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Investigação do Banco Master atinge maior doador de Tarcísio e Bolsonaro
PF detém cunhado de banqueiro ao tentar embarcar para Dubai; doações eleitorais de R$ 5 milhões e extensa rede de influências vêm à tona
Politica
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■   Bernardo Cahue, 15/01/2026

A segunda fase da Operação Compliance Zero, que investiga uma das maiores suspeitas de fraude do sistema financeiro nacional, atingiu em cheio o núcleo familiar do banqueiro Daniel Vorcaro, dono do extinto Banco Master. Nesta quarta-feira (14), a Polícia Federal deteve Fabiano Campos Zettel, cunhado de Vorcaro, no Aeroporto Internacional de Guarulhos, momentos antes de ele embarcar para Dubai, nos Emirados Árabes Unidos. A cena repetiu a prisão do próprio Vorcaro, em novembro de 2025, quando ele também tentava viajar para o exterior.

Zettel não é apenas um familiar do banqueiro. Ele é um empresário de relevo, pastor evangélico e, sobretudo, um dos maiores doadores de campanhas políticas de 2022. Segundo o Tribunal Superior Eleitoral (TSE), ele foi o maior doador pessoa física tanto da campanha de reeleição do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), com R$ 3 milhões, quanto da campanha vitoriosa do governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), que recebeu R$ 2 milhões. No total, suas doações somaram R$ 5 milhões, fazendo dele o sexto maior doador pessoa física do país naquela eleição.

Detenção no aeroporto e apreensão de provas

A prisão temporária de Zettel foi autorizada pelo ministro Dias Toffoli, do Supremo Tribunal Federal (STF), relator do caso. Em seu despacho, Toffoli atendeu ao pedido da PF, que argumentou que o investigado, ao deixar o país, poderia prejudicar a coleta de provas devido aos seus "vínculos familiares com os investigados". A PF apreendeu o passaporte e o celular de Zettel. A operação desta quarta cumpriu 42 mandados de busca e apreensão em cinco estados e determinou o bloqueio de bens no valor de R$ 5,7 bilhões.

Em nota, a defesa de Zettel afirmou que ele tem "atividades empresariais conhecidas e lícitas, sem relação alguma com a gestão do Banco Master" e que a viagem tinha caráter profissional, com passagem de volta marcada para fevereiro. A detenção, segundo os advogados, visava "evitar frustração de diligências".

O multifacetado perfil de Fabiano Zettel

Para além das investigações, Fabiano Zettel constrói uma imagem pública em três pilares:

  • Empresário do setor fitness: É fundador da Moriah Asset, um fundo de private equity com participação em marcas como Oakberry, Les Cinq e Frutaria São Paulo. É também irmão da influenciadora fitness Bella Falconi.
  • Pastor evangélico: Atua na igreja Lagoinha Belvedere, em Belo Horizonte, uma das congregações da famosa família Valadão, cujo líder, André Valadão, é conhecido apoio a Jair Bolsonaro. Reportagens indicam que o pai de Daniel Vorcaro já quitou uma dívida de André Valadão. Zettel também tem ligação com a igreja Bola de Neve.
  • Financiador político: Suas expressivas doações em 2022 foram justificadas por sua assessoria na época como feitas "dentro da legislação" e "com suas convicções pessoais e valores cristãos de família conservadora".

Reação das campanhas beneficiadas

Procurados, os escritórios de campanha de Tarcísio de Freitas e Jair Bolsonaro se manifestaram. A assessoria do governador de São Paulo emitiu nota afirmando que a campanha "foi conduzida com total respeito às leis eleitorais" e contou com mais de 600 doadores. O comunicado destacou que Tarcísio não possui "qualquer vínculo ou relação" com Zettel e não tinha conhecimento prévio de eventuais condutas investigadas. A campanha de Bolsonaro, por sua vez, não respondeu aos questionamentos da imprensa.

A extensa teia de conexões do Banco Master

A investigação que chegou a Zettel escancara as profundas ligações do Banco Master com o establishment político e jurídico brasileiro, que surpreenderam analistas pela extensão, dado o porte médio do banco. Segundo apurações da imprensa, o banco mantinha uma rede de influências que incluía:

  • Ciro Nogueira (PP) e Antonio Rueda (União Brasil), que atuaram como intermediários na negociação frustrada de venda do Master para o Banco de Brasília (BRB).
  • Ex-ministros de Estado, como Ricardo Lewandowski (que foi cliente) e Guido Mantega (que atuou como consultor).
  • Ex-presidente da República, Michel Temer, contratado como mediador para a venda ao BRB.
  • Ex-presidente do Banco Central, Henrique Meirelles, que integrou um comitê consultivo da instituição.

Até o momento, não foi apontada ilegalidade nessas conexões, que estão no radar das investigações.

O escândalo financeiro e seus impactos

A Operação Compliance Zero investiga um esquema de emissão de títulos de crédito falsos que envolveu uma suposta venda fraudulenta de carteiras de crédito do Master para o BRB no valor de R$ 12,2 bilhões. A descoberta do esqueme levou o Banco Central a decretar a liquidação extrajudicial do Banco Master em novembro de 2025.

O caso é considerado por especialistas e pelo ministro da Fazenda, Fernando Haddad, como potencialmente a "maior fraude bancária" do país. O prejuízo é colossal: cerca de 1,6 milhão de investidores, que tinham R$ 41 bilhões em aplicações, aguardam ressarcimento do Fundo Garantidor de Créditos (FGC). Esse valor representa aproximadamente um terço do caixa total do fundo.

Desdobramentos e críticas no STF

A condução das provas pelo ministro Dias Toffoli gerou atrito com investigadores. Inicialmente, Toffoli determinou que todo o material apreendido fosse lacrado e guardado no próprio STF, medida atípica que, segundo agentes, poderia levar à perda de dados de celulares e prejudicar as investigações. Diante de um pedido da Procuradoria-Geral da República (PGR), o ministro recuou e determinou que as provas fossem enviadas à PGR. Toffoli também havia negado inicialmente um pedido para incluir Daniel Vorcaro como alvo desta nova fase, só aceitando após a PF e a PGR insistirem na existência de indícios de novos crimes.

O caso Master, que começou como uma investigação de crimes financeiros, transformou-se em um dossiê sobre as intersecções entre poder econômico, religioso e político no Brasil. A prisão do maior doador de duas das principais campanhas de 2022 coloca um holofote sobre o sistema de financiamento eleitoral e sobre a extensão das redes de influência que um banco de porte médio foi capaz de tecer no alto escalão do país.

Com informações de: G1, InfoMoney, CNN Brasil, BBC, Agência Pública, Hora do Povo, Metrópoles, Correio Braziliense ■

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