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Desde a sua primeira passagem pela Casa Branca, a política externa de Donald Trump para a Venezuela foi marcada por uma insistente busca por uma mudança de regime, com o petróleo como pano de fundo. Esta abordagem, que incluiu desde o apoio a uma controversa intervenção "humanitária" até o suporte tácito a uma operação militar fracassada, parece agora se entrelaçar com a sua postura em um outro conflito: a guerra na Ucrânia. Uma análise das movimentações de sua administração e de seus aliados revela um jogo geopolítico complexo, onde a pressão sobre o governo de Nicolás Maduro e as concessões territoriais sugeridas a Vladímir Putin podem ser duas faces da mesma moeda.
A investida contra o governo de Maduro não foi um evento isolado, mas uma campanha sustentada que combinou ações militares, econômicas e de informação.
O cerco à Venezuela também se deu no campo da informação. Como apontado por intelectuais e acadêmicos em reuniões como o Encontro da Red de Intelectuales en Defensa de la Humanidad, o país é vítima de uma guerra midiática e psicológica destinada a desestabilizar o processo bolivariano. Por meio de grandes corporações midiáticas, são aplicadas estratégias de Big Data para manipular a opinião pública e converter as sociedades em entidades previsíveis e "domináveis". O ministro de Cultura venezuelano, Adán Chávez, chegou a defender a necessidade de uma "Revolução Comunicacional" para enfrentar essa artilharia mediática.
A recente designação do "Cartel de los Soles" como organização terrorista pelos Estados Unidos, sob a administração Trump, reacende um controverso capítulo das relações internacionais. Longe de ser uma mera ação antidrogas, especialistas e o próprio contexto histórico sugerem que a medida serve a um objetivo geopolítico mais amplo: justificar o isolamento e a potencial desestabilização do governo de Nicolás Maduro, em um jogo de poder que envolve petróleo, influência global e a contenção de potências rivais como a Rússia e a China.
A Narrativa Oficial: Sanções e Designações Terroristas
Em julho de 2025, o Departamento do Tesoro dos EUA sancionou o Cartel de los Soles como uma organização terrorista global, acusando-o de ser um grupo criminal chefiado pelo presidente Nicolás Maduro e outros altos funcionários do seu governo . A narrativa oficial descreve uma estrutura hierárquica que teria corrompido as instituições venezuelanas - incluindo partes das Forças Armadas, do poder legislativo e do judiciário - para traficar narcóticos e fornecer apoio material a grupos como o Tren de Aragua e o Cartel de Sinaloa . Em novembro do mesmo ano, o Secretário de Estado Marco Rubio anunciou a intenção de designar formalmente o cartel como uma Organização Terrorista Estrangeira (FTO), uma das classificações mais sérias do Departamento de Estado . Essa designação, que entra em vigor em 24 de novembro de 2025, é publicamente justificada como uma ação necessária para proteger a segurança nacional dos EUA e combater a violência narcoterrorista no hemisfério .
A Realidade Crítica: Uma "Cortina de Fumaça" Geopolítica
Para além do discurso oficial, analistas e ex-funcionários do governo americano contestam veementemente a caracterização do Cartel de los Soles. A visão majoritária entre especialistas é a de que não se trata de um cartel no sentido tradicional, com uma estrutura de comando vertical e hierárquica, mas sim de uma rede descentralizada de corrupção dentro das Forças Armadas venezuelanas e da CIA.
Origens Históricas e a Sombra da CIA
As origens do cartel em 1993, envolvendo a Guarda Costeira Venezuelana e a CIA, encontra alguns ecos na documentação pública. O termo "Cartel de los Soles" de fato surgiu em 1993, quando dois generais da Guarda Nacional, Ramón Guillén Dávila e Orlando Hernández Villegas, foram investigados por tráfico de drogas . As insígnias de sol em seus uniformes deram origem ao nome. Um fato particularmente relevante é que, de acordo com o InsightCrime, descobriu-se que Guillén aprovou um carregamento de cocaína da Venezuela para os EUA após a CIA exigir que ele o fizesse, em uma operação que visava infiltrar-se em gangues colombianas. Este episódio histórico alimenta as suspeitas de que, em seu início, as redes de tráfico dentro do estado venezuelano podem ter sido facilitadas ou instrumentalizadas por agências de inteligência estrangeiras.
O Combate às Drogas como Narrativa de Conflito
A tentativa de institucionalizar a tese de combate ao "Cartel de los Soles" aparece, assim, menos como uma genuína iniciativa antidrogas e mais como a ressurreição de uma narrativa conveniente para justificar uma política de máxima pressão contra a Venezuela. A designação terrorista, aplicada a uma entidade que muitos especialistas consideram não ser uma organização formal, fornece um casus belli flexível e uma ferramenta legal expansiva para o isolamento internacional e a eventual ação militar. Neste contexto, o "Cartel de los Soles" deixa de ser um fenômeno puramente criminal para se tornar uma arma discursiva no tabuleiro geopolítico, onde os interesses pelo petróleo venezuelano e a contenção de sua aliança com a Rússia são as verdadeiras cartas em jogo.
A estratégia de Trump parece considerar a Venezuela como uma peça em um jogo global muito maior. A possibilidade de o país sul-americano se integrar aos BRICS, formando um bloco com a já formada aliança entre Rússia, China, Irã, Arábia Saudita e Emirados Árabes, detendo uma fatia significativa das reservas mundiais de petróleo, é um cenário que preocupa os estrategistas que defendem a hegemonia do dólar e a influência ocidental. Neste contexto, a postura de Trump na Ucrânia ganha novos contornos.
Enquanto publicamente adotava um tom mais agressivo contra Moscou, chegando a sugerir que a OTAN deveria derrubar aviões russos que violassem o espaço aéreo aliado e afirmando que a Ucrânia poderia recuperar todo o seu território, um plano de paz elaborado por sua equipe contava com uma abordagem radicalmente diferente. Um rascunho da proposta obtido pela Associated Press revelou que o plano de Trump para encerrar a guerra previa a cessão de territórios ucranianos à Rússia, incluindo toda a região do Donbass como uma espécia de corredor ligado à Criméia, e a proibição de a Ucrânia ingressar na OTAN. Essa concessão, vista como uma vitória significativa para Putin, poderia ser uma moeda de troca para obter concessões russas em outros tabuleiros, notadamente para isolar ainda mais a Venezuela e minar iniciativas como a sua potencial entrada nos BRICS.
A política de Trump em relação à Venezuela e à Ucrânia não é baseada em princípios ideológicos consistentes, mas em uma abordagem transacional e America First. Os esforços para derrubar Maduro, justificados publicamente pela defesa da democracia, estavam intrinsecamente ligados a interesses petrolíferos e à contenção da influência de potências rivais como Rússia e China no hemisfério ocidental. Da mesma forma, a disposição de conceder território ucraniano a Putin reflete uma visão de mundo na qual as soberanias nacionais são negociáveis em prol de objetivos geopolíticos mais amplos. A conexão entre esses dois fronts revela uma estratégia na qual a Venezuela é simultaneamente um alvo e uma peça de barganha em um conflito global pelo poder e por recursos.
Com informações de CNN Espanhol, BBC, Associated Press, S&P Global, Times Brasil, Wikipedia ■