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O Irã enfrenta a maior onda de protestos desde 2022, com pelo menos sete mortos em confrontos entre manifestantes e forças de segurança que se espalharam por dezenas de cidades. O estopim foi o fechamento de lojas por comerciantes em Teerã, no domingo (29/12), em protesto contra a inflação galopante e a desvalorização brutal da moeda. O movimento, que rapidamente ganhou a adesão de estudantes e se espalhou para o interior do país, expõe uma crise multifacetada: uma economia asfixiada por sanções, um regime sob pressão geopolítica e uma população exaurida, cujo descontentamento econômico rapidamente se transforma em revolta política contra a elite governante.
A crise económica que alimenta os protestos é profunda e tem raízes tanto internas quanto externas. Os números falam por si:
Este colapso é diretamente alimentado pelo retorno das sanções internacionais. Em 2018, os EUA saíram do acordo nuclear (JCPOA) e reimpuseram sanções severas. Em setembro de 2025, o mecanismo de "snapback" foi ativado por potências europeias, restaurando automaticamente as sanções da ONU após uma década. Estas incluem um embargo de armas e restrições aos setores petrolífero e financeiro, estrangulando ainda mais a economia. Analistas e a população sentem o impacto imediato: "O impacto do retorno das sanções já é evidente: a taxa de câmbio está subindo, causando alta de preços", disse um engenheiro em Teerã.
O programa nuclear iraniano está no centro do conflito com a comunidade internacional e é a justificação principal para o regime de sanções. O Irã insiste que seu programa é para fins civis pacíficos, como geração de energia e uso médico. No entanto, os EUA, Israel e potências europeias acusam o país de buscar a capacidade de produzir armas nucleares. As negociações para reviver o acordo de 2015 estão paralisadas. As potências europeias exigem, para suspender as sanções, três condições que Teerã rejeita:
Este impasse nuclear ocorre num contexto de confronto militar direto. Em junho de 2025, Israel e EUA realizaram ataques aéreos contra instalações nucleares iranianas, num conflito que durou 12 dias. O governo iraniano, portanto, gasta recursos significativos num programa que é simultaneamente um projeto de soberania nacional, uma ferramenta de barganha geopolítica e a causa de um cerco econômico devastador para sua população.
Os protestos rapidamente transcenderam as queixas económicas. Vídeos mostram manifestantes gritando "morte ao ditador" e "nem Gaza nem Líbano, minha vida pelo Irã" — slogans que atacam diretamente o Líder Supremo, Ali Khamenei, e criticam os gastos do regime com aliados regionais (como o Hamas e o Hezbollah) em detrimento do bem-estar interno. Esta é uma evolução padrão, como explicam analistas: "protestos geralmente começam com preocupações econômicas, que evoluem para demandas políticas mais amplas".
O regime, no poder desde a Revolução Islâmica de 1979, enfrenta uma erosão de sua base de apoio. A revolução, que derrubou o Xá Reza Pahlavi, prometia justiça e autonomia, mas instituiu uma república teocrática onde o clero xiita detém o poder final. Agora, o governo é acusado de corrupção generalizada e de priorizar a sobrevivência do sistema em vez das necessidades do povo. Para os jovens, que formam uma grande parte da população, as restrições sociais e a falta de perspetivas agravam a frustração. Esta não é uma crise nova; é o ápice de um descontentamento que vem sendo reprimido há anos, desde os protestos pelo movimento "Mulheres, Vida, Liberdade" em 2022.
Perante a pressão, o governo do presidente Masoud Pezeshkian adotou uma postura inicialmente conciliatória, incomum para os padrões iranianos. Ele reconheceu os protestos, abriu um "canal de diálogo" e substituiu o chefe do Banco Central. O vice-presidente chegou a pedir desculpas pela inflação, culpando as sanções ocidentais por uma "guerra econômica". Paralelamente, porém, as forças de segurança reprimiram os protestos com violência, usando gás lacrimogêneo e, segundo relatos, balas reais. O procurador-geral alertou para uma repressão severa caso os protestos se transformem em "tumultos".
O futuro é incerto. A intervenção do presidente dos EUA, Donald Trump, que ameaçou estar "locked and loaded" para intervir caso o Irã mate mais manifestantes, adiciona uma perigosa variável externa que Teerã condena veementemente como intromissão. Internamente, algumas vozes da oposição no exílio, como a Prêmio Nobel Shirin Ebadi, veem os protestos como os "últimos dias" da república islâmica. No entanto, o regime mostrou resiliência ao longo de décadas. A questão central é se as reformas económicas de curto prazo e a repressão seletiva serão suficientes para acalmar uma população cuja confiança no governo está "diminuindo" drasticamente, ou se a tempestade perfeita de fatores económicos, geopolíticos e sociais levará a uma mudança mais profunda e imprevisível.
Com informações de: G1, Wikipédia, Al Jazeera, Deutsche Welle, CNN Brasil, Brasil Escola, Folha de S.Paulo, RFI, O Globo ■