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O verão de 2026 no Rio de Janeiro tem sido marcado por um calor extremo e por uma sequência intermitente de apagões que paralisam bairros inteiros por horas ou até dias. Por trás da crise visível, no entanto, existe uma camada profunda de problemas estruturais e burocráticos que perpetuam a instabilidade. A falta de um canal de denúncias anônimas na ANEEL, canais de atendimento ineficazes das concessionárias, uma malha de distribuição antiga e vulnerável, e entraves operacionais crônicos criam um ciclo vicioso de falhas e insatisfação, deixando a população literalmente no escuro e sem meios eficazes de ser ouvida.
Diante da ineficiência dos canais oficiais, os cariocas têm recorrido massivamente a plataformas como o ReclameAqui para desabafar e buscar reparo. Uma reclamação típica, de 13 de janeiro de 2026, descreve: "Ontem acabou a luz por volta de 21 horas e somente retornou hoje às 6 da manhã... pagamos caro numa conta absurda de energia para ter esse atendimento péssimo". Este movimento não é por acaso: ele sinaliza uma falha de comunicação direta entre o cidadão e as empresas reguladas, transferindo para uma terceira plataforma um serviço que deveria ser prestado pelos canais oficiais de ouvidoria.
O caminho oficial para um consumidor reportar uma falha é burocrático e, criticamente, não protege sua identidade. A ANEEL determina que o cidadão deve primeiro acionar a distribuidora (como a Light, no Rio), depois sua ouvidoria, e só então recorrer à agência reguladora. Os canais da ANEEL – que incluem telefone (167), aplicativo e formulário online – exigem identificação, sob a justificativa de princípios como respeito e boa-fé. Para moradores de áreas com problemas crônicos ou que temem represálias, essa exigência atua como um forte inibidor de denúncias, silenciando queixas legítimas e dificultando o diagnóstico completo da extensão dos problemas.
Em contraste, é revelador observar que algumas concessionárias, como a Enel, mantêm em seus próprios sites canais específicos para denúncias anônimas, especialmente para casos de fraudes e ligações clandestinas. Esta prática, no entanto, não é uniforme e não se estende ao sistema regulatório geral comandado pela ANEEL, criando uma inconsistência que prejudica o consumidor.
Enquanto a burocracia trava as reclamações, a infraestrutura física demonstra sinais evidentes de colapso. A grande vilã é a rede de distribuição aérea, que compõe a maioria esmagadora das linhas no Brasil e no Rio. Esta rede é extremamente vulnerável:
Essa vulnerabilidade constante força as equipes de manutenção a operarem em um regime permanente de plantão e emergência, "apagando incêndio" sem conseguir realizar a manutenção preventiva ou planejar a modernização do sistema. A solução técnica conhecida – a implantação de redes subterrâneas – avança a passos lentíssimos no Brasil devido aos altos custos iniciais e à complexidade burocrática. Enquanto cidades como Paris têm 100% da rede no subsolo, no Rio essa é uma realidade distante, condenando a população a uma repetição previsível de crises.
Os apagões transcendem o desconforto doméstico. Eles paralisam serviços essenciais, transformando uma falha técnica em uma crise de direitos básicos:
A reação do poder público tem sido de cobrança pontual. O prefeito Eduardo Paes classificou os recentes apagões na Zona Norte como "inadmissível" e acionou o Procon. A Defensoria Pública moveu ação para restabelecer a energia em Copacabana. No entanto, essas ações focam nas consequências imediatas, não nas causas estruturais. A ANEEL, por sua vez, divulgou que a falta de energia foi a principal reclamação do país em 2025, com as distribuidoras do Rio (Light e Enel RJ) entre as mais reclamadas. Apesar de ter aprovado regras para compensação financeira por interrupções prolongadas, a sensação é de que a regulamentação corre atrás do prejuízo, sem forçar uma transformação efetiva do sistema.
A crise energética carioca é a face visível de um sistema disfuncional em múltiplas camadas. Na base, uma infraestrutura física obsoleta e vulnerável, herdada de décadas de investimentos insuficientes. Sobre ela, opera uma estrutura burocrática que desincentiva a participação do cidadão ao negar-lhe o anonimato e impor um trâmite complexo. Por fim, as concessionárias, pressionadas por falhas constantes, atuam em modo de sobrevivência, sem fôlego para planejar o futuro.
O resultado é que a população, duplamente prejudicada – pela falta de luz e pela falta de voz –, migra para arenas públicas alternativas como o ReclameAqui. Enquanto a modernização tecnológica e a revisão dos modelos de atendimento e denúncia não forem tratadas como prioridades urgentes, os apagões continuarão sendo uma trágica normalidade no calendário carioca, e o plantão das equipes de manutenção será apenas um paliativo para um paciente em estado grave.
Com informações de: Portal Gov.br (ANEEL), O Globo, Reclame Aqui, Agência Estado (UOL), Revista Business, Enel.com.br ■