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Irã fecha Estreito de Ormuz e acusa EUA de pirataria
Teerã volta atrás em acordo de reabertura após Washington manter bloqueio naval; Europa enfrenta risco de desabastecimento de querosene de aviação em meio à escalada militar no Golfo Pérsico
Oriente-Medio
Foto: https://img.band.com.br/image/2026/04/18/estreito-de-ormuz-73542.png
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■   Bernardo Cahue, 18/04/2026

O Irã voltou a impor restrições severas à navegação no Estreito de Ormuz no último sábado (18), revertendo a decisão de reabrir a via estratégica anunciada apenas 24 horas antes. A medida, comunicada por um porta-voz militar à agência estatal Tasnim, foi justificada como resposta direta à manutenção do bloqueio naval imposto pelos Estados Unidos aos portos iranianos, um ato que Teerã classificou como "pirataria".

O presidente norte-americano, Donald Trump, havia declarado na sexta-feira (17) que o estreito estava "completamente aberto e pronto para negócios e livre tráfego", mas reafirmou que o bloqueio naval contra o Irã "permanecerá em pleno vigor e efeito" até que as negociações com Teerã estejam "100% concluídas". A declaração de Trump foi recebida com indignação em Teerã. O porta-voz do Ministério das Relações Exteriores iraniano, Esmail Baghaei, advertiu que o bloqueio constitui uma "violação do cessar-fogo" e que receberá "a resposta apropriada do Irã".

O presidente do Parlamento iraniano, Mohammad Bagher Ghalibaf, foi além, afirmando que Trump fez "sete afirmações falsas em uma hora" e declarou de forma peremptória: "com a continuidade do bloqueio, o Estreito de Ormuz não permanecerá aberto". O controle da via, enfatizou Ghalibaf, será determinado pelos "fatos no terreno, não pelas redes sociais", sugerindo que a passagem será permitida apenas por meio de rotas designadas e com autorização iraniana.

A rápida sucessão de anúncios contraditórios expõe a fragilidade do entendimento entre as partes. O ministro das Relações Exteriores do Irã, Abbas Araghchi, havia afirmado na sexta-feira que o estreito permaneceria aberto para navios comerciais durante o cessar-fogo. Contudo, após Trump insistir na continuidade do bloqueio, as Forças Armadas iranianas anunciaram, na madrugada de sábado, a retomada do "controle rigoroso" da via. O porta-voz militar iraniano, tenente-coronel Ebrahim Zolfagari, foi incisivo: até que os EUA restaurem a "plena liberdade de navegação" para os navios iranianos, o estreito permanecerá "estritamente controlado".

As tensões não ficaram restritas ao plano retórico. A UK Maritime Trade Operations (UKMTO) relatou que um navio-tanque foi atacado por duas lanchas da Guarda Revolucionária Iraniana a cerca de 20 milhas náuticas a nordeste de Omã. O Comando Central dos EUA (CentCom) informou que 23 navios foram forçados a alterar suas rotas desde o início do bloqueio em 13 de abril, um sinal do impacto imediato na navegação global.

Enquanto a crise militar se aprofunda nos corredores do Golfo Pérsico, uma outra crise, de natureza energética, se avizinha no continente europeu. O diretor-executivo da Agência Internacional de Energia (AIE), Fatih Birol, fez um alerta contundente: a Europa tem "talvez seis semanas, mais ou menos, de combustível de aviação". "Posso dizer que em breve ouviremos a notícia de que alguns voos da cidade A para a cidade B poderão ser cancelados devido à falta de combustível", afirmou Birol, classificando a situação como "a maior crise energética que alguma vez enfrentámos".

O alerta da AIE encontra eco em análises de mercado. A agência destacou que a Europa tradicionalmente depende do Oriente Médio para cerca de 75% de suas importações de querosene de aviação. Com o bloqueio no Estreito de Ormuz já completando mais de seis semanas, os preços do combustível dispararam. O preço de referência europeu do querosene de aviação atingiu a máxima histórica de US$ 1.838 (cerca de R$ 10.000) por tonelada no início de abril, mais que o dobro dos US$ 831 registrados antes do início da guerra. O Conselho Internacional de Aeroportos da Europa (ACI Europe) já havia alertado que a escassez poderia começar no início de maio, se os petroleiros não retomarem a passagem pelo estreito.

Em meio à escalada, os canais diplomáticos permanecem abertos, ainda que em meio a intensas controvérsias. Autoridades confirmaram que o Irã está avaliando uma nova proposta dos EUA para encerrar as hostilidades. A proposta, um plano de 15 pontos enviado por intermédio do Paquistão, exige medidas abrangentes, incluindo:

  • o compromisso iraniano de nunca buscar o desenvolvimento de armas nucleares;
  • o desmantelamento das usinas de enriquecimento de urânio de Natanz, Isfahan e Fordow;
  • a transferência de todo o urânio enriquecido para fora do país;
  • a limitação do alcance e do número de mísseis balísticos iranianos;
  • o fim do financiamento a grupos aliados na região, como Hamas e Hezbollah.

Embora Teerã esteja analisando o documento, fontes diplomáticas indicam que a república islâmica rejeita as exigências consideradas "excessivas e irracionais", especialmente no que tange ao programa nuclear e ao papel na região. O Irã já havia classificado propostas anteriores como "irrealistas, ilógicas e exorbitantes", e acredita-se que o país esteja preparando uma contraproposta.

No plano internacional, a China, maior importadora de petróleo iraniano, também entrou em campo. O chanceler chinês, Wang Yi, realizou uma chamada telefônica com seu homólogo iraniano na qual pediu garantias de liberdade e segurança de navegação no Estreito de Ormuz. Embora tenha defendido o respeito aos direitos legítimos do Irã como Estado ribeirinho, Wang Yi afirmou que "a liberdade e a segurança de navegação por este estreito internacional devem ser garantidas" e que "restaurar o trânsito normal pelo estreito é um apelo compartilhado pela comunidade internacional". A posição chinesa reflete o delicado equilíbrio de Pequim, que busca proteger seus interesses energéticos sem romper com seu aliado Teerã.

O Japão, por sua vez, adota uma postura de cautela pragmática. Cerca de 90% da energia japonesa passa pelo Estreito de Ormuz, e Tóquio já começou a liberar suas reservas estratégicas de petróleo para atender à demanda doméstica. O governo japonês indicou que o limite para o envio de navios de guerra para proteger a via é "extremamente alto", mas não descartou medidas como operações de mineração, caso a situação se deteriore ainda mais. Em um gesto que sugere uma tentativa de descompressão, o Irã sinalizou que permitirá a passagem de navios japoneses mediante autorização bilateral, num movimento que reflete a estratégia de Teerã de impor um bloqueio seletivo e utilizar o estreito como moeda de troca nas negociações.

Com o cessar-fogo de duas semanas, mediado pelo Paquistão, ainda em vigor, mas sob enorme tensão, o mundo observa atento ao desenrolar dos eventos. As próximas semanas serão decisivas: se a via marítima permanecer fechada, as consequências para a economia global, desde o preço dos combustíveis até a operação de aeroportos, serão profundas e imediatas. A advertência de Fatih Birol, da AIE, ressoa como um sino de alerta para a comunidade internacional: "Quanto mais tempo passar, pior será para o crescimento económico e para a inflação em todo o mundo".

Com informações de G1, CNN Brasil, BBC News Brasil, Euronews, Veja, Al Jazeera, Agencia Brasil, The New York Times, Associated Press, Reuters, Agência Internacional de Energia (AIE), Bernama, Yonhap News Agency, Anadolu Agency, Middle East Eye, China Daily, The Hindu, RTVE, La Nación, SIC Notícias, Poder360, InfoMoney, Exame, Valor Econômico, O Globo, Estadão, Correio do Povo, The Portugal News, LBC, Observer BD, Mexico Business News, TVP World, ABC7 Chicago, ABC News, News18, Press TV, Mehr News Agency, New Age, Yeni Safak, Ansa Brasil, Brasil de Fato, CBN Globo, UOL Notícias, InvestNews, ACI Europe ■

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