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Falta de luz, falta de voz: como a burocracia e a infraestrutura obsoleta deixam o Rio no escuro
População encontra barreiras para denunciar falhas crônicas, enquanto concessionárias operam em modo de emergência permanente, sem perspectivas de modernização da rede
Analise
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■   Bernardo Cahue, 16/01/2026

O verão de 2026 no Rio de Janeiro tem sido marcado por um calor extremo e por uma sequência intermitente de apagões que paralisam bairros inteiros por horas ou até dias. Por trás da crise visível, no entanto, existe uma camada profunda de problemas estruturais e burocráticos que perpetuam a instabilidade. A falta de um canal de denúncias anônimas na ANEEL, canais de atendimento ineficazes das concessionárias, uma malha de distribuição antiga e vulnerável, e entraves operacionais crônicos criam um ciclo vicioso de falhas e insatisfação, deixando a população literalmente no escuro e sem meios eficazes de ser ouvida.

Diante da ineficiência dos canais oficiais, os cariocas têm recorrido massivamente a plataformas como o ReclameAqui para desabafar e buscar reparo. Uma reclamação típica, de 13 de janeiro de 2026, descreve: "Ontem acabou a luz por volta de 21 horas e somente retornou hoje às 6 da manhã... pagamos caro numa conta absurda de energia para ter esse atendimento péssimo". Este movimento não é por acaso: ele sinaliza uma falha de comunicação direta entre o cidadão e as empresas reguladas, transferindo para uma terceira plataforma um serviço que deveria ser prestado pelos canais oficiais de ouvidoria.

O Labirinto Burocrático: Da Concessionária à ANEEL, Sem Anonimato

O caminho oficial para um consumidor reportar uma falha é burocrático e, criticamente, não protege sua identidade. A ANEEL determina que o cidadão deve primeiro acionar a distribuidora (como a Light, no Rio), depois sua ouvidoria, e só então recorrer à agência reguladora. Os canais da ANEEL – que incluem telefone (167), aplicativo e formulário online – exigem identificação, sob a justificativa de princípios como respeito e boa-fé. Para moradores de áreas com problemas crônicos ou que temem represálias, essa exigência atua como um forte inibidor de denúncias, silenciando queixas legítimas e dificultando o diagnóstico completo da extensão dos problemas.

Em contraste, é revelador observar que algumas concessionárias, como a Enel, mantêm em seus próprios sites canais específicos para denúncias anônimas, especialmente para casos de fraudes e ligações clandestinas. Esta prática, no entanto, não é uniforme e não se estende ao sistema regulatório geral comandado pela ANEEL, criando uma inconsistência que prejudica o consumidor.

Infraestrutura em Colapso: A Rede Aérea e a Lógica do "Apagar Incêndios"

Enquanto a burocracia trava as reclamações, a infraestrutura física demonstra sinais evidentes de colapso. A grande vilã é a rede de distribuição aérea, que compõe a maioria esmagadora das linhas no Brasil e no Rio. Esta rede é extremamente vulnerável:

  • Intempéries: Chuvas fortes e ventos causam interrupções frequentes.
  • Conflito com a arborização: A necessidade constante de podas, muitas vezes inadequadas, para evitar o contato com os fios, enfraquece as árvores, que podem cair e causar novos apagões – um ciclo perverso.
  • Furtos: Cabos expostos são alvo constante de roubo, como ocorreu em Copacabana no início de janeiro, deixando bairros sem luz por quase três dias.

Essa vulnerabilidade constante força as equipes de manutenção a operarem em um regime permanente de plantão e emergência, "apagando incêndio" sem conseguir realizar a manutenção preventiva ou planejar a modernização do sistema. A solução técnica conhecida – a implantação de redes subterrâneas – avança a passos lentíssimos no Brasil devido aos altos custos iniciais e à complexidade burocrática. Enquanto cidades como Paris têm 100% da rede no subsolo, no Rio essa é uma realidade distante, condenando a população a uma repetição previsível de crises.

Impacto Social Ampliado e a Reação das Autoridades

Os apagões transcendem o desconforto doméstico. Eles paralisam serviços essenciais, transformando uma falha técnica em uma crise de direitos básicos:

  1. Saúde: Unidades Básicas de Saúde (UBS) têm a cadeia de frio de vacinas e medicamentos interrompida, e equipamentos médicos desligam.
  2. Abastecimento de água: Estações de tratamento e bombas elétricas param, causando falta de água e queda de pressão.
  3. Mobilidade e segurança: Semáforos apagados geram caos no trânsito e aumentam o risco de acidentes.

A reação do poder público tem sido de cobrança pontual. O prefeito Eduardo Paes classificou os recentes apagões na Zona Norte como "inadmissível" e acionou o Procon. A Defensoria Pública moveu ação para restabelecer a energia em Copacabana. No entanto, essas ações focam nas consequências imediatas, não nas causas estruturais. A ANEEL, por sua vez, divulgou que a falta de energia foi a principal reclamação do país em 2025, com as distribuidoras do Rio (Light e Enel RJ) entre as mais reclamadas. Apesar de ter aprovado regras para compensação financeira por interrupções prolongadas, a sensação é de que a regulamentação corre atrás do prejuízo, sem forçar uma transformação efetiva do sistema.

Conclusão: Um Sistema que Alimenta a Própria Crise

A crise energética carioca é a face visível de um sistema disfuncional em múltiplas camadas. Na base, uma infraestrutura física obsoleta e vulnerável, herdada de décadas de investimentos insuficientes. Sobre ela, opera uma estrutura burocrática que desincentiva a participação do cidadão ao negar-lhe o anonimato e impor um trâmite complexo. Por fim, as concessionárias, pressionadas por falhas constantes, atuam em modo de sobrevivência, sem fôlego para planejar o futuro.

O resultado é que a população, duplamente prejudicada – pela falta de luz e pela falta de voz –, migra para arenas públicas alternativas como o ReclameAqui. Enquanto a modernização tecnológica e a revisão dos modelos de atendimento e denúncia não forem tratadas como prioridades urgentes, os apagões continuarão sendo uma trágica normalidade no calendário carioca, e o plantão das equipes de manutenção será apenas um paliativo para um paciente em estado grave.

Com informações de: Portal Gov.br (ANEEL), O Globo, Reclame Aqui, Agência Estado (UOL), Revista Business, Enel.com.br ■

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