Siga nossas redes sociais | ![]() | Siga nossos canais |
A menos de três dias do fim do frágil cessar-fogo de duas semanas entre os Estados Unidos e o Irã, o presidente norte-americano, Donald Trump, acusou neste domingo (19) o regime iraniano de promover uma "violação total" do acordo de trégua. Em uma publicação na rede social Truth Social, Trump afirmou que forças iranianas dispararam contra embarcações no Estreito de Ormuz no sábado (18), atingindo um navio francês e um cargueiro do Reino Unido.
"O Irã decidiu disparar tiros ontem no Estreito de Ormuz — uma violação total do nosso acordo de cessar-fogo! Isso não foi nada legal, foi?", escreveu o presidente americano. A reação de Trump foi imediata e veio acompanhada de uma série de ameaças: caso o país persa não aceite o acordo considerado "muito justo e razoável" pelos EUA, Washington destruirá todas as usinas elétricas e pontes do Irã. "Chega de ser o senhor bonzinho!", concluiu Trump.
Além da acusação, o líder republicano anunciou o envio de uma nova delegação para Islamabad, no Paquistão, para mais uma rodada de negociações de paz. A comitiva americana desembarca na capital paquistanesa na noite desta segunda-feira (20), chefiada pelo vice-presidente J.D. Vance — o católico mais proeminente do governo — e integrada também pelo enviado especial Steve Witkoff e pelo assessor sênior Jared Kushner. A informação foi confirmada pela Casa Branca após uma rápida controvérsia sobre a participação de Vance, que inicialmente teria sido vetada por questões de segurança. O governo iraniano, porém, ainda não confirmou presença nas conversas.
Enquanto Trump promete retaliação, Teerã adota um discurso de defesa. O Ministério das Relações Exteriores do Irã classificou o bloqueio naval imposto pelos EUA aos portos iranianos como uma clara violação do cessar-fogo, além de "ilegal e criminoso". Em uma publicação na rede social X, o porta-voz da chancelaria iraniana, Esmaeil Baqai, foi além: "Ao infligir deliberadamente uma punição coletiva à população iraniana, isto equivale a um crime de guerra e um crime contra a humanidade".
A estratégia naval é o ponto central da discórdia. Enquanto Trump alega que os disparos no estreito quebraram a trégua, o Irã sustenta que o bloqueio naval dos EUA jamais foi suspenso, o que, segundo a leitura de Teerã, já configurava um descumprimento do acordo mediado pelo Paquistão. A Guarda Revolucionária Islâmica (IRGC) chegou a afirmar que o Estreito de Ormuz permanecerá bloqueado "até que os Estados Unidos levantem seu bloqueio naval". O impasse já provoca reflexos econômicos imediatos, com a paralisação do transporte de petróleo em uma das rotas mais movimentadas do mundo, afetando os preços da commodity no mercado global.
Em meio à escalada militar, um debate incomum tomou conta dos círculos políticos e religiosos. A chamada "teoria da guerra justa", formulada há mais de mil anos por Santo Agostinho e desenvolvida por Tomás de Aquino, tornou-se o centro de um raro confronto entre o governo Trump e o Papa Leão XIV, o primeiro pontífice americano da história.
Tudo começou quando o Papa Leão XIV, durante sua homilia de Domingo de Ramos, afirmou que Deus "rejeita as orações de quem faz a guerra". Em seguida, em uma viagem aos Camarões, o pontífice criticou aqueles que manipulam a religião para ganhos militares ou econômicos, declarando: "Ai daqueles que manipulam a religião e o próprio nome de Deus". As falas foram interpretadas como uma condenação direta à ofensiva dos EUA contra o Irã, rebatizada por Trump como "Operação Fúria Épica".
A reação da Casa Branca não se fez esperar. Em um evento da Turning Point USA, o vice-presidente J.D. Vance — um católico convertido — aconselhou o Papa a ser "cuidadoso ao falar sobre questões de teologia", afirmando que seus comentários deveriam estar "ancorados na verdade". O presidente da Câmara, Mike Johnson, também recorreu à teoria da guerra justa para defender a posição americana.
Diante da controvérsia, a Conferência dos Bispos Católicos dos Estados Unidos (USCCB) emitiu um raro esclarecimento. O bispo James Massa, presidente da Comissão de Doutrina, reiterou que a doutrina da guerra justa impõe limites morais rigorosos ao uso da força, destacando que uma nação só pode legitimamente pegar em armas "em legítima defesa, uma vez que todos os esforços de paz tenham falhado". Massa lembrou ainda que o Papa não oferece meras opiniões teológicas, mas "prega o Evangelho e exerce seu ministério como vigário de Cristo".
O pontífice, que não demonstrou sinais de recuo, afirmou que não tem "medo da administração Trump" e que continuará a proclamar a mensagem do Evangelho. Enquanto a guerra real se desenrola no Oriente Médio, a batalha teológica entre Washington e o Vaticano expõe as profundas divisões sobre o que constitui, afinal, uma "guerra justa".
Pontos-chave da crise
Cronologia da crise
A comunidade internacional acompanha com apreensão os próximos capítulos. O prazo final do cessar-fogo expira na quarta-feira (22), e a falta de consenso sobre o programa nuclear iraniano e o controle do Estreito de Ormuz pode levar a uma escalada militar de consequências imprevisíveis. O governo de Teerã já deixou claro que não confia em Washington e que não abrirá mão de seus "direitos nucleares", enquanto Trump insiste em uma posição de força, disposto a usar a força militar caso sua proposta de paz seja rejeitada.
Com informações de R7, Poder360, Valor Investe, UOL, G1, BBC News Brasil, CNN Brasil, O Povo, RFI, Exame, Folha de S.Paulo, InfoMoney, O Tempo, Revista Oeste, IstoÉ, El País, La Nación, El Nuevo Herald, Clarin, Times Brasil, Brazilian Times, GaúchaZH, New York Times, Denver Catholic, WION, e CNN Portugal ■