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O “Sonho Imobiliário” de Trump para Gaza
Em Davos, a administração norte-americana apresentou uma visão de Gaza como um polo de luxo à beira-mar, mas permanecem questões fundamentais sobre o destino de seus habitantes e a viabilidade de um projeto que evoca acusações de limpeza étnica
Analise
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■   Bernardo Cahue, 23/01/2026

No Fórum Econômico Mundial em Davos, a administração do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, apresentou ao mundo sua visão ousada para o futuro da Faixa de Gaza. Sob o rótulo de “Nova Gaza”, o plano concebido por seu genro e principal conselheiro, Jared Kushner, promete transformar o território devastado pela guerra em uma “utopia mediterrânea” repleta de arranha-céus brilhantes, resorts costeiros e centros de dados de alta tecnologia. Kushner, que não ocupa um cargo oficial mas atua como emissário de Trump, exibiu slides com renderizações de “mais de 180 torres” à beira-mar, 100.000 unidades habitacionais e complexos industriais, tudo organizado em um “plano-mestre” que se espelharia em cidades como Dubai ou Singapura. O investimento é estimado em pelo menos US$ 25 bilhões, com a promessa de gerar emprego pleno e uma renda média anual de US$ 13 mil para as famílias em uma década.

No entanto, por trás do gloss das imagens digitais e das promessas de prosperidade, levantam-se questões urgentes e profundamente perturbadoras: O que acontecerá com a população palestina de Gaza durante essa transformação? A apresentação em Davos, focada em “oportunidades de investimento incríveis”, ofuscou o cerne de um debate que vem ocorrendo desde que Trump sugeriu pela primeira vez, há quase um ano, que os EUA “assumiriam” o controle do território. Na época, ele descreveu Gaza como um “grande canteiro de obras” e sugeriu que seria habitada por “pessoas do mundo”, enquanto os palestinos seriam reassentados em outros lugares. Apesar de tentativas de sua equipe para suavizar a proposta e declarações posteriores contraditórias do próprio Trump afirmando que “ninguém está expulsando palestinos”, a ambiguidade sobre o destino da população permanece no centro do plano.

O Futuro dos Palestinos: Entre a “Relocação Voluntária” e a Realidade da Guerra

A questão demográfica é a grande lacuna não resolvida na apresentação de Kushner. Em Davos, ele afirmou que o plano abrangeria toda a Faixa, mas condicionou o início da reconstrução ao desarmamento completo do Hamas, começando pelas áreas atualmente controladas pelo exército israelense, onde “vivem apenas alguns milhares” dos mais de dois milhões de gazatenses. Kushner mencionou a promoção da entrega de armas através de ofertas de anistia ou garantias de saída segura de Gaza, uma ideia que ecoa versões anteriores do plano que visavam uma “relocação voluntária” em massa.

O silêncio sobre o retorno e o reassentamento dos refugiados contrasta brutalmente com a realidade atual. Apesar do cessar-fogo, organizações internacionais descrevem condições “desumanas” na Faixa. O plano de 100 dias mencionado por Kushner prioriza ajuda humanitária e abrigo temporário, mas a habitação permanente parece destinada a surgir em uma paisagem radicalmente redesenhada. Especialistas alertam que qualquer tentativa de deslocamento forçado em larga escala constituiria uma violação do direito internacional e um ato de limpeza étnica. Além disso, a logística seria praticamente inviável. Annelle Sheline, do Quincy Institute, argumenta que realocar centenas de milhares de pessoas para países como o Egito ou a Jordânia representaria uma ameaça existencial à estabilidade dessas nações, tornando sua cooperação altamente improvável.

Conflitos, Contradições e Críticas ao “Conselho de Paz”

O plano de reconstrução foi apresentado no contexto do lançamento do “Conselho de Paz” de Trump, um organismo que o presidente descreveu como uma alternativa à ONU para resolução de conflitos. A iniciativa, no entanto, foi recebida com ceticismo por aliados tradicionais dos EUA. Líderes europeus estiveram notavelmente ausentes da cerimônia de assinatura, com o Reino Unido, a França e a Alemanha recusando-se a aderir. A inclusão do primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu – alvo de uma ordem de prisão do Tribunal Penal Internacional – e do presidente russo, Vladimir Putin, gerou ainda mais controvérsia.

As contradições internas do plano são igualmente gritantes:

  • Timing Impossível: Kushner afirmou que cidades assim são construídas no Oriente Médio em “três anos”. No entanto, apenas a remoção dos estimados 68 milhões de toneladas de entulho poderia levar décadas, conforme apontado por especialistas.
  • Governança Fantasma: O plano depende de um “Comitê Nacional para a Administração de Gaza” de composição nebulosa, que supostamente trabalhará com uma incorporadora israelense voluntária. Não está claro como os palestinos gazatenses, cujas instituições foram destruídas, teriam voz genuína nesse processo.
  • Competição com a ONU: Enquanto Trump promove seu Conselho de Paz, especialistas da ONU esperam que esse novo organismo finalmente lhes permita acesso para investigar possíveis crimes de guerra e violações de direitos humanos em Gaza, investigações que Israel até agora bloqueou.

Da Sátira em IA à Realidade: Uma Visão Desconectada

A estética e a retórica do plano “Nova Gaza” parecem extraídas diretamente de um vídeo gerado por inteligência artificial que Trump divulgou em suas redes sociais no ano passado. A montagem, criada originalmente como sátira por apoiadores de Israel, mostrava Trump e Netanyahu tomando drinks à beira de uma piscina em um “Trump Gaza”, com uma estátua dourada do ex-presidente e Elon Musk distribuindo dinheiro. O fato de a visão oficial agora ecoar essa fantasia digitais revela uma desconexão profunda com o sofrimento no terreno.

Enquanto Kushner falava em Davos sobre torres luxuosas, a realidade em Gaza incluía a morte de uma bebê de três meses por hipotermia e bombardeios israelenses diários. A prioridade declarada do plano é a segurança e o desarmamento, mas ele não aborda as causas profundas do conflito nem o direito à autodeterminação palestina. Em vez disso, trata um território densamente povoado e traumatizado como uma tábula rasa para um experimento imobiliário e geopolítico.

O plano de Trump e Kushner para Gaza pode ser lido como a culminação de uma visão que privilegia transações imobiliárias sobre direitos políticos, e imagens de marca sobre o futuro de uma população. Ele oferece uma miragem de prosperidade que, em sua concepção atual, parece exigir o apagamento não apenas dos escombros, mas também das complexidades humanas e políticas que tornam Gaza o que é. A pergunta que permanece, ecoando das ruínas aos salões de Davos, é se os gazatenses serão os protagonistas ou as vítimas dessa “nova Gaza”.

Com informações de: O Globo, El País, The Independent, ABC News (EUA), CBC News, Wikipedia, Washington Post, CNN, G1 (Globo), ABC News (Austrália) ■

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