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Em um ato falho digno de estudo psicopolítico, o deputado Nikolas Ferreira tentou recentemente inflamar as redes sociais com o hashtag #BolsonaroFree. A intenção, claro, era copiar o sucesso do movimento “Lula Livre” e bradar por “Bolsonaro Livre” em inglês. O resultado, porém, foi uma pérola de ambiguidade: “Bolsonaro Free” pode ser lido não como um grito pela liberdade do ex-presidente, mas como um suspiro de alívio por um “Brasil Livre de Bolsonaro”. A gafe viralizou instantaneamente, não pela força da mobilização, mas pelo deboche. E, no processo, talvez tenha desnudado o subconsciente de uma parcela da direita que, enquanto o líder cumpre pena, parece mais ocupada em costurar futuros sem ele do que em lutar pelo seu presente.
A ironia começa pela cópia malfeita. O movimento Lula Livre foi uma campanha internacional robusta, com comitês organizados, apoio de sindicatos globais, personalidades como Noam Chomsky e eventos culturais de massa. Sua estrutura era horizontal e seu apelo, unificador da esquerda. Já a iniciativa “Bolsonaro Free” nasceu capenga nas redes, fruto de uma tradução literal desastrada que entregou de bandeja à oposição o melhor dos memes. É a diferença entre um movimento de base e um hashtag de ocasião.
Mas a verdadeira sátira não está no erro linguístico, e sim no contexto em que ele acontece. Enquanto a hashtag tentava, sem sucesso, criar uma onda de solidariedade, a cena real do bolsonarismo era de distanciamento familiar e realinhamento eleitoral. Na última semana, nem a ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro nem qualquer um dos filhos do ex-presidente foram vistos na Papudinha. O silêncio no cárcere contrasta com o burburinho nos gabinetes. Relatos indicam que a articulação de Michelle no STF por uma prisão domiciliar aprofundou um fosso com os filhos de Bolsonaro, especialmente com o senador Flávio Bolsonaro, que se vê como o herdeiro político natural.
O que está em jogo, claramente, não é apenas o conforto do ex-presidente, mas o controle do movimento e a sucessão para 2026. De um lado, Flávio apoia-se em uma carta manuscrita do pai que o chancela como pré-candidato. Do outro, Michelle articula-se para tentar recolocar o governador Tarcísio de Freitas no jogo, possivelmente com ela própria na chapa como vice. A prisão domiciliar é vista, portanto, menos como um fim humanitário e mais como uma peça no tabuleiro: ter Bolsonaro em casa significaria ter maior influência sobre ele e, consequentemente, sobre a direção do bolsonarismo.
Nesse cenário, o infeliz “Bolsonaro Free” soa menos como um grito de guerra e mais como um slogan não autorizado desse projeto de realinhamento. É como se uma ala pragmática, mesmo que não verbalize, desejasse se ver “livre” do peso político de um líder condenado e impopular, para poder flertar com o centrão e construir alianças eleitorais mais viáveis. O movimento “Lula Livre” pedia a libertação de um homem para devolvê-lo à política. O “Bolsonaro Free”, mesmo sem querer, levanta a possibilidade de libertar a política de um homem.
O epítome dessa tragicomédia familiar se deu nas próprias redes de Michelle. Ao comentar a transferência de Bolsonaro para a Papudinha, ela primeiro postou que as instalações eram “menos torturantes”, para depois editar o texto e trocar o termo por “menos prejudiciais à saúde”. Até o otimismo é corrigido e suavizado, em um esforço claro de controle de danos e imagem. O pedido que se seguiu – “peço que não me levem ao tribunal do julgamento pessoal” – soa menos como um apelo e mais como um reconhecimento tácito do julgamento político que já acontece dentro da própria família e de seus apoiadores.
Portanto, caro leitor, não ria apenas do deputado que não sabe inglês. Ria da perfeição involuntária de seu erro. O “Bolsonaro Free” pode ser a tradução mais honesta do momento político da direita brasileira: um movimento que, preso ao passado de um líder encarcerado e às querelas de sua família, talvez secretamente anseie por um futuro onde possa, de fato, se sentir livre para seguir em frente. Com ou sem o mito.
Com informações de: The Brazilian Report (Facebook), O Globo, Poder360, Wikipedia (Lula Livre/Bolsonarism), Al Jazeera, Populismstudies.org ■