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Na madrugada do último sábado (3), uma operação militar norte-americana invadiu o território venezuelano, capturou o presidente Nicolás Maduro e sua esposa, Cilia Flores, e os transportou para serem julgados em Nova York. O evento, descrito pelo presidente Donald Trump como algo que ele assistiu “como um programa de TV” de sua mansão na Flórida, foi rapidamente transformado em um espetáculo global . Enquanto imagens do líder capturado eram divulgadas nas redes sociais, a ação, classificada pela Venezuela como um “sequestro ilegal e criminal”, rasgou princípios fundamentais do direito internacional e reacendeu o fantasma do intervencionismo como política de estado na América Latina .
A operação, minuciosamente planejada há meses e executada pela força de elite Delta, resultou em dezenas de mortos, segundo fontes venezuelanas, e deixou um rastro de condenação global . Mais do que a prisão de um líder acusado de narcoterrorismo, o episódio representa um ponto de inflexão perigoso. Ele sinaliza o retorno explícito da “Doutrina Monroe” – a visão que trata o hemisfério como quintal dos Estados Unidos – e estabelece um precedente que pode legitimar ações semelhantes por outras potências em suas esferas de influência .
Desde os primeiros minutos, a ação foi encenada para consumo público. Trump não apenas anunciou o sucesso da missão em sua rede social, como também divulgou uma foto de Maduro aparentemente algemado e com abafadores de ruído, uma “prova de vida” transformada em troféu . Essa narrativa construída em tempo real teve um objetivo claro: espetacularizar o poderio militar e a disposição unilateral dos EUA, desviando a atenção do complexo quadro de ilegalidades envolvidas.
A cronologia dos fatos revela uma operação-relâmpago: às 2h50, explosões em Caracas; às 3h00, a captura no complexo residencial; às 3h20, Maduro já estava em um helicóptero rumo ao navio USS Iwo Jima no Caribe . A velocidade e o sigilo foram possíveis, em parte, graças a uma equipe da CIA instalada na Venezuela desde agosto, detalhe que revela o caráter premeditado e de longo prazo da intervenção . Enquanto a TV estatal venezuelana ainda tentava entender o ocorrido, Trump já consolidava sua versão dos fatos perante o mundo.
Juristas e especialistas são unânimes em apontar a gravidade das violações cometidas:
Internamente nos EUA, a ação também enfrenta questionamentos. O professor Leonardo Trevisan destacou a “não autorização do Congresso” como um problema grave, sugerendo que o presidente Trump deliberadamente contornou os mecanismos de controle democrático . A acusação formal contra Maduro, que data de 2020 e menciona um suposto “Cartel de Los Soles” – entidade cuja existência concreta é questionada por especialistas – é vista por analistas como um pretexto jurídico (um caso de *lawfare*) para justificar uma ação decidida por outras razões .
Para além da retórica sobre narcoterrorismo e democracia, as declarações do próprio Trump e a análise de especialistas apontam para motivações geopolíticas e econômicas cristalinas.
Como sintetizou o escritor Stephen King em crítica a Trump: “Não se trata de drogas, mas sim de petróleo (que, de certa forma, é uma droga)” .
O cenário pós-captura é de extrema instabilidade:
Enquanto Maduro se declara inocente em tribunal de Nova York e aguarda seu julgamento marcado para março, o mundo se pergunta qual será o próximo passo . A promessa de Trump de “governar a Venezuela” temporariamente através de um grupo designado por ele soa como a instalação de um protetorado, um passo além mesmo da invasão . O clima de espetacularização pode até desvanecer, mas as consequências deste ato unilateral – um terremoto na arquitetura do direito internacional – serão sentidas por muito tempo, não só na Venezuela, mas em toda nação que ouse desafiar os interesses da potência hegemônica. A linha inaceitável foi ultrapassada, e o novo normal parece assustadoramente sem leis.
Com informações de: Agência Brasil, UOL, ConJur, 96 FM, CNN Brasil, G1, Diário do Comércio ■