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Guerra híbrida e pilhagem: a engenharia dos EUA e Israel para golpes e controle de recursos mundiais
Por trás do apelo à "mudança de regime" no Irã, uma velha estratégia se revela: financiar levantes populares para desestabilizar governos enquanto se consolida a colonização de territórios e o domínio sobre rotas energéticas. Uma análise das táticas de intervenção profunda
Analise
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■   Bernardo Cahue, 28/02/2026

A declaração do primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu, sugerindo a morte do aiatolá Ali Khamenei e conclamando os iranianos a "terminar o trabalho" nas ruas não é um mero improviso retórico. Ela se insere em uma doutrina geopolítica consolidada ao longo de décadas por Israel e Estados Unidos: a combinação de guerra híbrida (incentivo a levantes financiados) com a colonização territorial e o controle dos recursos estratégicos da região.

Esta análise crítica explora os mecanismos profundos dessa engenharia política e econômica, dividindo-a em três eixos fundamentais.

1. O Financiamento de Levantes como Ferramenta de Desestabilização

A ideia de que protestos populares são espontâneos e refletem apenas a vontade orgânica da população é, em muitos casos, uma visão ingênua. Investigações recentes do Congresso dos Estados Unidos revelaram um padrão sistemático de uso de dinheiro público para interferir em processos políticos domésticos de aliados e adversários.

Um dos casos mais emblemáticos ocorreu no próprio Israel. De acordo com documentos e memos do Comitê Judiciário da Câmara dos Representantes, a administração Biden-Harris teria canalizado quase US$ 1 bilhão para ONGs israelenses com o objetivo declarado de "minar o governo democraticamente eleito de Benjamin Netanyahu" durante os protestos contra a reforma judiciária em 2023. Entre as organizações beneficiadas estavam:

  • Movement for Quality Government in Israel: Recebeu fundos do Departamento de Estado dos EUA para programas de "educação cívica" que, segundo críticos, eram usados para fomentar a desobediência civil e a rebelião contra o governo eleito.
  • Blue and White Future: Acusada de receber aproximadamente US$ 4 milhões do Middle East Peace Dialogue Network (MEPDN), dinheiro que teria origem em subsídios da USAID e do Departamento de Estado e que foi usado para financiar a coalizão de grupos que lideravam as manifestações anti-Netanyahu.

O padrão vai além da influência política interna de aliados. As mesmas investigações apontam que a Agência dos Estados Unidos para o Desenvolvimento Internacional (USAID) e o Departamento de Estado repassaram, entre 2007 e 2024, pelo menos US$ 122 milhões para organizações não-governamentais ligadas a grupos designados como terroristas, incluindo o Hamas. Um exemplo citado é o da organização palestina Bayader for Environment and Development, em Gaza, que recebeu quase US$ 1 milhão em ajuda americana desde 2016, uma das subvenções emitida apenas uma semana antes dos ataques de 7 de outubro de 2023.

Para críticos, esta é uma política de "fungibilidade": a ajuda humanitária ou para "desenvolvimento da sociedade civil" acaba liberando recursos dos grupos designados como terroristas, que deixam de ter que gastar com serviços básicos para concentrar seus orçamentos em atividades militares e de indoctrinação.

2. Colonização de Recursos e a Doutrina do "Porta-Aviões"

Paralelamente às táticas de desestabilização por dentro, a aliança estratégica entre Washington e Tel Aviv sempre teve um pilar material muito claro: o controle dos recursos do Oriente Médio. Como sintetizou o general Alexander Haig, secretário de Estado de Ronald Reagan: "Israel é o maior porta-aviões americano do mundo, que não pode ser afundado, não carrega um único soldado americano e está localizado em uma região crítica para a segurança nacional dos EUA".

Essa visão, explicitada pelo senador Joe Biden já em 1986, define Israel não como um mero aliado, mas como o "xerife" ou "janíssaro" regional, encarregado de:

  1. Proteger as rotas de comércio global: 30% de todo o tráfego de contêineres e 40% do comércio entre Ásia e Europa passam pelo Canal de Suez. O controle sobre esta via é um dos objetivos centrais da presença militar na região.
  2. Garantir a primazia energética: Apesar da diversificação, 79% das reservas de combustíveis fósseis do mundo estão no Oriente Médio. O controle sobre o acesso a esses recursos é uma arma geopolítica crucial para conter potências rivais como a China.
  3. Viabilizar o projeto "Greater Israel": Declarações recentes de autoridades como o embaixador dos EUA em Israel, Mike Huckabee, e ministros israelenses como Bezalel Smotrich indicam que a visão expansionista não é marginal. Huckabey afirmou que seria "bom" se Israel tomasse terras do Nilo ao Eufrates, enquanto Smotrich apresentou mapas que incorporam oficialmente a Cisjordânia, Líbano, Síria e Jordânia a Israel, operacionalizando a colonização de recursos hídricos e territórios estratégicos.

Esta colonização é viabilizada por um fluxo constante de armamentos (cerca de US$ 3,8 bilhões anuais em ajuda militar dos EUA) e por um escudo diplomático que protege Israel de condenações internacionais, como a recente decisão da CIJ que declara a ocupação ilegal.

3. A Manipulação da Máquina de Guerra: O Rabo que Abana o Cachorro

Ao mesmo tempo que serve como projeção do poder americano, a relação tem se mostrado cada vez mais uma via de mão dupla onde Israel consegue arrastar os EUA para conflitos que atendem à sua própria agenda de sobrevivência política e expansionismo. Analistas apontam que a recente escalada contra o Irã, com ataques a instalações nucleares ordenados por Donald Trump em junho de 2025, é um exemplo clássico de "manipulação estratégica".

Enfraquecido politicamente internamente, com pesquisas mostrando que cerca de 60% dos israelenses queriam sua renúncia, Netanyahu viu na guerra contra o Irã uma oportunidade de desviar a atenção e consolidar seu poder. Para isso:

  • Filtrou inteligência para criar um senso de urgência e medo na Casa Branca sobre o programa nuclear iraniano.
  • Atacou alvos como Ali Shamkhani, um conselheiro nuclear que fazia parte do comitê de negociações EUA-Irã, efetivamente inviabilizando a diplomacia.
  • Exigiu o uso de bombas que apenas os EUA possuíam (as "bunker busters") para atingir as instalações subterrâneas de Fordow, forçando Washington a agir diretamente.

O resultado é um cenário onde a superpotência americana perde sua autonomia estratégica. Como ironiza a imprensa internacional, "o rabo (Israel) abana o cachorro (EUA)", expondo 40.000 soldados americanos na região a retaliações e colocando em risco a economia global com o aumento do preço do petróleo e a ameaça de bloqueio do Estreito de Ormuz.

Enquanto isso, a União Europeia, com raras exceções, atua como complemento a esta política, mantendo acordos de livre comércio e contratos militares com Israel que sustentam o status quo da ocupação. A chamada "comunidade internacional" parece incapaz de interromper o ciclo vicioso onde o financiamento de levantes e a guerra são usados para garantir a espoliação de recursos e a manutenção de um projeto colonial no século XXI.

Com informações de The Daily Star, Transnational Institute (TNI), New Age BD, Ynetnews, JNS.org, Anadolu Ajans?, Tehran Times, Israel Hayom, Just International ■

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