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A megaoperação policial contra o Comando Vermelho nos complexos do Alemão e da Penha, no Rio de Janeiro, resultou na morte de 64 pessoas, tornando-se a ação mais letal da história da polícia fluminense. A estratégia, no entanto, é amplamente questionada por especialistas, enquanto o governador Cláudio Castro (PL) e o governo federal travam uma acirrada disputa narrativa sobre as responsabilidades pelo alto custo humano e a suposta falta de apoio federal.
O governador Cláudio Castro afirmou que o estado está "sozinho" nesta guerra e que pedidos de blindados às Forças Armadas foram negadas em três ocasiões. Ele chegou a classificar o conflito como algo que "já extrapolou toda a ideia de Segurança Pública", justificando a necessidade de um apoio maior, inclusive das Forças Armadas.
Entretanto, essa narrativa foi contestada veementemente pelo governo federal. O Ministério da Justiça, em nota detalhada, rebateu as alegações de abandono, listando uma série de apoios em andamento:
Além disso, fontes do governo Lula afirmam que, para o empréstimo de blindados, é necessária a decretação de uma Operação de Garantia da Lei e da Ordem (GLO) por parte da Presidência, o que não foi solicitado por Castro para esta operação. Assessores presidenciais relataram que o governador sequer comunicou previamente o planejamento de uma ação desta magnitude.
Especialistas em segurança pública foram contundentes em suas críticas à operação. Jacqueline Muniz, pesquisadora da Universidade Federal Fluminense (UFF), classificou a ação como uma "lambança operacional", que desrespeitou protocolos de atuação estabelecidos para reduzir a letalidade policial. Para ela, operações desse tipo são ineficazes e funcionam mais como "ação publicitária" do que como uma estratégia de segurança efetiva, pois não produzem controle duradouro sobre o território.
Carolina Ricardo, diretora-executiva do Instituto Sou da Paz, reforçou essa visão, descrevendo a operação como uma "tragédia sob todos os enfoques". Ela argumenta que esse modelo de intervenção, focado no confronto, não ataca os elos financeiros do crime organizado e gera um enorme custo social, com o fechamento de escolas, unidades de saúde e o pânico entre os moradores. O impacto na educação foi significativo, com 87 escolas afetadas e 29 mil alunos sem aulas.
A crítica à estratégia adotada extrapolou o campo técnico e chegou ao político. Edinho Silva, presidente nacional do PT, definiu a operação como "desastrosa" e acusou Castro de politizar a tragédia. Ele contrastou a ação no Rio com a Operação Carbono Oculto, que mirou as finanças do PCC em São Paulo sem registrar mortes, atribuindo a diferença ao uso de inteligência e planejamento . O ministro da Justiça, Ricardo Lewandowski, ecoou essa posição, afirmando que o "combate ao crime organizado se faz com inteligência" e não com ações descoordenadas.
Este episódio evidencia uma crise de segurança pública complexa, onde o alto número de vítimas e a interrupção da vida cotidiana em comunidades se tornam moeda de troca em um jogo político. A análise dos fatos disponíveis sugere que, enquanto o governo estadual busca externalizar a culpa pela letalidade da operação, especialistas apontam que a falha principal reside na própria natureza da intervenção policial, que repetiu um modelo amplamente criticado e ineficaz, mesmo diante de evidências de que outras estratégias, baseadas em investigação e inteligência, produzem resultados mais consistentes sem o mesmo custo humano.
Com informações de CNN Brasil, Estadão, G1, O Globo, PT.org.br e Veja. ■