Trump.

A reação do governo italiano foi marcada por confusão e contradições iniciais:

  • O ministro do Interior, Matteo Piantedosi, primeiro minimizou o assunto, dizendo que "não via problema" e que era normal delegações trazerem sua segurança.
  • Diante da crescente indignação, ele mudou o tom, afirmando categoricamente que "o ICE não operará em território italiano" e que a segurança pública é responsabilidade exclusiva do Estado italiano.
  • Esta negação foi imediatamente seguida por um comunicado da Embaixada dos EUA em Roma confirmando que uma divisão investigativa do ICE, a Homeland Security Investigations (HSI), de fato apoiaria a segurança da delegação americana.

Afinal, qual seria o papel do ICE na Itália?

As informações oficiais buscam delimitar estritamente a atuação dos agentes americanos:

  1. Unidade Específica: Os agentes enviados seriam da HSI, unidade focada em crimes transfronteiriços (como tráfico e cibercrime), e não da unidade de deportação (ERO) que atua dentro dos EUA.
  2. Função Declarada: Seu papel seria "estritamente consultivo e baseado em inteligência", apoiando o Serviço de Segurança Diplomática dos EUA e as autoridades italianas na avaliação de riscos de organizações criminosas.
  3. Limitações: Fontes americanas e italiais garantem que eles não conduzirão operações de imigração ou patrulhamento nas ruas, atuando a partir de salas de controle ou instalações diplomáticas.

Para os críticos, no entanto, essa distinção é irrelevante. "Mesmo que não sejam os mesmos [agentes], não os queremos aqui", disse a manifestante Silvana Grassi. O sindicato Filcams CGIL argumentou que é "intolerável acolher no nosso país elementos da milícia que se maculou de tais violências e abusos". A controvérsia levou até mesmo a um apelo do Papa Leão XIV, que pediu que os Jogos fossem um momento para "passos concretos em direção à desescalada e ao diálogo".

Cenário mais amplo de tensões

O protesto contra o ICE ocorre em um contexto de preocupações mais amplas na Itália sobre os preparativos para as Olimpíadas. Enquanto o governo mobiliza cerca de 6.000 agentes de segurança, sindicatos da polícia denunciam a falta de equipamento adequado contra o frio para os oficiais destacados nas montanhas, acusando o Ministério do Interior de "improvização" e desrespeito. Paralelamente, a autoridade antitruste italiana investiga uma marca de moda por supostamente realizar "marketing parasitário" não autorizado associado aos Jogos.

O tema deve continuar quente nos próximos dias, com uma interpelação parlamentar marcada para questionar o ministro Piantedosi sobre o assunto e os Jogos prestes a começarem, sob um manto de debate que vai muito além do esporte.

Com informações de: Euronews, G1, BBC, Deutsche Welle, Rai News, Associated Press, Il Fatto Quotidiano ■

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