Siga nossas redes sociais
Logo     
Siga nossos canais
   
Agenda ou agendamento? Como a mídia e a política moldam o 'clamor' por segurança
Insistência de meses sobre pesquisas de opinião popular acendem o alerta sobre a especulação de assuntos de mais preocupação dos brasileiros, acima até das pesquisas eleitorais
Analise
Foto: https://i.ytimg.com/vi/74kizShZcqc/maxresdefault.jpg
Compartilhar:
■   Bernardo Cahue, 08/01/2026

A segurança pública se consolidou como a principal preocupação do brasileiro, com 45% da população citando crime e violência como seus maiores temores, segundo pesquisa Ipsos divulgada em janeiro de 2026 . Este dado, no entanto, é a ponta de um iceberg complexo. Longe de ser um sentimento estático, ele reflete um processo dinâmico de agendamento midiático e disputa narrativa, especialmente acirrada em um ano eleitoral. A análise dos dados e das movimentações políticas revela que o "clamor social" pela segurança é tanto um reflexo da realidade quanto um produto amplificado por media storms e estratégias partidárias bem-orquestradas .

A Preocupação Real e suas Ondas de Visibilidade

O primeiro ponto a destacar é a volatilidade dessa preocupação. Embora o tema ocupe o topo do ranking, houve uma queda significativa de 7 pontos percentuais em um mês—de 52% em novembro para 45% em dezembro de 2025 . Segundo o CEO da Ipsos, Marcos Calliari, o pico anterior foi "impulsionado por ações pontuais de grande visibilidade" . A referência é clara: a megaoperação policial no Rio de Janeiro no final de outubro de 2025, que deixou 122 mortos e gerou uma enxurrada de cobertura jornalística com imagens chocantes . Esse movimento evidencia que o agendamento midiático não cria um tema do zero, mas potencializa ondas de ansiedade social em torno de eventos específicos, que depois arrefecem.

Apropriação Política e a Disputa pela Autoria da Solução

Em um ano eleitoral, esse sentimento público torna-se moeda política valiosa. A direita brasileira se organiza explicitamente para pautar a segurança pública como eixo central da campanha de 2026 . Pesquisas de opinião são usadas como arsenal: um levantamento citado pela Gazeta do Povo indica que 44,3% dos brasileiros acreditam que a direita tem as melhores propostas contra o crime, contra 33,9% que confiam na esquerda . Líderes como o governador Ronaldo Caiado (União-GO) e o senador Sergio Moro (União-PR) vocalizam que a segurança é "o tema mais relevante" para as eleições . No Congresso, a pauta avança com projetos como o PL "Antifacção", relatado pelo deputado Guilherme Derrite (PP-SP), que defende um endurecimento penal .

Do outro lado, o governo Lula busca equilibrar a narrativa entre a repressão e a estruturação. Divulga com destaque os números de combate ao crime organizado—como a apreensão de R$ 9,6 bilhões em 2025 pela Polícia Federal —e propõe uma PEC da Segurança com foco em investimentos e integração, embora esta enfrente resistência de governadores . Paralelamente, tenta disciplinar a narrativa de sua base: o PT lançou um manual de 93 páginas orientando a militância digital a evitar termos como "fascista" e "genocida" e a basear críticas em dados, uma tentativa de escapar de processos e controlar o tom do debate .

O Enquadramento Midiático: A Criminologia do Espetáculo

O fenômeno por trás dessa dinâmica é estudado pela criminologia midiática, que analisa como a mídia constrói a percepção social do crime . A cobertura não é um espelho da realidade, mas um filtro que:

  • Amplifica eventos extraordinários e violentos, como a operação no Rio, criando uma sensação de crise aguda e urgência .
  • Simplifica narrativas complexas, reduzindo o problema a uma dicotomia entre "bandidos" e "vítimas" ou "direita punitiva" versus "esquerda leniente", como exemplificado pelas críticas à fala do presidente Lula sobre usuários e traficantes .
  • Pode estimular respostas punitivistas na população, que pressionam por legislações mais severas, fechando um "círculo de mídia criminal" que influencia a política .

O resultado é um feedback loop perigoso: a mídia gera clamor com base em eventos espetaculares, políticos se apresentam com soluções imediatistas para esse clamor, e a mídia, por sua vez, cobre a disputa política, realimentando o ciclo e muitas vezes deixando em segundo plano discussões estruturais sobre prevenção, desigualdade e reinserção social.

Conclusão: Para Além do Pânico Momentâneo

A pesquisa Ipsos confirma que a segurança pública é, de fato, uma das maiores angústias nacionais, espelhando uma realidade de violência e insegurança que não pode ser ignorada. Contudo, a flutuação rápida nos índices e a sincronia perfeita entre picos de cobertura e picos de preocupação expõem o quanto esse sentimento é maleável e suscetível ao agendamento. Em 2026, o risco é que o debate público sobre um tema tão crucial seja sequestrado por uma lógica de curto prazo: a da espetacularização midiática e da disputa eleitoral imediatista. A verdadeira questão que fica é se, para além do sensacionalismo e do oportunismo político, a sociedade conseguirá pautar uma discussão profunda sobre um modelo de segurança pública que seja, de fato, eficaz e respeitoso com os direitos humanos.

Com informações de: CNN Brasil, G1, Cognitio Juris, Gov.br - Secretaria Especial de Comunicação Social, Poder360, CartaCapital, Revista FT, Gazeta do Povo, Viva.com.br ■

Mais Notícias