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Um novo e perigoso capítulo da guerra no Iêmen se desdobra, transformando antigos aliados em adversários diretos e ameaçando a estabilidade regional. A Arábia Saudita realizou uma série de ataques aéreos contra posições do grupo separatista Conselho de Transição do Sul (STC), apoiado pelos Emirados Árabes Unidos (EAU), após estes terem conquistado vastas áreas no sul do país. As tensões escalaram a ponto de o governo iemenita reconhecido internacionalmente decretar estado de emergência por 90 dias e cancelar seu pacto de defesa mútua com os EAU. Os confrontos, que já resultaram em mortes, colocam em risco frágeis tréguas e expõem uma disputa geopolítica cruciante pelo controle do território iemenita e dos seus recursos.
No início de dezembro, forças do STC lançaram uma ofensiva surpresa e consolidaram o controle sobre grandes extensões do sul do Iêmen, incluindo as províncias estratégicas de Hadramawt e Al Mahra, que fazem fronteira com a Arábia Saudita. Esta movimentação, descrita como uma "injustificada escalada" por Riade, foi realizada sem a aprovação do Conselho de Liderança Presidencial do Iêmen nem coordenação com a coalizão liderada pelos sauditas.
Em resposta, a Arábia Saudita recorreu à força aérea. Um ataque significativo ocorreu no porto de Al-Mukalla, em Hadramawt, onde a coalizão bombardeou um carregamento de armas e veículos militares que, segundo Riade, foram descarregados de navios provenientes dos EAU e destinados ao STC. Posteriormente, bombardeios diretos a posições do STC no interior de Hadramawt resultaram em sete mortos e mais de vinte feridos. Paralelamente, o governo iemenita, apoiado pelos sauditas, ordenou o início de uma operação para tomar o controle de bases militares na região "de maneira pacífica".
O tabuleiro geopolítico do Iêmen é complexo, e as recentes movimentações colocam em jogo interesses vitais para os atores regionais:
O conflito expôs uma profunda fissura entre dois pilares do Conselho de Cooperação do Golfo. Apesar de serem aliados formais na coalizão contra os Houthis, a Arábia Saudita e os EAU têm há muito objetivos divergentes no Iêmen. Os sauditas apoiam o governo de união reconhecido internacionalmente, enquanto os EAU têm financiado e treinado milícias locais, como o STC, que contestam a autoridade central.
A Arábia Saudita acusou publicamente os EAU de estarem por trás do avanço separatista, classificando suas ações como "extremamente perigosas". Em resposta, os EAU anunciaram a retirada de suas equipes remanescentes de "contra-terrorismo" do Iêmen, negando as acusações mas aparentemente cedendo à pressão. Analistas interpretam os bombardeios sauditas como um claro recado a Abu Dhabi para reafirmar quem dita as regras na coalizão.
A comunidade internacional observa a escalada com apreensão, temendo que uma guerra aberta entre as facções do sul desestabilize completamente o país e a região:
Enquanto as potências regionais disputam influência, a população iemenita, já esgotada por uma década de guerra e fome, enfrenta mais sofrimento. Residentes perto do porto de Al-Mukalla descreveram cenas de terror durante os bombardeios, com janelas estilhaçadas e famílias aterrorizadas. A nova frente de conflito ameaça agravar uma das piores crises humanitárias do mundo.
O futuro permanece incerto. A Arábia Saudita exige que o STC se retire "urgente e pacificamente" das províncias ocupadas. O STC, no entanto, recusou-se veementemente a ceder, argumentando que é "irracional pedir ao proprietário de uma terra que a abandone". Apesar das tentativas de mediação, a possibilidade de um conflito mais amplo é real, com relatos da movimentação de milhares de soldados das forças apoiadas pela Arábia Saudita perto da fronteira. A paz duradoura no Iêmen parece, mais uma vez, distante, refém das ambições concorrentes de seus poderosos vizinhos.
Com informações de: RTP, Sábado, Al Jazeera, France 24, DN, Asharq Al-Awsat, Arab Center DC, Les Dernières Nouvelles d'Alsace, Swissinfo.ch ■