Siga nossas redes sociais
Logo     
Siga nossos canais
   
Irã ameaça fechar novamente Estreito de Ormuz
Em meio a tensões no cessar-fogo, Teerã condiciona manutenção da passagem comercial no estreito à suspensão do bloqueio imposto por Washington. Trump afirma que restrições navais só terminarão com um acordo final
Oriente-Medio
Foto: https://s2-oglobo.glbimg.com/r1pP-oDH7d_tbail-l6KeWnpRJI=/0x0:1173x769/888x0/smart/filters:strip_icc()/i.s3.glbimg.com/v1/AUTH_da025474c0c44edd99332dddb09cabe8/internal_photos/bs/2025/2/s/5S9HNUTPW2yhZMudJdsQ/88c05fd1-ec6c-4dd9-96cd-a6b6522e11dd.jpg
Compartilhar:
■   Bernardo Cahue, 17/04/2026

Menos de 24 horas após o chanceler iraniano, Abbas Araghchi, anunciar a reabertura do Estreito de Ormuz para embarcações comerciais durante o período remanescente do cessar-fogo, o governo de Teerã emitiu um novo alerta: se o bloqueio naval imposto pelos Estados Unidos aos portos iranianos persistir, o regime considerará a medida uma violação da trégua e poderá fechar novamente a via marítima estratégica. A informação foi divulgada por uma autoridade iraniana à agência de notícias Fars, ligada à Guarda Revolucionária Islâmica (IRGC).

De acordo com a fonte, que disse à Fars estar próxima ao Conselho Supremo de Segurança Nacional do Irã, a reabertura do estreito foi inicialmente acordada como parte de um plano de cessar-fogo mediado pelo Paquistão. O acordo previa a passagem diária de um número limitado de embarcações. Contudo, o Irã suspendeu o entendimento após o cessar-fogo não ser implementado no Líbano e não ser estendido ao Hezbollah e a Israel. O governo iraniano estabeleceu três condições para manter a via aberta:

  • Os navios devem ser exclusivamente comerciais. A passagem de embarcações militares é proibida, e nem os navios nem suas cargas podem ter qualquer ligação com países hostis;
  • As embarcações devem transitar por rotas previamente designadas pelo Irã;
  • O trânsito deve ser coordenado com as forças iranianas responsáveis pela gestão da passagem, conforme rotas já anunciadas pela Organização de Portos e Assuntos Marítimos da República Islâmica do Irã.

Horas antes, o chanceler Abbas Araghchi havia declarado, por meio de sua conta na rede social X, que o Estreito de Ormuz está “completamente aberto” durante o “período restante do cessar-fogo” para todos os navios comerciais. A decisão foi comemorada rapidamente pelo presidente norte-americano, Donald Trump, em sua plataforma Truth Social, onde afirmou que o Irã concordou em “nunca mais fechar” o estreito e que o canal “não será usado como arma contra o mundo”. Contudo, o mandatário americano ressaltou que, apesar da abertura da rota, o bloqueio naval permanecerá em vigor. “O Estreito de Ormuz está completamente aberto e pronto para negócios e livre tráfego, mas o bloqueio naval permanecerá em pleno vigor e efeito no que diz respeito ao Irã, somente, até que nossas negociações com o Irã estejam 100% concluídas”, escreveu Trump.

O presidente americano acrescentou que o processo de negociação deverá ser “bastante rápido, visto que a maioria dos pontos já foi negociada”. Trump também revelou que os Estados Unidos auxiliaram o Irã na remoção de todas as minas marítimas previamente instaladas no estreito. Em outra passagem, o republicano afirmou ter recebido um telefonema da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) oferecendo ajuda na região, mas recusou o apoio. “Eu disse para eles ficarem longe, a menos que só queiram abastecer seus navios com petróleo. Eles foram inúteis quando precisamos deles, um tigre de papel!”, declarou.

Enquanto a passagem comercial foi autorizada, a Guarda Revolucionária Iraniana manteve a proibição da circulação de navios militares. “A passagem de embarcações militares pelo Estreito de Ormuz continua proibida”, declarou um alto funcionário militar à televisão estatal. Segundo o comunicado, as embarcações civis deverão transitar por rotas designadas e com a permissão da Marinha da Guarda Revolucionária.

O anúncio da reabertura, ainda que parcial, trouxe um alívio imediato aos mercados globais de energia. O barril do Brent para junho recuou 9,70%, cotado a US$ 89,80, enquanto o West Texas Intermediate (WTI) caiu 10,50%, a US$ 84,62. As bolsas de valores operaram em alta, embora o movimento tenha sido limitado no Brasil pela queda das ações da Petrobras, impactada pelo recuo do petróleo.

Paralelamente, uma reunião internacional convocada pelo presidente francês, Emmanuel Macron, no Palácio do Eliseu, debateu a segurança da navegação no estreito. Participaram do encontro os líderes da Alemanha, Reino Unido e Itália. O premiê britânico, Keir Starmer, anunciou que uma reunião será realizada em Londres na próxima semana para lançar uma missão multinacional destinada a proteger a liberdade de navegação no Estreito de Ormuz, em coordenação com a França. A primeira-ministra italiana afirmou que seu país está disposto a participar, mas que a missão deve aguardar o fim das hostilidades. O chanceler alemão, por sua vez, manifestou o desejo de que os Estados Unidos integrem a força.

Horas antes da reunião em Paris, o Comando Central dos EUA (Centcom) anunciou que a implementação do bloqueio integral aos portos iranianos foi bem-sucedida. O contra-almirante Brad Cooper, comandante do Centcom, declarou que, em 36 horas, as forças americanas interromperam efetivamente todo o comércio marítimo que entrava ou saía do Irã. A Marinha dos EUA mobilizou mais de 15 navios de guerra e mais de 10 mil soldados para a operação. Até o momento, dez embarcações com destino ou origem no Irã foram forçadas a retroceder, e nenhuma conseguiu romper o bloqueio, segundo fontes militares.

Em resposta ao cerco naval, o Irã elevou o tom das ameaças. O conselheiro militar do líder supremo iraniano, aiatolá Ali Khamenei, Mohsen Rezaei, afirmou que os “lançadores estão travados nos navios de guerra americanos” e que forças iranianas “afundarão todos eles” caso sejam atacadas. “Assim como os EUA sofreram uma derrota histórica ao tentar abrir o Estreito de Ormuz, também estão condenados ao fracasso no bloqueio naval. O Irã não deixará o Estreito de Ormuz até que seus direitos sejam totalmente garantidos”, declarou Rezaei. O comandante do comando militar conjunto do Irã, Ali Abdollahi, alertou que seu país bloqueará completamente as exportações e importações em todo o Golfo Pérsico, no Mar de Omã e no Mar Vermelho se os EUA não suspenderem as restrições. “O Irã agirá com força para defender sua soberania nacional e seus interesses”, afirmou Abdollahi, acrescentando que o bloqueio americano é um “prelúdio para violar o cessar-fogo”.

Internacionalmente, a China manifestou críticas à ação americana. Por meio de seu porta-voz, Guo Jiakun, Pequim classificou o bloqueio como “perigoso e irresponsável”, alertando que a medida pode minar o frágil cessar-fogo e colocar em risco a passagem segura pelo estreito. O governo chinês também pediu moderação e o retorno imediato à mesa de negociações. As tensões no estreito elevaram os preços do petróleo nas últimas semanas e acenderam um alerta global sobre possíveis impactos na segurança alimentar mundial, caso a paralisação do tráfego marítimo na região se prolongue.

O bloqueio naval americano aos portos iranianos teve início na última segunda-feira (13), após uma rodada de negociações entre delegações dos dois países em Islamabad, no Paquistão, terminar sem um acordo definitivo. A trégua de duas semanas, que entrou em vigor no dia 7 de abril, foi costurada após mais de um mês de confrontos diretos entre as forças iranianas e uma coalizão liderada pelos Estados Unidos e Israel. As conversas de paz foram complicadas pelos confrontos paralelos entre Israel e o Hezbollah, no Líbano, milícia apoiada por Teerã, o que levou o Irã a suspender temporariamente sua adesão ao acordo de cessar-fogo.

Fontes diplomáticas indicam que novas negociações entre americanos e iranianos podem ocorrer nos próximos dias, com possíveis encontros sendo cogitados para Genebra ou Islamabad. O governo paquistanês segue atuando como mediador central no processo, enquanto Turquia e Egito também mantêm contatos com ambas as partes para tentar reduzir as tensões.

Com informações de Bloomberg, Euronews, Le Monde, Al Jazeera, BBC News, Reuters, Fox News, USA Today, Hindustan Times, Mid-Day, Press TV, IRNA, Agência Fars, AFP, Xinhua, RFI, Nikkei Asia, The Guardian, Arab News, The Jerusalem Post, Qatar News Agency, Saudi Press Agency, Die Welt, The Moscow Times ■

Mais Notícias