Siga nossas redes sociais | ![]() | Siga nossos canais |
Em outubro de 2024, durante a cúpula do BRICS em Kazan, na Rússia, a Venezuela foi formalmente excluída da lista de possíveis países parceiros do bloco. A decisão, conforme apurado na época, coincidiu com o desejo do governo brasileiro, que fez pressão política para que o país, assim como a Nicarágua, não fosse incluído. Fontes diplomáticas indicavam que "os russos sabem da irritação de Lula com o Maduro". Este veto ocorreu em um contexto onde movimentos sociais venezuelanos já pleiteavam, por meio de cartas ao Conselho Popular do BRICS, a integração ao grupo, vista como uma âncora em um "mundo novo, multipolar".
Especialistas já apontavam que a entrada no BRICS representaria para o regime de Nicolás Maduro muito mais do que benefícios econômicos: transmitiria uma "sensação de que ele não está isolado", funcionando como uma poderosa propaganda interna e um escudo político contra pressões externas. Na prática, porém, o Brasil, apoiando-se em questões de transparência democrática, optou por negar este escudo ao seu vizinho.
Na madrugada do dia 3 de janeiro de 2026, a tênue calma em Caracas foi rompida por explosões. Uma operação militar norte-americana descrita pelo presidente Donald Trump como a "maior ação militar dos EUA desde a Segunda Guerra Mundial" resultou na captura de Nicolás Maduro e de sua esposa, Cilia Flores, em uma ação que, segundo ele, durou 47 segundos. Os dois foram removidos do país e estão a caminho de Nova York para responder a acusações de "narcoterrorismo".
Em uma declaração que alterou radicalmente o significado da intervenção, Trump anunciou que os Estados Unidos "vão governar" a Venezuela até que uma transição de poder "segura, adequada e criteriosa" possa ser realizada. O plano, detalhado pelo presidente, envolve a administração direta do país por designados de seu governo e, de forma crucial, a entrada das "gigantescas companhias petrolíferas dos EUA" para "consertar" e controlar a infraestrutura energética venezuelana, a maior reserva de petróleo do mundo.
A análise da sequência de eventos levanta uma questão geopolítica inevitável: a inclusão da Venezuela no BRICS teria criado um deterrente suficiente para impedir uma ação militar americana tão direta e transformadora?
Argumentos a favor desta tese incluem:
No entanto, existem contra-argumentos sólidos que sugerem que a inclusão no BRICS poderia não ter sido um escudo infalível:
A ação americana foi imediatamente condenada pelo presidente brasileiro, Luiz Inácio Lula da Silva, que a classificou como uma "afronta gravíssima à soberania" e um "precedente extremamente perigoso", lembrando os piores momentos da interferência na América Latina. Líderes mundiais, como o secretário-geral da ONU, António Guterres, também alertaram para o "precedente perigoso" criado.
Internamente, analises sugerem que a estrutura de poder chavista pode sobreviver a Maduro, com figuras como Diosdado Cabello e o ministro da Defesa, Vladimir Padrino López, mantendo o controle sobre as instituições e as forças armadas. A oposição democrática, representada por María Corina Machado, comemorou a queda de Maduro mas se mantém cautelosa, ciente de que a intervenção estrangeira é um terreno político complexo.
O episódio deixa claro que o veto brasileiro de 2024, tomado com base em desavenças políticas e princípios democráticos, ocorreu sem a previsão deste desfecho catastrófico. Agora, a região se vê diante de um cenário inédito de ocupação declarada por uma potência extracontinental, com o Brasil e seus parceiros regionais tendo de navegar em um novo tabuleiro geopolítico onde suas escolhas passadas ecoam com força.
Com informações de Agência Brasil, G1, O Mundo Diplomático, NBC News, Deutsche Welle, CNBC, Al Jazeera, CNN Brasil ■