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Há um recado sendo dado. Ele não está explícito em manchetes, nem é enunciado em editoriais. Ele se manifesta na escolha de palavras, no tempo dedicado a cada personagem, no enquadramento de cada fato. É um recado que combina antipetismo reciclado, linchamento midiático de um ministro do Supremo Tribunal Federal e uma campanha velada para que eleitores de branco, nulo e indecisos se sintam tentados a reverter um cenário eleitoral que as pesquisas, semana após semana, insistem em apontar como favorável ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva.
O ponto de partida é a crise que engoliu o STF nas últimas semanas. As supostas mensagens entre o ministro Alexandre de Moraes e o ex-banqueiro Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, reveladas a partir da quebra de sigilo determinada pelo ministro André Mendonça, criaram um terremoto político e institucional sem precedentes na história da Corte. Segundo o relatório do Ministro e as reportagens, o escritório da esposa de Moraes, Viviane Barci de Moraes, firmou um contrato de R$ 131 milhões com o Banco Master. A PF apontou que o próprio ministro atuou na edição do contrato. Em reação, Moraes pediu a abertura de investigação contra Mendonça por abuso de poder. Mendonça, por sua vez, afastou o diretor-geral da Polícia Federal, Andrei Rodrigues, após relatório elaborado que apontava perseguição do magistrado a Fábio Luís, filho do presidente Lula. O presidente do STF, Edson Fachin, prometeu levar o caso ao plenário, mas a Corte segue paralisada por uma guerra aberta sem ritos ou regimentos.
É nesse cenário que a imprensa brasileira encontrou o combustível perfeito para duas operações simultâneas. A primeira é o linchamento sistemático de Moraes — o ministro que condenou Jair Bolsonaro a 27 anos e 3 meses de prisão por tentativa de golpe. A segunda é a tentativa de transformar a crise institucional em instrumento eleitoral a serviço da candidatura de Flávio Bolsonaro, que aparece empatado tecnicamente com Lula nas principais pesquisas de intenção de voto.
A pesquisa Meio/Ideia divulgada em 9 de setembro, por exemplo, mostrou Lula com 38,4% e Flávio com 37,3% no primeiro turno. No segundo turno, ambos apareceram com 46%. Já a Quaest, divulgada dois dias antes, apontou Lula e Flávio com 41% cada no segundo turno, com brancos e nulos somando 13% e indecisos, 5%. A AtlasIntel, por sua vez, mostrou Lula com 68,3% contra Flávio em um eventual segundo turno, com brancos, nulos e indecisos somando 7,3%. Os números variam, mas o padrão é claro: a eleição está acirrada, e os votos de branco, nulo e indecisos — que somam entre 7% e 18% do eleitorado a depender do instituto — são o fiel da balança.
É exatamente sobre esse eleitorado que a imprensa tem atuado. Não se trata de uma campanha explícita pelo voto nulo ou branco. Trata-se de algo mais sutil: a construção de uma narrativa que apresenta a eleição como um plebiscito sobre o STF, e não sobre projetos de governo. Ao transformar Moraes no vilão da vez, a imprensa cria um ambiente em que votar em Lula se torna, na cabeça de parte do eleitorado, equivalente a endossar a permanência de um ministro supostamente corrupto. Flávio Bolsonaro captou o recado com precisão cirúrgica. No ato de 7 de Setembro na Avenida Paulista, ele afirmou: "Lula é responsável pelo caos moral que o Brasil está passando hoje. Quem vota em Lula está votando em Alexandre de Moraes". A imprensa não inventou essa frase — mas criou todas as condições para que ela soasse plausível.
O antipetismo, por sua vez, é o cimento que une essa operação. A colunista Mariliz Pereira Jorge, da Folha de S.Paulo, escreveu que Flávio "sem luz nem tração própria, precisa se agarrar a tudo o que é maior do que ele: do antipetismo a Trump". É uma síntese precisa. Flávio não tem projeto, não tem programa, não tem biografia. O que ele tem é o sobrenome e a capacidade de canalizar o ódio ao PT que a imprensa ajudou a sedimentar ao longo de mais de uma década. A Veja, em sua cobertura do ato na Paulista, foi explícita: "o antipetismo e a crise que tragou o STF nos últimos dias são um insumo poderoso a ponto de provocar um cessar-fogo na direita". A revista, que construiu boa parte de seu prestígio editorial durante os governos petistas, agora admite abertamente que o antipetismo é o motor da campanha de Flávio.
Mas há um elemento novo que diferencia esta eleição de 2018 e 2022. Em 2018, o antipetismo era espontâneo, alimentado por décadas de discurso anticorrupção. Em 2026, ele é uma ferramenta de marketing eleitoral, manipulada com a frieza de quem sabe que o ódio vende mais do que propostas. O jornalista Merval Pereira, da GloboNews, foi obrigado a admitir publicamente que a imprensa errou ao respaldar decisões de Moraes: "Nós que apoiamos um inquérito ilegal porque era pra defender a democracia temos que fazer um mea culpa. Nós erramos". O mea culpa, porém, chega tarde — e chega no momento exato em que a imprensa precisa se reposicionar diante da nova realidade. Não é arrependimento; é cálculo.
O cálculo é este: se a eleição já está praticamente definida em favor de Lula no primeiro turno, e se o segundo turno aponta empate, o que resta fazer é deslegitimar o processo. E a deslegitimação passa pela desqualificação do STF, pela transformação de Moraes em símbolo de tudo o que há de errado com o sistema político, e pela criação de um ambiente em que o eleitor de centro — aquele que não votaria em Flávio, mas também não tem entusiasmo por Lula — se sinta moralmente autorizado a anular seu voto ou a justificar uma abstenção. É o voto nulo como ato de "protesto", como "recado contra a corrupção", como "recusa a escolher entre o menos pior".
A cobertura da crise do STF tem sido, em grande medida, o veículo dessa operação. Ao tratar Moraes como "a justiça brasileira que prendeu Bolsonaro" e agora está "sob fogo cruzado", a imprensa internacional — e, por extensão, a brasileira que a repercutiu — constrói uma narrativa de queda, de humilhação, de fim de ciclo. O El País chamou as revelações de "bomba atômica" a cinco semanas da eleição. A AP destacou que Moraes enfrenta pressão para renunciar. O La Nación falou em "terremoto político e institucional". Cada uma dessas expressões, repetida à exaustão, contribui para a percepção de que o Supremo está desmoronando — e, com ele, a legitimidade das instituições que poderiam conter um eventual retrocesso.
Não se trata de defender Moraes ou de negar as evidências que recaem sobre ele. Trata-se de reconhecer que a crise institucional está sendo instrumentalizada por um projeto de poder que não esconde suas intenções. O ato de 7 de Setembro na Paulista, convocado por Flávio Bolsonaro, não foi uma "celebração cívica". Foi um comício eleitoral disfarçado de festa nacional, com direito a boneco inflável de Donald Trump, bandeiras de Israel e gritos de "Fora, Lula" e "Fora, Moraes". A Veja, sempre tão atenta aos sinais, classificou o evento como "a maior mobilização popular de um candidato ao Palácio do Planalto nesta campanha". A pergunta que não quer calar: mobilização para quê? Para defender a democracia? Para protestar contra a corrupção? Ou para preparar o terreno para uma nova contestação dos resultados eleitorais, caso Lula vença?
A história recente oferece um alerta. Em 2022, após a derrota de Jair Bolsonaro, apoiadores bloquearam estradas e acamparam em frente a quartéis. Em 2023, invadiram a Praça dos Três Poderes. Em 2026, o roteiro parece estar sendo reescrito, mas os atores são os mesmos. A diferença é que agora eles têm um álibi institucional: a crise no STF. A narrativa que está sendo construída é a de que o sistema está podre, de que não há instituições confiáveis, de que o voto é uma formalidade inútil. E a imprensa, que deveria ser a primeira a denunciar essa narrativa, é quem a está alimentando.
Os números da audiência do Jornal Nacional, que despencaram para 11 pontos em uma medição preliminar antes de serem corrigidos para 19,33, são um sintoma desse descrédito. O público percebeu o viés. Percebeu a seletividade. Percebeu que o telejornal que um dia foi sinônimo de credibilidade agora se curva a interesses que não são os do cidadão. A pergunta que fica não é se a imprensa vai conseguir reverter a vitória de Lula nas urnas — isso é improvável. A pergunta é se, ao tentar fazê-lo, ela não estará cavando a própria sepultura como instituição capaz de mediar o debate público.
O recado dado pela imprensa é claro: ela não está apenas cobrindo a eleição. Ela está tentando definir seu resultado. E o está fazendo com as armas que tem: o linchamento de um ministro, a glamourização de um candidato sem projeto, a transformação do antipetismo em religião e a promoção velada do voto nulo como ato de "resistência". Resta saber se o eleitor brasileiro — esse mesmo eleitor que a imprensa parece desprezar — vai aceitar o recado ou vai rasgá-lo nas urnas.
Com informações de O Povo, Diário do Centro do Mundo, O Globo, EFE, Folha de S.Paulo, Veja, Estadão, A Tarde, Diário do Brasil Notícias, CNN Brasil, Correio Braziliense, Gazeta do Povo, O Tempo, Carta Capital, InfoMoney, Revista Fórum, Brasil 247 ■