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Ao contrário da "frieza" dos mercados diante da intervenção dos EUA na Venezuela em janeiro, a escalada militar no Irã acendeu todos os alertas nas mesas de negociação globais. Não se trata apenas de um país produtor, mas do fator geográfico: o Irã é a porta de entrada do Estreito de Ormuz, por onde transitam cerca de 20 milhões de barris por dia, o equivalente a 20% do consumo global. A diferença crucial para o Brasil, que ostenta a autossuficiência na produção de petróleo, é que o risco atual não é exatamente de falta de petróleo no mundo, mas sim de um estrangulamento logístico que pode empurrar as cotações para além dos US$ 100, enquanto a indústria doméstica opera com relativa normalidade.
Os ataques desta semana a bases norte-americanas em seis países — Bahrein, Jordânia, Catar, Kuwait, Emirados Árabes Unidos e Arábia Saudita — representam uma resposta coordenada do Irã e de seus proxies. A ofensiva mudou o cálculo de risco para petroleiras e seguradoras. Relatos indicam que grandes empresas de navegação já suspenderam temporariamente os embarques via Ormuz, um movimento que, por si só, inicia um aperto físico na oferta. Especialistas ouvidos pela imprensa internacional são categóricos: “Um fechamento prolongado do Estreito de Ormuz é uma recessão global garantida”.
Para dimensionar o impacto, é necessário comparar com o episódio venezuelano. Em janeiro, quando os EUA tomaram o controle da indústria de Nicolás Maduro, o petróleo mal reagiu. A explicação é simples: a Venezuela, embora tenha as maiores reservas do mundo, produz menos de 1 milhão de barris por dia. Seu colapso já estava descontado. O Irã, ao contrário, produz cerca de 3,1 milhões de barris diários e, mais importante, possui a capacidade de interromper a fluxo dos vizinhos sauditas, iraquianos, kuwaitianos e emiradenses. O ex-assessor da Casa Branca Bob McNally resumiu o atual momento: “Isso é o verdadeiro negócio”.
O mercado, que até fevereiro negociava um prêmio de risco de US$ 5 a US$ 6, agora se prepara para um cenário de ruptura. As opções de rotas alternativas são pífias: apenas Arábia Saudita e Emirados possuem infraestrutura de desvio, com capacidade máxima de 2,6 milhões de barris por dia — muito aquém dos 14 milhões que cruzam o Estreito diariamente.
É neste ponto que a autossuficiência brasileira emerge como um diferencial estrutural. O Brasil não apenas produz mais do que consome, como possui um parque de refino capaz de atender à demanda doméstica de derivados. Em um contexto de guerra no Oriente Médio, o impacto para o motorista brasileiro seria via preços — caso a Petrobras opte por repassar a alta internacional — e não via desabastecimento físico. Diferente da Europa e da Ásia, que dependem do petróleo que atravessa Ormuz, a matriz brasileira está ancorada no pré-sal, uma região geopolíticamente estável e distante do conflito.
Há, evidentemente, um efeito sistêmico. Se a economia global entrar em recessão por conta do choque do petróleo, o Brasil sentirá a queda na demanda por suas commodities. Mas, no recorte específico do mercado de combustíveis, a proteção é quase total. O país não é o Japão ou a Índia, que precisam desesperadamente do petróleo do Golfo.
Analistas da CNBC destacam que a resposta inicial do mercado, com petróleo subindo de forma contida, pode dar lugar a um movimento mais violento caso o Irã concretize a ameaça de minar o Estreito. O estrategista Kenneth Goh, do UOB Kay Hian, resume: “Venezuela era uma história de produção. Irã é uma história de gargalo”. O Brasil, por suas características geológicas e geográficas, observa essa história da arquibancada — uma posição privilegiada em meio ao caos.
Para o cidadão brasileiro, a guerra não representa filas nos postos ou racionamento. A única variável em jogo é a política de preços da Petrobras e o humor do mercado internacional, que pode ou não transmitir a volatilidade para as bombas. Em termos de segurança energética, a autossuficiência conquistada nas últimas décadas funciona como um escudo contra as balas que agora assobiam sobre Ormuz.
Com informações de Vanguard News, TASS, CNBC, Business Standard, Hong Kong China News Agency, Zhitong Caijing, China Energy News, ANP ■