Siga nossas redes sociais
Logo     
Siga nossos canais
   
Entre bombardeios e tweets: a captura de Maduro como espetáculo geopolítico
No momento em que a ação militar norte-americana é celebrada ou condenada como um espetáculo midiático, especialistas alertam para a violação sistêmica de normas que sustentam a soberania das nações desde 1945
Analise
Foto: https://encrypted-tbn0.gstatic.com/images?q=tbn:ANd9GcQcxu4tDDtGGElAUx7JCWJGZnSdfbOyd_R9TA&s
Compartilhar:
■   Bernardo Cahue, 05/01/2026

Na madrugada do último sábado (3), uma operação militar norte-americana invadiu o território venezuelano, capturou o presidente Nicolás Maduro e sua esposa, Cilia Flores, e os transportou para serem julgados em Nova York. O evento, descrito pelo presidente Donald Trump como algo que ele assistiu “como um programa de TV” de sua mansão na Flórida, foi rapidamente transformado em um espetáculo global . Enquanto imagens do líder capturado eram divulgadas nas redes sociais, a ação, classificada pela Venezuela como um “sequestro ilegal e criminal”, rasgou princípios fundamentais do direito internacional e reacendeu o fantasma do intervencionismo como política de estado na América Latina .

A operação, minuciosamente planejada há meses e executada pela força de elite Delta, resultou em dezenas de mortos, segundo fontes venezuelanas, e deixou um rastro de condenação global . Mais do que a prisão de um líder acusado de narcoterrorismo, o episódio representa um ponto de inflexão perigoso. Ele sinaliza o retorno explícito da “Doutrina Monroe” – a visão que trata o hemisfério como quintal dos Estados Unidos – e estabelece um precedente que pode legitimar ações semelhantes por outras potências em suas esferas de influência .

A Encenação do Poder: Do Teatro de Operações ao Teatro Midíatico

Desde os primeiros minutos, a ação foi encenada para consumo público. Trump não apenas anunciou o sucesso da missão em sua rede social, como também divulgou uma foto de Maduro aparentemente algemado e com abafadores de ruído, uma “prova de vida” transformada em troféu . Essa narrativa construída em tempo real teve um objetivo claro: espetacularizar o poderio militar e a disposição unilateral dos EUA, desviando a atenção do complexo quadro de ilegalidades envolvidas.

A cronologia dos fatos revela uma operação-relâmpago: às 2h50, explosões em Caracas; às 3h00, a captura no complexo residencial; às 3h20, Maduro já estava em um helicóptero rumo ao navio USS Iwo Jima no Caribe . A velocidade e o sigilo foram possíveis, em parte, graças a uma equipe da CIA instalada na Venezuela desde agosto, detalhe que revela o caráter premeditado e de longo prazo da intervenção . Enquanto a TV estatal venezuelana ainda tentava entender o ocorrido, Trump já consolidava sua versão dos fatos perante o mundo.

As Violações: Quando o Fim Justifica os Meios?

Juristas e especialistas são unânimes em apontar a gravidade das violações cometidas:

  • Soberania e Não-Intervenção: A invasão de um país soberano sem autorização da ONU ou mesmo do Conselho de Segurança viola a Carta das Nações Unidas, pedra angular do sistema internacional pós-1945 .
  • Sequestro de Líder Estrangeiro: A captura extrajudicial de um chefe de estado em exercício em seu próprio território é um ato sem precedentes no século XXI e configura um grave ato de agressão .
  • Precedente Perigoso: Como alertou o sociólogo Demétrio Magnoli, a ação legitima a lógica das “esferas de influência”, onde grandes potências podem intervir onde bem entenderem. “Um cínico diria, a Venezuela inteira para Donald Trump, meia Ucrânia para Vladimir Putin”, analisou .

Internamente nos EUA, a ação também enfrenta questionamentos. O professor Leonardo Trevisan destacou a “não autorização do Congresso” como um problema grave, sugerendo que o presidente Trump deliberadamente contornou os mecanismos de controle democrático . A acusação formal contra Maduro, que data de 2020 e menciona um suposto “Cartel de Los Soles” – entidade cuja existência concreta é questionada por especialistas – é vista por analistas como um pretexto jurídico (um caso de *lawfare*) para justificar uma ação decidida por outras razões .

Petróleo e Geopolítica: O Móvel por Trás do Espetáculo

Para além da retórica sobre narcoterrorismo e democracia, as declarações do próprio Trump e a análise de especialistas apontam para motivações geopolíticas e econômicas cristalinas.

  1. Controle de Recursos: Em seu pronunciamento, Trump afirmou que os EUA “vão reconstruir a infraestrutura de petróleo” venezuelana e “fazer o petróleo fluir” . A Venezuela detém as maiores reservas provadas do planeta, um prêmio estratégico.
  2. Expulsão de Rivales: O país é um aliado fundamental de China e Rússia na região. Para o professor Vinícius Rodrigues Vieira, a ação “manda um recado para a China, para a Rússia, para o Irã, de que eles não devem ter aliados fundamentais aqui na América do Sul” .
  3. Reafirmação da Hegemonia: A intervenção é a reafirmação mais brutal da hegemonia dos EUA na América Latina nas últimas décadas, um alerta de que a “zona de paz” proclamada pelos países latino-americanos pode ser ignorada a qualquer momento .

Como sintetizou o escritor Stephen King em crítica a Trump: “Não se trata de drogas, mas sim de petróleo (que, de certa forma, é uma droga)” .

Reações e um Futuro Incerto

O cenário pós-captura é de extrema instabilidade:

  • Na Venezuela: A vice-presidente Delcy Rodríguez assumiu como presidente interina, e o governo ordenou a prisão de qualquer pessoa que tenha apoiado o ataque . O país se mobiliza em torno da defesa da soberania.
  • No Cenário Internacional: Brasil, Chile, Colômbia, Espanha, México e Uruguai emitiram um comunicado conjunto condenando veementemente a ação e reafirmando os princípios da não-intervenção . A ONU manifestou profunda preocupação .
  • No Brasil: O caso inflamou o debate político interno, com a esquerda condenando a invasão e parte da direita celebrando a queda de Maduro, revelando uma cisão profunda na visão sobre soberania e política externa .

Enquanto Maduro se declara inocente em tribunal de Nova York e aguarda seu julgamento marcado para março, o mundo se pergunta qual será o próximo passo . A promessa de Trump de “governar a Venezuela” temporariamente através de um grupo designado por ele soa como a instalação de um protetorado, um passo além mesmo da invasão . O clima de espetacularização pode até desvanecer, mas as consequências deste ato unilateral – um terremoto na arquitetura do direito internacional – serão sentidas por muito tempo, não só na Venezuela, mas em toda nação que ouse desafiar os interesses da potência hegemônica. A linha inaceitável foi ultrapassada, e o novo normal parece assustadoramente sem leis.

Com informações de: Agência Brasil, UOL, ConJur, 96 FM, CNN Brasil, G1, Diário do Comércio ■

Mais Notícias