Siga nossas redes sociais
Logo     
Siga nossos canais
   
Trump diz de Dinamarca falhou em "afastar ameaça russa da Groelândia"
Conflito sem precedentes entre EUA e aliados da Otan se intensifica após declarações do presidente americano, que não descartou o uso da força para tomar o território autônomo dinamarquês
America do Norte
Foto: https://www.infomoney.com.br/wp-content/uploads/2026/01/2026-01-18T053541Z_281517573_RC2K2JA27PMB_RTRMADP_3_USA-TRUMP-MINNESOTA-PENTAGON.jpg?fit=1920%2C1280&quality=50&strip=all
Compartilhar:
■   Bernardo Cahue, 19/01/2026

O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, afirmou nesta segunda-feira (19) que a Dinamarca falhou em "afastar a ameaça russa da Groenlândia" e declarou que "agora é a hora" de os EUA agirem. A declaração é a mais recente em uma escalada de ameaças do mandatário americano, que desde o início de seu segundo mandato, há um ano, busca anexar o território autônomo dinamarquês, justificando a ação como "vital" para a segurança nacional dos EUA e para a construção do escudo antimísseis "Domo de Ouro".

Como retaliação à oposição de nações europeias, Trump ameaçou impor tarifas de importação a oito aliados: Dinamarca, Noruega, Suécia, França, Alemanha, Reino Unido, Holanda e Finlândia. As tarifas começariam em 10% a partir de 1º de fevereiro de 2026, podendo subir para 25% em 1º de junho, e permaneceriam até que "um acordo seja alcançado para a compra completa e total da Groenlândia".

Interesse histórico e nova escalada

O interesse dos EUA pela Groenlândia não é novo e remonta ao século 19. Em 1867, o mesmo ano da compra do Alasca, políticos americanos já consideravam anexar a ilha. A posição estratégica no Atlântico Norte motivou novas tentativas, incluindo uma oferta formal de compra por US$ 100 milhões em 1946, ao final da Segunda Guerra Mundial. A justificativa sempre foi geopolítica: durante a Guerra Fria, assessores alertavam que a Groenlândia oferecia uma posição fundamental para monitorar a União Soviética.

Trump reviveu e intensificou essa ambição. Ele justifica que a Dinamarca e a Otan falharam por mais de 20 anos em conter ameaças russas e chinesas na região, e que apenas os EUA podem garantir a segurança da ilha. Em uma carta ao primeiro-ministro norueguês, Trump afirmou que "não se sente mais obrigado a pensar puramente na paz", sinalizando uma disposição para ações mais agressivas.

Resposta europeia: tropas, solidariedade e indignação

A reação dos aliados europeus foi rápida e de condenação unânime. Nos últimos dias, Alemanha, França, Reino Unido, Noruega, Holanda e Suécia enviaram um contingente simbólico de tropas para a Groenlândia, a pedido da Dinamarca, em uma operação de reconhecimento chamada "Arctic Endurance". A França anunciou o envio de 15 militares e prometeu reforçar com "ativos terrestres, aéreos e marítimos".

Líderes europeus foram contundentes em suas críticas:

  • Reino Unido: O primeiro-ministro Keir Starmer afirmou que a ameaça tarifária é "completamente equivocada" e que o futuro da Groenlândia "é uma questão entre os groenlandeses e os dinamarqueses".
  • França: O presidente Emmanuel Macron classificou as tarifas como "inaceitável" e disse que "nenhuma intimidação nos influenciará".
  • Dinamarca: A primeira-ministra Mette Frederiksen foi categórica: "Deixei muito claro qual é a posição do Reino da Dinamarca, e a Groenlândia afirmou repetidamente que não deseja se tornar parte dos Estados Unidos". Ela também declarou que "Europa não se deixa chantagear".
  • Noruega: O primeiro-ministro Jonas Gahr Støre afirmou que "ameaças não têm lugar entre aliados".

Embaixadores dos 27 países da União Europeia realizaram uma reunião de emergência no domingo (18) para discutir uma resposta conjunta à ameaça tarifária de Trump.

A voz da Groenlândia: rejeição e apelo à soberania

O governo e a população da Groenlândia têm se manifestado de forma veemente contra os planos de Trump. O primeiro-ministro groenlandês, Jens-Frederik Nielsen, foi direto: "A Groenlândia não quer ser propriedade dos Estados Unidos. A Groenlândia não quer ser governada pelos Estados Unidos. A Groenlândia não quer fazer parte dos Estados Unidos". Ele afirmou que, se seu povo for forçado a escolher, optará pela Dinamarca e não pelos EUA.

No sábado (17), milhares de pessoas protestaram contra a anexação tanto na capital groenlandesa, Nuuk, quanto em cidades da Dinamarca. A ministra groenlandesa Naaja Nathanielsen agradeceu publicamente o apoio das nações europeias, afirmando que "vivemos em tempos extraordinários que exigem não apenas decidez, mas também muita coragem".

O tabuleiro geopolítico: por que a Groenlândia importa

A crise revela a imensa importância estratégica que a Groenlândia adquiriu no século 21, transformando-se em um hotspot geopolítico. Os motivos vão além da militarização:

  1. Segurança e Defesa: Os EUA já operam a Base Espacial de Pituffik (antes Thule) na ilha, um pilar do sistema de alerta antimísseis. Controlar totalmente o território permitiria ampliar essa infraestrutura para o "Domo de Ouro".
  2. Rotas Comerciais do Ártico: Com o derretimento do gelo devido às mudanças climáticas, novas rotas marítimas estão se abrindo no Ártico, encurtando drasticamente o caminho entre a Europa/América do Norte e a Ásia.
  3. Riquezas Minerais: O subsolo groenlandês guarda jazidas enormes e críticas de terras-raras (essenciais para eletrônicos e tecnologia verde), além de ouro, diamantes, zinco e potenciais reservas de petróleo e gás.
  4. Corrida contra Rússia e China: A Rússia tem reforçado sua presença militar no Ártico há anos, e a China se declara um "Estado quase ártico" e investe na região. Para os EUA, anexar a Groenlândia seria um movimento decisivo nessa disputa.

A crise coloca a Otan em um território inexplorado e perigoso: um conflito entre dois de seus próprios membros (EUA e Dinamarca). O primeiro-ministro polonês, Donald Tusk, alertou que qualquer intervenção militar americana na Groenlândia "seria um desastre político" e que "um conflito ou tentativa de anexação do território de um membro da Otan por outro marcaria o fim do mundo como o conhecemos". Enquanto isso, o governo groenlandês e seus apoiadores europeus se preparam para um confronto diplomático e econômico que pode redefinir as alianças do pós-Guerra Fria.

Com informações de: G1, CNN Brasil, BBC, Tagesschau, ZEIT ONLINE, Deutschlandfunk ■

Mais Notícias