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Arábia Saudita bombardeia separatistas no Iêmen em conflito que ameaça dividir aliados regionais
Nova ofensiva do Conselho de Transição do Sul e resposta militar saudita reacendem guerra civil, expondo ruptura profunda entre Riade e Abu Dhabi e colocando recursos energéticos em jogo
Oriente-Medio
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■   Bernardo Cahue, 02/01/2026

Um novo e perigoso capítulo da guerra no Iêmen se desdobra, transformando antigos aliados em adversários diretos e ameaçando a estabilidade regional. A Arábia Saudita realizou uma série de ataques aéreos contra posições do grupo separatista Conselho de Transição do Sul (STC), apoiado pelos Emirados Árabes Unidos (EAU), após estes terem conquistado vastas áreas no sul do país. As tensões escalaram a ponto de o governo iemenita reconhecido internacionalmente decretar estado de emergência por 90 dias e cancelar seu pacto de defesa mútua com os EAU. Os confrontos, que já resultaram em mortes, colocam em risco frágeis tréguas e expõem uma disputa geopolítica cruciante pelo controle do território iemenita e dos seus recursos.

A Ofensiva Relâmpago e a Resposta Militar

No início de dezembro, forças do STC lançaram uma ofensiva surpresa e consolidaram o controle sobre grandes extensões do sul do Iêmen, incluindo as províncias estratégicas de Hadramawt e Al Mahra, que fazem fronteira com a Arábia Saudita. Esta movimentação, descrita como uma "injustificada escalada" por Riade, foi realizada sem a aprovação do Conselho de Liderança Presidencial do Iêmen nem coordenação com a coalizão liderada pelos sauditas.

Em resposta, a Arábia Saudita recorreu à força aérea. Um ataque significativo ocorreu no porto de Al-Mukalla, em Hadramawt, onde a coalizão bombardeou um carregamento de armas e veículos militares que, segundo Riade, foram descarregados de navios provenientes dos EAU e destinados ao STC. Posteriormente, bombardeios diretos a posições do STC no interior de Hadramawt resultaram em sete mortos e mais de vinte feridos. Paralelamente, o governo iemenita, apoiado pelos sauditas, ordenou o início de uma operação para tomar o controle de bases militares na região "de maneira pacífica".

Os Interesses em Conflito: Petróleo, Portos e Fronteiras

O tabuleiro geopolítico do Iêmen é complexo, e as recentes movimentações colocam em jogo interesses vitais para os atores regionais:

  • Controle de Recursos: A província de Hadramawt abriga cerca de 80% das reservas de petróleo do Iêmen, tornando seu controle um prêmio econômico e estratégico de primeira ordem. A tomada dessas áreas pelo STC concede-lhe uma alavanca financeira poderosa.
  • Segurança Fronteiriça Saudita: Para a Arábia Saudita, a presença de um grupo separatista armado e potencialmente hostil ao longo de sua extensa fronteira sul representa uma grave ameaça à segurança nacional, declarada "linha vermelha" por Riade. O objetivo histórico saudita é um Iêmen unificado e estável como estado-tampão.
  • Ambições Marítimas dos EAU: Os Emirados Árabes Unidos desenvolveram uma estratégia focada no controle de portos e litorais, como o estratégico Golfo de Áden. Através do apoio ao STC, os EAU fortalecem sua influência sobre a costa sul do Iêmen e as rotas marítimas críticas, contrabalanceando a influência da Arábia Saudita e do Irã.

A Ruptura entre Aliados: Arábia Saudita vs. Emirados Árabes Unidos

O conflito expôs uma profunda fissura entre dois pilares do Conselho de Cooperação do Golfo. Apesar de serem aliados formais na coalizão contra os Houthis, a Arábia Saudita e os EAU têm há muito objetivos divergentes no Iêmen. Os sauditas apoiam o governo de união reconhecido internacionalmente, enquanto os EAU têm financiado e treinado milícias locais, como o STC, que contestam a autoridade central.

A Arábia Saudita acusou publicamente os EAU de estarem por trás do avanço separatista, classificando suas ações como "extremamente perigosas". Em resposta, os EAU anunciaram a retirada de suas equipes remanescentes de "contra-terrorismo" do Iêmen, negando as acusações mas aparentemente cedendo à pressão. Analistas interpretam os bombardeios sauditas como um claro recado a Abu Dhabi para reafirmar quem dita as regras na coalizão.

Reações Internacionais e o Risco de uma Guerra Mais Ampla

A comunidade internacional observa a escalada com apreensão, temendo que uma guerra aberta entre as facções do sul desestabilize completamente o país e a região:

  • Estados Unidos: O Secretário de Estado Marco Rubio apelou à moderação, mas evitou tomar partido entre os dois parceiros estratégicos, Arábia Saudita e EAU. Analistas notam que a consolidação da influência dos EAU no sul do Iêmen pode se alinhar com objetivos estratégicos mais amplos de Washington, como a expansão dos Acordos de Abraão.
  • União Europeia e Outros Atores: A UE emitiu um alerta, afirmando que os desenvolvimentos em Hadramawt e Al Mahra arriscam espalhar nova instabilidade por todo o Golfo e reafirmou o apoio à unidade do Iêmen. A Turquia partilha preocupações semelhantes, enquanto o Irã repreendeu os EAU pelo seu apoio ao STC.
  • Cenário Interno Complexo: O STC também enfrenta oposição local dentro das províncias que ocupa, onde líderes tribais e grupos locais resistem à sua autoridade. Esta dinâmica interna é um motor subestimado para uma escalada ainda maior.

O Custo Humano e um Futuro Incerto

Enquanto as potências regionais disputam influência, a população iemenita, já esgotada por uma década de guerra e fome, enfrenta mais sofrimento. Residentes perto do porto de Al-Mukalla descreveram cenas de terror durante os bombardeios, com janelas estilhaçadas e famílias aterrorizadas. A nova frente de conflito ameaça agravar uma das piores crises humanitárias do mundo.

O futuro permanece incerto. A Arábia Saudita exige que o STC se retire "urgente e pacificamente" das províncias ocupadas. O STC, no entanto, recusou-se veementemente a ceder, argumentando que é "irracional pedir ao proprietário de uma terra que a abandone". Apesar das tentativas de mediação, a possibilidade de um conflito mais amplo é real, com relatos da movimentação de milhares de soldados das forças apoiadas pela Arábia Saudita perto da fronteira. A paz duradoura no Iêmen parece, mais uma vez, distante, refém das ambições concorrentes de seus poderosos vizinhos.

Com informações de: RTP, Sábado, Al Jazeera, France 24, DN, Asharq Al-Awsat, Arab Center DC, Les Dernières Nouvelles d'Alsace, Swissinfo.ch ■

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