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Início do fim para o Petrodólar?
O que está em jogo no estreito não é apenas o fluxo de petróleo, mas o mecanismo financeiro que sustenta a dívida americana e a hegemonia do dólar desde 1974. Uma análise das raízes do sistema, do desafio iraniano e dos cenários para uma ordem monetária multipolar
Analise
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■   Bernardo Cahue, 16/03/2026

Quando uma autoridade iraniana sênior informou à CNN que Teerã considerava permitir a passagem de petroleiros pelo Estreito de Ormuz sob a condição de que a carga fosse negociada em yuan chinês, o mundo financeiro compreendeu que não se tratava de mais uma escaramuça retórica. Era, como definiu o European Business Magazine, "o tiro mais perigoso desta guerra" — um disparo não contra um navio, mas contra o sistema de lastro do poder americano: o petrodólar.

Para dimensionar a profundidade dessa fenda, é necessário revisitar o momento exato em que o dólar se fundiu ao ouro negro. Após o choque de Nixon em 1971, que rompeu a conversibilidade direta do dólar em ouro, os Estados Unidos precisavam de uma nova âncora para sua moeda. Ela veio em 1974, com um pacto histórico com a Arábia Saudita: em troca de proteção militar e tecnologia avançada, os sauditas concordaram que todo o petróleo da OPEP seria vendido exclusivamente em dólares, com os excedentes ("petrodólares") sendo reciclados em títulos do Tesouro dos EUA. Criou-se, então, um ciclo vicioso (ou virtuoso, para Washington) de demanda perpétua pela moeda americana. Qualquer nação que precisasse de energia — e todas precisam — tinha primeiro de obter dólares, garantindo liquidez e poder de fogo geopolítico aos EUA.

O que o Irã propõe agora é uma ruptura operacional desse mecanismo. Ao condicionar a passagem pelo gargalo por onde escoa 20% do petróleo global à utilização do yuan, Teerã não está apenas tentando contornar sanções; está oferecendo a importadores asiáticos — como Índia, Japão e a própria China — um caminho mais curto e barato, desde que abandonem a moeda americana.

OS PILARES DO SISTEMA SOB PRESSÃO:

  • Reciclagem em risco: O coração do petrodólar sempre foi a reciclagem dos superávits dos exportadores em títulos do Tesouro americano, financiando o déficit dos EUA. Com uma dívida nacional beirando os US$ 39 trilhões, e cerca de US$ 9 a 10 trilhões a serem refinanciados no próximo ano, qualquer redução na demanda por dólares força uma alta nas taxas de juros, elevando o custo da dívida para perto de US$ 1 trilhão ao ano.
  • Mercado bifurcado: A infraestrutura para um sistema paralelo já existe. Desde 28 de fevereiro, entre 11,7 e 16,5 milhões de barris iranianos com destino à China transitaram por Ormuz sob proteção da Guarda Revolucionária, com pagamento em yuan, enquanto petroleiros ocidentais permanecem bloqueados. A "frota fantasma" é a prova de conceito do petro-yuan.
  • Alternativas digitais: Enquanto o mundo observa os porta-aviões, Pequim expande o CIPS (Cross-Border Interbank Payment System), um sistema de liquidação paralelo ao SWIFT, e o BRICS discute a "BRICS Bridge", uma plataforma de liquidação em moedas digitais de bancos centrais que poderia tornar obsoleto o sistema de correspondência bancária dominado pelos EUA.

A história recente mostra que Washington sempre tratou desafios ao binômio petróleo-dólar como linhas vermelhas existenciais. Saddam Hussein, ao mudar o petróleo iraquiano para o euro em 2000, e Muammar Gaddafi, ao propor uma moeda africana lastreada em ouro em 2011, testemunharam intervenções militares com consequências fatais para seus regimes. A diferença crucial agora é o cenário geopolítico: os desafiantes têm poder de fogo nuclear (Rússia) ou peso econômico insuperável (China), e o mundo caminha para uma ordem multipolar.

O PAPEL DOS BRICS E A MUTIRÃO MONETÁRIA

O movimento iraniano não é isolado. Ele se soma a uma série de ações coordenadas que apontam para a construção de uma arquitetura financeira alternativa:

  1. Índia e a Petro-Rupia: Em agosto de 2025, o Reserve Bank of India autorizou que excedentes em rúpias de países como Rússia fossem investidos em títulos do governo indiano. Mais de 150 contas em rúpias foram abertas por bancos de 30 países, permitindo que a Índia compre petróleo russo sem tocar no sistema dólar.
  2. Arábia Saudita: O Aliado Instável: Em dezembro de 2022, o ministro das Finanças saudita declarou que o reino estava "aberto" a negociar petróleo em outras moedas. Desde então, acordos de tecnologia com a Huawei e a aproximação com Pequim indicam que Riad está a diversificar os seus riscos geopolíticos, minando a base do pacto de 1974.
  3. Emirados e Moedas Locais: Os Emirados Árabes Unidos já operam um sistema de liquidação em moeda local com a Índia, e a Abu Dhabi Investment Authority financia diretamente projetos em Gujarat, criando um circuito financeiro que escapa aos Treasuries.

É verdade que especialistas como Koen De Leus, economista-chefe do BNP Paribas Fortis, pedem cautela: "Não é que você assuma esse papel da noite para o dia. A China ainda não tem o livre fluxo de capitais necessário para que o yuan seja uma reserva de valor plena como o dólar". A profundidade e a liquidez dos mercados de capitais dos EUA, acumuladas ao longo de décadas, continuam sendo um fosso difícil de transpor.

No entanto, a mudança em curso não é sobre uma substituição abrupta, mas sobre a erosão das margens. Como observou Zoltan Pozsar, estrategista do Credit Suisse, estamos testemunhando o nascimento de um "Bretton Woods III": um sistema monetário multipolar onde commodities (ouro, petróleo) e moedas digitais de bancos centrais coexistem, e o dólar perde o seu status de única opção. Para os EUA, o problema não é a China, mas a matemática. Se uma fração significativa dos US$ 10 trilhões em Treasuries atualmente detidos por estrangeiros — muitos deles oriundos de países exportadores de petróleo — começar a ser repatriada ou convertida em outros ativos, a "vantagem exorbitante" do dólar se transforma em um passivo intragável.

Em última análise, o anúncio de Teerã é o sintoma mais agudo de uma doença que corrói o sistema há anos: a financeirização da geopolítica. Ao usar o estreito não para afundar navios, mas para ditar a moeda da transação, o Irã transformou um gargalo físico em uma alavanca financeira. O Ocidente ainda pode vencer batalhas navais no Golfo, mas a guerra pela supremacia monetária, que se decide nos terminais de computador dos bancos centrais e nas mesas de negociação de Cingapura, está apenas começando.

Com informações de CNN Brasil, Hindustan Times, European Business Magazine, VRT NWS (Bélgica), Bajaj Broking (Dalal Street Investment Journal), The Economic Times, Mint, New Age BD, Minute Mirror, World Energy News (Reuters ROI) ■

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