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Geopolítica do petróleo conteve a queda do dólar em 2025, análise revela
Desvalorização de 11,4% frente ao real, a maior em anos, foi impulsionada por políticas de Trump e cortes do Fed, mas tensões no Caribe e ataques a petroleiros evitaram uma queda mais acentuada, expondo a frágil supremacia do petrodólar
Analise
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■   Bernardo Cahue, 31/12/2025

O ano de 2025 ficou marcado por uma forte desvalorização do dólar americano em todo o mundo. No Brasil, a moeda caiu cerca de 11,4%, saindo de R$ 6,18 em janeiro para encerrar o ano próximo a R$ 5,48. Globalmente, o Índice DXY, que mede o dólar contra uma cesta de outras moedas fortes, recuou aproximadamente 10%. As explicações convencionais para esse movimento são bem documentadas: a política comercial errática e protecionista do presidente Donald Trump, que gerou incertezas e levou parceiros a ameaçarem retaliação, e o ciclo de cortes de juros pelo Federal Reserve (Fed). No entanto, uma análise geopolítica mais profunda sugere que essa queda expressiva poderia ter sido ainda maior não fosse por um fator de contenção: a escalada de tensões militares e energéticas liderada pelos Estados Unidos em pontos críticos do globo, que reintroduziu uma dose de demanda por "segurança" em dólares.

O Mecanismo Econômico: Por que Trump e o Fed Derrubaram o Dólar

Diferentemente da crença inicial de que tarifas de importação fortaleceriam a moeda, análises econômicas demonstram que quando essas medidas provocam ameaças de retaliação generalizada, o resultado tende a ser a depreciação. Foi exatamente o que aconteceu em 2025. O anúncio do "tarifaço" em abril, seguido pela perspectiva de retaliação de múltiplos países, minou a confiança na estabilidade da economia americana. Somado a isso, o Fed cortou os juros básicos dos EUA de uma faixa de 4,25%-4,50% para 3,50%-3,75%, reduzindo o atrativo de investimentos em dólar. Enquanto isso, o Brasil manteve a Selic em 15%, criando um diferencial de juros enorme que atraiu capitais estrangeiros e valorizou o real. Essa combinação criou o cenário perfeito para uma fuga de recursos da moeda americana.

O Fator de Contenção Geopolítica: Ações Militares e o Petrodólar

Se as forças de mercado atuassem isoladamente, a depreciação poderia ter sido mais severa. No entanto, a política externa dos EUA, também sob Trump, acionou mecanismos de tensão que historicamente conferem suporte ao dólar. O cenário mais explícito foi na Venezuela. A política norte-americana transitou de sanções para uma estratégia de "coerção cinética ativa" no Mar Caribe. Isso incluiu:

  • Ataques a embarcações qualificadas como narcoterroristas em águas internacionais, com dezenas de fatalidades.
  • O deslocamento estratégico do porta-aviões USS Gerald R. Ford e de bombarderos de longo alcance para a região.
  • Sugestões públicas do próprio Trump sobre a possibilidade de estender operações ao território venezolano.

Paralelamente, ataques a navios petrolíferos russos na região da Turquia, embora não detalhados nas fontes disponíveis, seguem a mesma lógica de perturbar fluxos energéticos controlados por adversários. Essas ações geram instabilidade no mercado de petróleo. Em um contexto de crise, mesmo com oferta global estável, o petróleo continua sendo precificado e comercializado principalmente em dólares. A incerteza geopolítica aumenta a demanda por liquidez em dólar para transações e hedge, criando um piso artificial para a moeda.

Venezuela: O Epicentro da Pressão e seu Efeito Paradoxal

A crise venezuelana encapsula como a instabilidade contém a queda do dólar. O país, apoiado por Rússia e China mas isolado pela maioria dos vizinhos latino-americanos e fora do bloco BRICS por veto do Brasil, viu sua produção petrolífera definhar para cerca de 1 milhão de barris por dia. Cerca de 85% desse petróleo é exportado para a China, em arranjos que frequentemente contornam o sistema financeiro ocidental. Uma mudança de regime para um governo pró-Ocidente, cenário considerado plausível por analistas, poderia reintegrar a Venezuela ao mercado petrolífero global, aumentando a oferta em dólares e possivelmente deprimindo o preço do petróleo — um fator deflacionário e depreciativo para o dólar a médio prazo.

No curto prazo, porém, a ameaça militar direta e o risco de interrupção repentina de qualquer fluxo remanescente elevam o prêmio de risco. Essa dinâmica, junto com os ataques a petroleiros em outras regiões, sustenta a função do dólar como ativo refúgio em tempos de turbulência, freando sua derrocada puramente econômica.

A "Normalidade" que Não Aconteceu: Uma Crítica à Análise Superficial

O cenário traçado expõe o erro de projeções que consideraram apenas variáveis econômicas tradicionais, como a trajetória de juros, sem incorporar o fator geopolítico disruptivo. Análises que previram uma queda contínua e suave do dólar ao longo de 2025, assumindo uma certa "normalidade" nas relações internacionais, subestimaram a capacidade da política externa dos EUA de gerar crises localizadas. A administração Trump, em 2025, demonstrou que é possível simultaneamente enfraquecer o dólar com políticas econômicas domésticas e sustentá-lo com ações de força no tabuleiro geopolítico global. Essa dualidade é o novo paradigma para os mercados: a valorização ou desvalorização da moeda americana não dependerá apenas do Fed ou do déficit fiscal, mas também de decisões no Caribe, no Mar Negro ou no Estreito de Ormuz.

Com informações de: G1, Business Insider, InfoMoney, UOL, CEPR, Politika UCAB, Allianz Global Investors, France 24■

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