Siga nossas redes sociais
Logo     
Siga nossos canais
   
Uma nação destruída pela cultura do medo
Do massacre de Shreveport a Columbine: como a indústria do pavor justifica o arsenal e cega os EUA para a verdadeira raiz da violência armada
Analise
Foto: https://i0.wp.com/explicationdefilm.com/wp-content/uploads/2018/02/bowling-for-columbine.jpg?fit=2000%2C1333&ssl=1
Compartilhar:
■   Bernardo Cahue, 20/04/2026

Na madrugada de 19 de abril de 2026, Shamar Elkins, um veterano do Exército de 31 anos, estacionou seu carro diante de uma casa modesta na West 79th Street, em Shreveport, Louisiana. Ele entrou, atirou na mãe de seus filhos – ferindo-a gravemente no rosto – e, em seguida, dirigiu-se a outra residência a um quarteirão de distância. Lá, metodicamente, executou oito crianças com idades entre 18 meses e 14 anos, sete das quais eram seus próprios filhos. Uma nona criança, uma prima, foi morta enquanto tentava escapar pelo telhado. O atirador fugiu, roubou um carro sob a mira de uma arma e morreu em uma troca de tiros com a polícia.

O massacre de Shreveport foi o tiroteio em massa mais letal nos EUA em mais de dois anos, segundo o Gun Violence Archive, mas sua verdadeira significância não está nos números, e sim no que ele revela sobre a psique norte-americana: o retrato de uma nação aprisionada por uma cultura do medo que transforma cidadãos em algozes e crianças em estatísticas.

O mesmo país, o mesmo horror: Shreveport e Columbine

Exatos 27 anos separam o massacre em Shreveport da tragédia de Columbine, ocorrida em 20 de abril de 1999, quando os estudantes Eric Harris e Dylan Klebold invadiram a Columbine High School no Colorado e assassinaram 12 alunos e um professor antes de tirarem as próprias vidas. Na superfície, os eventos parecem radicalmente distintos: um atirador solitário agindo no âmbito doméstico versus um ataque coordenado por dois jovens em uma escola. No entanto, a essência que os conecta é a mesma: a violência armada como desfecho de um processo de desumanização e isolamento que a sociedade norte-americana, alimentada por uma indústria do medo, insiste em rotular como "tragédia isolada" ou "incidente doméstico".

A imprensa, então como agora, correu para encontrar bodes expiatórios. Em Columbine, as atenções voltaram-se para Marilyn Manson, acusado de influenciar os jovens com sua música e estética provocadora. No documentário Bowling for Columbine (2002), o diretor Michael Moore confronta essa narrativa ao entrevistar o próprio Manson.

Marilyn Manson e a crítica à "indústria do medo"

Michael Moore, em seu documentário, não se contenta em apontar a facilidade de acesso às armas – embora esse seja um fator óbvio. Ele conduz o espectador a uma investigação mais perturbadora: por que os norte-americanos matam tanto com armas de fogo, enquanto outros países com arsenais igualmente vastos, como o Canadá, apresentam índices de violência muito menores? A resposta, segundo Moore, está no medo – um medo sistematicamente fabricado e amplificado pela mídia e pelo consumo.

É nesse contexto que surge a figura de Marilyn Manson. Ao ser questionado por Moore sobre o que diria aos envolvidos na tragédia de Columbine, Manson responde: "Eu não diria uma única palavra. Eu ouviria o que eles têm a dizer, e isso é o que ninguém fez." Quando Moore pergunta se Manson sabe que, no dia do massacre em Columbine, os EUA lançaram mais bombas sobre Kosovo do que em qualquer outro dia da guerra, Manson responde: "Eu sei disso, e acho uma tremenda ironia que ninguém tenha dito: 'Bem, talvez o Presidente tenha influenciado esse comportamento violento'. Porque essa não é a maneira como a mídia quer abordar e transformar isso em medo."

A declaração mais contundente de Manson, no entanto, é a que define o próprio cerne da cultura do medo: "Você está assistindo televisão, está vendo o noticiário, sendo bombardeado de medo: há enchentes, há AIDS, há assassinatos... corte para o comercial: compre o Acura, compre o Colgate. Se você tem mau hálito, eles não vão falar com você; se você tem espinhas, a garota não vai transar com você. É uma campanha de medo e consumo. A ideia é: mantenha todos com medo e eles consumirão." Ele conclui: "Eu posso ver por que me escolheriam... porque no final, eu sou um poster boy para o medo. Porque eu represento aquilo de que todos têm medo, porque eu digo e faço o que eu quero."

A genialidade da fala de Manson reside em inverter a acusação: ele não era a causa do medo; era o sintoma. A mídia o usava como um rosto fácil para a ansiedade coletiva, desviando a atenção das verdadeiras fontes de violência.

Michael Moore e a comparação fatal: EUA versus Canadá

O ponto central da tese de Moore em Bowling for Columbine é demolir a ideia de que a violência armada nos EUA é resultado inevitável da disponibilidade de armas. Ele compara os Estados Unidos com o Canadá: "A França tem 255 mortes por armas de fogo por ano; Canadá, 165; Reino Unido, 68; Austrália, 65; Estados Unidos, 11.127." O Canadá, argumenta Moore, tem milhões de armas em lares canadenses, mas significativamente menos mortes. Os canadenses, ao contrário dos norte-americanos, não trancam suas portas.

Se não são as armas, e não a pobreza, e não os filmes violentos, o que explica a diferença? Moore conclui que os EUA sofrem de uma "doença mental coletiva" enraizada no medo do outro, cultivada por uma mídia sensacionalista e pela indústria do entretenimento, que associa a posse de armas à segurança e à identidade nacional.

O massacre de Shreveport no espelho da cultura do medo

O atirador de Shreveport, Shamar Elkins, era um veterano do Exército com passagem pela polícia por porte ilegal de armas. Ele agiu em um contexto de disputa doméstica, mas a ferramenta que transformou uma briga familiar em uma chacina de oito crianças foi uma arma de fogo – uma arma adquirida em um país onde o acesso a elas é facilitado pela retórica da "legítima defesa" contra um "inimigo interno" constantemente evocado pelos discursos midiático e político.

Os EUA já registraram pelo menos 119 tiroteios em massa em 2026 (excluindo o de Shreveport), resultando em 117 mortes, incluindo 79 crianças. A cada novo massacre, o ciclo se repete: comoção nacional, investigação sobre a saúde mental do atirador, debates estéreis sobre o controle de armas e, semanas depois, o esquecimento. O medo permanece, a indústria do pavor continua lucrando e as armas continuam sendo vendidas.

Conclusão: uma nação refém do próprio pavor

A cultura do medo nos Estados Unidos não é um acidente; é um negócio. A mídia vende pânico para manter a audiência; a indústria de armas vende segurança para manter as vendas; os políticos exploram o medo para garantir votos. Enquanto a nação se distrai com bodes expiatórios – sejam eles músicos de rock, videogames ou doenças mentais – o ciclo de violência se perpetua.

As oito crianças mortas em Shreveport, assim como as 13 vítimas de Columbine, são mais do que números. São o preço pago por uma sociedade que aprendeu a temer o vizinho, a trancar as portas e a confiar que a solução para o medo é mais pólvora. Enquanto a indústria do pavor ditar o tom, os Estados Unidos continuarão sendo uma nação destruída pelo medo que ela mesma fabrica.

Com informações de Associated Press (AP), BBC News, G1, The Guardian, The New York Times, USA Today, Hindustan Times, Wikipedia, Hollywood.com, CBS News, IMDb, Paperblog, IPL.org ■

Mais Notícias