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Castro lidera nova rodada de ataques da extrema direita contra STF
Governador do Rio chama ADPF de "Canalha"; Alexandre de Moraes determina 24 horas para prestação de esclarecimentos ao STF sobre a operação mais letal da história do país
Analise
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■   Bernardo Cahue, 02/11/2025

O Rio de Janeiro tornou-se o palco de uma grave crise institucional que coloca o governador Cláudio Castro em rota de colisão com o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Alexandre de Moraes. O estopim foi a Operação Contenção, a maior ação policial da história do estado, realizada em 28 de outubro de 2025, que resultou na morte de pelo menos 132 pessoas, segundo a Defensoria Pública, nas favelas do Complexo do Alemão e da Penha. Em resposta, Moraes, com base na Arguição de Descumprimento de Preceito Fundamental (ADPF) das Favelas, deu um prazo de 24 horas para que o governador prestasse explicações detalhadas sobre a operação. A reação de Castro foi de confronto, classificando o instrumento legal do STF de "canalha" – termo do português que significa "patife" ou "vilão" –, acendendo o estopim de um novo rito de guerra política da extrema direita contra a Corte Suprema.

A Operaç?o Contenção: O Episódio Mais Letal

A operação que desencadeou a crise foi de escala inédita. Envolvendo 2.500 policiais militares e civis e 32 veículos blindados, a ação foi dirigida contra a facção Comando Vermelho. Os confrontos foram intensos, com criminosos usando drones para lançar bombas contra as equipes de segurança e erguendo barricadas em chamas. O saldo foi o mais mortal já registrado em uma operação policial no Brasil, superando o massacre do Carandiru.

Enquanto o governador Cláudio Castro defendeu a ação, declarando que o Brasil "está firme no confronto ao narcoterrorismo" e inicialmente divulgando um número oficial de 58 mortos, a Defensoria Pública do estado contabilizou 132 vítimas fatais. No dia seguinte, moradores protestaram colocando dezenas de corpos em uma praça pública, em um ato de revolta e busca por informações. A operação também gerou:

  • Paralisação urbana: Criminosos bloquearam vias com 71 ônibus roubados, interrompendo o transporte e forçando pessoas a voltarem para casa a pé.
  • Fechamento de escolas: 46 colégios nas regiões afetadas tiveram suas atividades suspensas.
  • Condenação internacional: O Alto Comissariado de Direitos Humanos da ONU se disse "horrorizado" com a escala da violência, exortando as autoridades a cumprirem as leis internacionais.

A Reação do STF e a Ofensiva Verbal de Castro

Diante da gravidade dos fatos, o ministro Alexandre de Moraes, no exercício de suas funções no STF, determinou que o governador Cláudio Castro fornecesse informações completas sobre a operação no âmbito da ADPF das Favelas. A decisão judicial estabeleceu um prazo peremptório e marcou uma audiência com o governador e os comandantes das polícias Civil e Militar para a segunda-feira seguinte.

A resposta de Castro, no entanto, não foi de acatamento técnico, mas de confronto político direto. Ao chamar a ADPF – um instrumento jurídico criado para proteger direitos fundamentais – de "canalha", o governador adotou a mesma retórica utilizada pela extrema direita brasileira, que há tempos conduz uma campanha contra o STF e particularmente contra Moraes. Este contexto é marcado por sanções dos Estados Unidos contra o ministro, impostas sob a alegação de "perseguição política", um movimento amplamente criticado como interferência em assuntos soberanos do Brasil.

O Pano de Fundo Político e Eleitoral

A postura agressiva de Castro não pode ser dissociada do cenário político e de suas ambições eleitorais. Membro do Partido Liberal (PL) e aliado de Jair Bolsonaro, o governador tem sua base eleitoral fortemente alinhada com o discurso de "tolerância zero" ao crime. No entanto, sua administração é marcada por polêmicas:

  • Acusações de corrupção: Castro já foi alvo de investigação da Polícia Federal por supostamente receber propina em dinheiro entre 2017 e 2019, no âmbito de investigações da Polícia Federal sobre verbas desviadas de contratos da Fundação Leão 13 e da Subsecretaria de Pessoa com Deficiência - tendo inclusive, segundo o relatório da PF, ido gastar na Disney.
  • Incentivo à letalidade policial: Recentemente, apoiou um projeto de lei que instituía um "bônus faroeste" para policiais que matassem criminosos ou apreendessem armas de alto calibre, medida criticada pela Human Rights Watch por "estimular a força letal".
  • Castro também é citado como influenciador direto na reativação de uma refinaria no Rio de Janeiro, cujas atividades haviam sido suspensas no âmbito de investigações sobre ligação da mesma com esquema de lavagem de dinheiro do PCC.

Além disso, Castro planeja seu futuro político. Ele considera concorrer ao Senado ou à Câmara dos Deputados em 2026, e o controle da narrativa sobre segurança pública é crucial para essa empreitada . O enfrentamento com o STF, nesse contexto, pode ser uma estratégia para se solidificar como liderança da extrema direita no estado.

Uma crise com múltiplas camadas e imprevisíveis consequências

O conflito entre o Governo do Rio e o STF representa mais do que um simples atrito entre poderes. Ele expõe as feridas profundas de um país dividido e coloca em jogo questões fundamentais para o Estado Democrático de Direito.

  1. Segurança Pública vs. Direitos Humanos: A operação reacende o debate sobre até que ponto o combate ao crime organizado justifica operações com um alto número de vítimas, muitas das quais, segundo relatos de moradores e entidades de direitos humanos, podem não ter envolvimento com o tráfico. O próprio deputado e pastor Otoni de Paula (MDB-RJ) discursou em plenário federal citando quatro das mortes como sendo "de famílias de fiéis" de sua igreja, descartando ligações destes mortos com o tráfico.
  2. Independência dos Poderes: A resposta de Castro ao STF, tratando uma decisão judicial legítima com deboche e insulto, representa um desafio direto à autoridade do Judiciário e ao equilíbrio entre os poderes.
  3. Estratégia Política de Risco: Ao adotar a retórica da extrema direita, Castro busca capitalizar politicamente com seu eleitorado, mas corre o risco de aprofundar a instabilidade institucional e isolar o estado do governo federal, que se disse "estupefato" por não ter sido consultado sobre a operação .

Enquanto o governador tem 24 horas para se explicar perante a lei, o país aguarda para ver se o caminho será o do diálogo institucional ou o do aprofundamento de uma guerra que já deixou centenas de mortos e agora ameaça as próprias estruturas democráticas.

Com informações de Al Jazeera, CNN, EL PAÍS English, Intercept Brasil, Wikipedia, Wiktionary e Reverso Context. ■

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