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Como a exclusão dos BRICS pode ter aberto caminho para a ação dos EUA na Venezuela
Análise crítica examina se a proteção do bloco liderado por Rússia e China poderia ter dissuadido a ofensiva norte-americana, em um momento em que Washington assume o controle direto do país e de suas reservas petrolíferas
Analise
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■   Bernardo Cahue, 03/01/2026

O Veto Histórico e a Busca Venezuelana por Um Abrigo Geopolítico

Em outubro de 2024, durante a cúpula do BRICS em Kazan, na Rússia, a Venezuela foi formalmente excluída da lista de possíveis países parceiros do bloco. A decisão, conforme apurado na época, coincidiu com o desejo do governo brasileiro, que fez pressão política para que o país, assim como a Nicarágua, não fosse incluído. Fontes diplomáticas indicavam que "os russos sabem da irritação de Lula com o Maduro". Este veto ocorreu em um contexto onde movimentos sociais venezuelanos já pleiteavam, por meio de cartas ao Conselho Popular do BRICS, a integração ao grupo, vista como uma âncora em um "mundo novo, multipolar".

Especialistas já apontavam que a entrada no BRICS representaria para o regime de Nicolás Maduro muito mais do que benefícios econômicos: transmitiria uma "sensação de que ele não está isolado", funcionando como uma poderosa propaganda interna e um escudo político contra pressões externas. Na prática, porém, o Brasil, apoiando-se em questões de transparência democrática, optou por negar este escudo ao seu vizinho.

A Ofensiva Norte-Americana: Captura, Ocupação e Controle do Petróleo

Na madrugada do dia 3 de janeiro de 2026, a tênue calma em Caracas foi rompida por explosões. Uma operação militar norte-americana descrita pelo presidente Donald Trump como a "maior ação militar dos EUA desde a Segunda Guerra Mundial" resultou na captura de Nicolás Maduro e de sua esposa, Cilia Flores, em uma ação que, segundo ele, durou 47 segundos. Os dois foram removidos do país e estão a caminho de Nova York para responder a acusações de "narcoterrorismo".

Em uma declaração que alterou radicalmente o significado da intervenção, Trump anunciou que os Estados Unidos "vão governar" a Venezuela até que uma transição de poder "segura, adequada e criteriosa" possa ser realizada. O plano, detalhado pelo presidente, envolve a administração direta do país por designados de seu governo e, de forma crucial, a entrada das "gigantescas companhias petrolíferas dos EUA" para "consertar" e controlar a infraestrutura energética venezuelana, a maior reserva de petróleo do mundo.

Um Contrafactual Crítico: A Venezuela no BRICS Teria Mudado o Jogo?

A análise da sequência de eventos levanta uma questão geopolítica inevitável: a inclusão da Venezuela no BRICS teria criado um deterrente suficiente para impedir uma ação militar americana tão direta e transformadora?

Argumentos a favor desta tese incluem:

  • Proteção de Aliança Formal: A adesão plena elevaria a Venezuela de um aliado político isolado para um membro de um bloco estratégico liderado por potências nucleares (Rússia e China). Uma ação militar contra um membro constituiria uma afronta direta ao grupo, potencialmente desencadeando reações coordenadas de retaliação econômica, diplomática ou mesmo militar.
  • Interesses Econômicos Entrelaçados: China e Rússia possuem vultosos investimentos e dívidas a receber da Venezuela, principalmente no setor petrolífero e de defesa. A ocupação e o controle americano desses ativos colocariam tais interesses em risco direto, forçando Moscou e Pequim a uma postura mais assertiva em defesa de seus investimentos.
  • Questão de Precedente e Credibilidade: Permitir que um membro do BRICS fosse invadido, seu líder capturado e sua economia controlada por uma potência ocidental representaria um golpe catastrófico na credibilidade do bloco como um pólo de poder alternativo. A dissuasão teria que funcionar para preservar a própria razão de existir do grupo.

No entanto, existem contra-argumentos sólidos que sugerem que a inclusão no BRICS poderia não ter sido um escudo infalível:

  1. Natureza Não-Obrigatória da Defesa Mútua: Ao contrário de alianças como a OTAN, o BRICS não possui um tratado de defesa coletiva automática. A reação dependeria da vontade política e do cálculo de risco de cada membro, particularmente da China e da Rússia, que poderiam evitar um confronto militar direto com os EUA.
  2. Calculismo Geopolítico de Rússia e China: É possível que, em uma análise de custo-benefício, Moscou e Pequim considerassem os riscos de uma escalada global muito altos em troca de um aliado distante e economicamente quebrado como a Venezuela. Sua reação poderia se limitar a fortes condenações diplomáticas e sanções, como já ocorre em outros conflitos.
  3. Determinação e Justificativa dos EUA: A operação foi justificada por Washington não apenas como uma ação política, mas como uma operação de aplicação da lei contra um "chefe narcoterrorista" procurado pela justiça americana. Este enquadramento legalístico poderia ser usado para tentar despolitizar a ação e dificultar uma resposta baseada puramente na defesa de soberania.

As Reações e o Futuro Incerto da Região

A ação americana foi imediatamente condenada pelo presidente brasileiro, Luiz Inácio Lula da Silva, que a classificou como uma "afronta gravíssima à soberania" e um "precedente extremamente perigoso", lembrando os piores momentos da interferência na América Latina. Líderes mundiais, como o secretário-geral da ONU, António Guterres, também alertaram para o "precedente perigoso" criado.

Internamente, analises sugerem que a estrutura de poder chavista pode sobreviver a Maduro, com figuras como Diosdado Cabello e o ministro da Defesa, Vladimir Padrino López, mantendo o controle sobre as instituições e as forças armadas. A oposição democrática, representada por María Corina Machado, comemorou a queda de Maduro mas se mantém cautelosa, ciente de que a intervenção estrangeira é um terreno político complexo.

O episódio deixa claro que o veto brasileiro de 2024, tomado com base em desavenças políticas e princípios democráticos, ocorreu sem a previsão deste desfecho catastrófico. Agora, a região se vê diante de um cenário inédito de ocupação declarada por uma potência extracontinental, com o Brasil e seus parceiros regionais tendo de navegar em um novo tabuleiro geopolítico onde suas escolhas passadas ecoam com força.

Com informações de Agência Brasil, G1, O Mundo Diplomático, NBC News, Deutsche Welle, CNBC, Al Jazeera, CNN Brasil ■

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