Casos recentes expõem que a violência sexual no paÃs, principalmente contra menores e estudantes, ainda é acobertada pela cumplicidade de estruturas sociais e as relações de poder
Editorial
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■ Bernardo Cahue, 02/07/2025
Os últimos dias trouxeram à tona três casos emblemáticos de violência sexual contra estudantes no Japão. Um funcionário de 38 anos foi preso por assediar uma estudante do ensino médio no metrô de Tóquio, confessando que agiu repetidas vezes porque ela era "do seu tipo". Um professor de 48 anos foi detido ao invadir uma sala de aula para fotografar sob as saias de alunas, usando um estojo com um celular adaptado. E um instrutor de ensino médio de 45 anos foi acusado de pagar uma estudante de 17 anos para práticas sexuais após contato em redes sociais, revelando ter se envolvido com cerca de 100 mulheres, incluindo adolescentes. Esses episódios não são isolados, mas sintomas de uma crise profunda que atravessa escolas, transportes e espaços digitais.
A análise sociocultural aponta raÃzes entranhadas na sociedade japonesa. A hierarquia rÃgida em escolas e instituições silencia vÃtimas que temem desafiar figuras de autoridade, como evidenciado nos casos em que professores e funcionários são agressores. A cultura da vitimização persiste, com vÃtimas frequentemente culpabilizadas por suas roupas ou comportamento, enquanto agressores usam justificativas como "atração" ou "esquecimento". Além disso, até 2023, a idade de consentimento era apenas 13 anos, e homens só foram reconhecidos como vÃtimas de estupro em 2017, demonstrando um arcabouço legal tardio e insuficiente.
A mÃdia japonesa desempenha um papel ambÃguo: enquanto denuncia casos individuais com sensacionalismo, falha em questionar estruturas de poder estabelecidas. Empresas como a Fuji TV já protegeram agressores para salvaguardar interesses corporativos - como o caso de abuso sexual envolvendo o apresentador e ex-membro da popular boy band Smap Masahiro Nakai, durante um jantar promovido por membros da alta cúpula da emissora. E mesmo com a cobertura de escândalos como o do produtor Johnny Kitagawa – que abusou de mais de 100 meninos durante décadas sem punição –, há uma reticência em expor redes de cumplicidade que permitem a reincidência, como no caso do professor de Tokorozawa que continuou lecionando mesmo sob investigação. Essa dinâmica mantém a violência sexual como um fenômeno reportado, mas nunca erradicado.
Apesar de avanços legais em 2023, como a elevação da idade de consentimento para 16 anos e o reconhecimento de relações não consensuais como estupro, a implementação esbarra em falhas sistêmicas. Apenas 37% das universidades verificam antecedentes criminais de professores, e delegacias ainda exigem "provas de resistência fÃsica" das vÃtimas. O ambiente digital agrava o cenário: plataformas como LINE facilitam o aliciamento de adolescentes, como no caso do instrutor preso – um reflexo de que 1.421 menores foram vÃtimas de crimes online em 2024 no Japão, o maior número de casos reportados desde 2008. Entretanto, esse número é certamente maior do que o registrado.
Enquanto o Brasil registra aumento de 195% nas denúncias de violência infantil entre 2020 e 2024 (graças a campanhas como o Disque 100 e o Maio Laranja), o Japão enfrenta a subnotificação crônica: 80% das vÃtimas de assédio em trens não reportam os crimes, e 95% dos estupros jamais chegam à polÃcia. A transformação exige mais que leis: requer educação sexual obrigatória para ensinar consentimento desde a infância; polÃticas de proteção real nas escolas que priorizem vÃtimas sobre reputação institucional; e uma mÃdia que rompa com o conluio do silêncio. Afinal, como gritam os casos recentes, o perigo mora ao lado: no trem, na sala de aula e na tela do celular.
Estudo realizado pela Phoda-se Webradio, com base em matérias do site Yomiuri entre 29 de junho e 2 de julho, e em informações dos sites CNN Brasil, Alternativa Online, Record TV Japão, BBC, Connexion Tokio, Deutsche Welle e O Globo. Foto do site Deposit Photos.■