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America First transforma a NAVY nos reais "Piratas do Caribe"
Política externa e estratégia militar da era Trump, centrada em acesso incondicional a petróleo e minerais estratégicos, reacenderam debates sobre imperialismo e soberania nacional
Analise
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■   Bernardo Cahue, 09/02/2026

A retórica "America First" da administração Trump, traduzida em política externa e militar, consolidou uma doutrina de intervenção explicitamente vinculada ao acesso e controle de recursos naturais estratégicos. Longe de ser um retorno ao isolacionismo, esta abordagem representou um intervencionismo sui generis, frequentemente desvinculado de alianças tradicionais e justificativas multilaterais, e focado em garantir vantagem energética e tecnológica para os Estados Unidos. O ex-presidente Donald Trump foi direto ao ponto em 2022: "Temos que ir pegar o petróleo... por que os soldados americanos morreram no Oriente Médio se não foi para pegar o petróleo?".

Esta visão instrumental da projeção de poder não se limitou à retórica. Na prática, transformou segmentos das forças armadas dos EUA em instrumentos de execução de uma política econômica predatoria. A Operação Southern Spear, iniciada em dezembro de 2025 para estrangular as exportações de petróleo da Venezuela, é um caso emblemático: uma frota liderada pelo porta-aviões USS Gerald R. Ford realizou uma série de apreensões de navios-tanque no Caribe e em águas distantes como o Atlântico Norte e o Oceano Índico. Um porta-voz do Departamento de Defesa descreveu a missão como "assumir o controle da produção, refino e distribuição global do petróleo venezuelano", um objetivo inédito em clareza para uma operação militar.

O alvo não era apenas o petróleo. A segurança da cadeia de suprimentos de terras raras — minerais essenciais para ímãs de alta potência, baterias, lasers e equipamentos militares de ponta — tornou-se uma questão de segurança nacional. A China domina cerca de 60% da produção mundial e quase 90% do processamento, criando uma vulnerabilidade estratégica que a administinação Trump buscou corrigir por meio de pressão diplomática e militar. Em 2020, Trump assinou uma ordem executiva declarando emergência nacional na mineração, visando reduzir a dependência dos EUA e apoiar a mineração doméstica e de aliados.

Do Petróleo aos Minerais: A Estratégia de Duas Frentes

A política de recursos pode ser analisada em dois eixos principais, ambos com profundas implicações militares e geopolíticas:

  • Eixo da Energia (Petróleo e Gás): Focado em assegurar o status dos EUA como potência energética dominante. Isso incluiu pressão sobre a OPEP, sanções a exportadores como Venezuela e Irã, e o incentivo à exploração doméstica em terras federais, incluindo áreas ambientalmente sensíveis. A intervenção na Síria, segundo analistas, teve como um dos objetivos tácitos bloquear um gasoduto que beneficiaria o Irã.
  • Eixo da Tecnologia (Terras Raras e Minerais Críticos): Projetado para garantir a supremacia na indústria de defesa e tecnologia do futuro. Isso levou a uma diplomacia agressiva de recursos, com acordos como o de setembro de 2020 com o Canadá para cooperar no fornecimento de minerais críticos, e investigações sobre dependência de importações consideradas um risco.

O Custo Estratégico: Soberania, Alianças e Legitimidade

Esta abordagem gerou custos significativos e redefiniu percepções sobre o papel dos EUA no mundo:

  1. Erosão da Soberania Nacional: Operações como o bloqueio à Venezuela, justificadas por sanções unilaterais dos EUA, foram amplamente interpretadas como violações do direito internacional. A apreensão de petroleiros em águas internacionais por forças americanas, sem mandato do Conselho de Segurança da ONU, estabeleceu um precedente de "policiamento marítimo" baseado em poderio, não em consenso internacional.
  2. Tensão com Aliados Tradicionais: A postura unilateral — como as ameaças de tarifas sobre aço e alumínio contra a Europa ou a saída do acordo nuclear com o Irã — criou fissuras. Aliados hesitaram em aderir a campanhas como a do bloqueio venezuelano, temendo um precedente perigoso e a desestabilização regional.
  3. Militarização da Política de Recursos: O uso frequente da Marinha para executar sanções econômicas e a classificação de dependências de suprimento como ameaças de segurança borraram as linhas entre diplomacia, comércio e coerção militar. A promessa de Trump de "proteger" o suprimento de petróleo da Arábia Saudita após ataques em 2019 exemplifica esta fusão.
  4. Legado de Instabilidade Regional: No Oriente Médio, a política de "máxima pressão" ao Irã e o suporte incondicional a aliados regionais alimentaram tensões. Na América Latina, a Operação Southern Spear e o reconhecimento do governo de Juan Guaidó na Venezuela aprofundaram divisões e conflitos, com pouca perspectiva de resolução política.

A administração Trump legou uma doutrina onde a força militar é um braço da política econômica de recursos. Embora eficaz em interromper fluxos de petróleo de regimes adversários no curto prazo, essa estratégia sacrificou capital diplomático, alimentou acusações de neocolonialismo e estabeleceu instrumentos de poder — como o bloqueio naval baseado em sanções unilaterais — que podem ser replicados por outros atores globais, potencialmente contra os interesses dos próprios Estados Unidos. O desafio para administrações futuras será desfazer este entrelaçamento entre poder militar e apropriação de recursos sem criar novas vulnerabilidades estratégicas.

Com informações de: Anadolu Agency, BBC, Reuters, Foreign Affairs, Council on Foreign Relations, The Guardian, U.S. Department of Defense ■

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