Siga nossas redes sociais | ![]() | Siga nossos canais |
A segunda fase da Operação Compliance Zero, que investiga uma das maiores suspeitas de fraude do sistema financeiro nacional, atingiu em cheio o núcleo familiar do banqueiro Daniel Vorcaro, dono do extinto Banco Master. Nesta quarta-feira (14), a Polícia Federal deteve Fabiano Campos Zettel, cunhado de Vorcaro, no Aeroporto Internacional de Guarulhos, momentos antes de ele embarcar para Dubai, nos Emirados Árabes Unidos. A cena repetiu a prisão do próprio Vorcaro, em novembro de 2025, quando ele também tentava viajar para o exterior.
Zettel não é apenas um familiar do banqueiro. Ele é um empresário de relevo, pastor evangélico e, sobretudo, um dos maiores doadores de campanhas políticas de 2022. Segundo o Tribunal Superior Eleitoral (TSE), ele foi o maior doador pessoa física tanto da campanha de reeleição do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), com R$ 3 milhões, quanto da campanha vitoriosa do governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), que recebeu R$ 2 milhões. No total, suas doações somaram R$ 5 milhões, fazendo dele o sexto maior doador pessoa física do país naquela eleição.
A prisão temporária de Zettel foi autorizada pelo ministro Dias Toffoli, do Supremo Tribunal Federal (STF), relator do caso. Em seu despacho, Toffoli atendeu ao pedido da PF, que argumentou que o investigado, ao deixar o país, poderia prejudicar a coleta de provas devido aos seus "vínculos familiares com os investigados". A PF apreendeu o passaporte e o celular de Zettel. A operação desta quarta cumpriu 42 mandados de busca e apreensão em cinco estados e determinou o bloqueio de bens no valor de R$ 5,7 bilhões.
Em nota, a defesa de Zettel afirmou que ele tem "atividades empresariais conhecidas e lícitas, sem relação alguma com a gestão do Banco Master" e que a viagem tinha caráter profissional, com passagem de volta marcada para fevereiro. A detenção, segundo os advogados, visava "evitar frustração de diligências".
Para além das investigações, Fabiano Zettel constrói uma imagem pública em três pilares:
Procurados, os escritórios de campanha de Tarcísio de Freitas e Jair Bolsonaro se manifestaram. A assessoria do governador de São Paulo emitiu nota afirmando que a campanha "foi conduzida com total respeito às leis eleitorais" e contou com mais de 600 doadores. O comunicado destacou que Tarcísio não possui "qualquer vínculo ou relação" com Zettel e não tinha conhecimento prévio de eventuais condutas investigadas. A campanha de Bolsonaro, por sua vez, não respondeu aos questionamentos da imprensa.
A investigação que chegou a Zettel escancara as profundas ligações do Banco Master com o establishment político e jurídico brasileiro, que surpreenderam analistas pela extensão, dado o porte médio do banco. Segundo apurações da imprensa, o banco mantinha uma rede de influências que incluía:
Até o momento, não foi apontada ilegalidade nessas conexões, que estão no radar das investigações.
A Operação Compliance Zero investiga um esquema de emissão de títulos de crédito falsos que envolveu uma suposta venda fraudulenta de carteiras de crédito do Master para o BRB no valor de R$ 12,2 bilhões. A descoberta do esqueme levou o Banco Central a decretar a liquidação extrajudicial do Banco Master em novembro de 2025.
O caso é considerado por especialistas e pelo ministro da Fazenda, Fernando Haddad, como potencialmente a "maior fraude bancária" do país. O prejuízo é colossal: cerca de 1,6 milhão de investidores, que tinham R$ 41 bilhões em aplicações, aguardam ressarcimento do Fundo Garantidor de Créditos (FGC). Esse valor representa aproximadamente um terço do caixa total do fundo.
A condução das provas pelo ministro Dias Toffoli gerou atrito com investigadores. Inicialmente, Toffoli determinou que todo o material apreendido fosse lacrado e guardado no próprio STF, medida atípica que, segundo agentes, poderia levar à perda de dados de celulares e prejudicar as investigações. Diante de um pedido da Procuradoria-Geral da República (PGR), o ministro recuou e determinou que as provas fossem enviadas à PGR. Toffoli também havia negado inicialmente um pedido para incluir Daniel Vorcaro como alvo desta nova fase, só aceitando após a PF e a PGR insistirem na existência de indícios de novos crimes.
O caso Master, que começou como uma investigação de crimes financeiros, transformou-se em um dossiê sobre as intersecções entre poder econômico, religioso e político no Brasil. A prisão do maior doador de duas das principais campanhas de 2022 coloca um holofote sobre o sistema de financiamento eleitoral e sobre a extensão das redes de influência que um banco de porte médio foi capaz de tecer no alto escalão do país.
Com informações de: G1, InfoMoney, CNN Brasil, BBC, Agência Pública, Hora do Povo, Metrópoles, Correio Braziliense ■