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O cenário político brasileiro, conhecido por sua criatividade e, por vezes, por seu teor de surrealismo, ganhou um novo capítulo. Desta vez, o alvo da mira de setores mais radicais do antipetismo é uma brincadeira da cultura jovem na internet: o meme "six seven" e o fenômeno "farmar aura". A alegação, que mistura matemática básica com suspeitas de propaganda eleitoral antecipada, revela menos sobre a intenção dos jovens nas redes sociais e mais sobre a disposição de certos grupos em transformar qualquer manifestação cultural em combustível para a guerra política.
A história começa com o "six seven" (ou "6-7"), um meme que se popularizou em 2025 nas plataformas TikTok e Instagram Reels. A expressão, que não possui um significado fixo, origina-se da música "Doot Doot (6 7)" do rapper americano Skrilla e ganhou força global associada à altura do jogador de basquete LaMelo Ball, que mede 6 pés e 7 polegadas. No Brasil, o viral se espalhou rapidamente entre os jovens, tornando-se uma espécie de "código" de linguagem corporal comum em salas de aula.
O que era para ser uma expressão de humor absurdo, classificada como parte do fenômeno "brain rot", ganhou um novo significado quando o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) publicou um vídeo reproduzindo os gestos da trend ao lado de estudantes em Catalão (GO). A partir daí, a engrenagem da interpretação política começou a girar. A lógica, em sua simplicidade quase cômica, é a seguinte: "six seven" = 6 + 7 = 13. O número 13 é o tradicional número de campanha do Partido dos Trabalhadores. Logo, ao reproduzir o gesto, o presidente estaria fazendo uma propaganda eleitoral antecipada.
Esta não é a primeira vez que o número 13 e o PT são colocados no centro de uma polêmica envolvendo manifestações culturais. O carnaval de 2026 foi palco de uma batalha judicial quando o desfile da Acadêmicos de Niterói, que homenageou Lula com o enredo "Do alto do mulungu surge a esperança: Lula, o operário do Brasil", foi alvo de representações no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) por propaganda antecipada. Os partidos PL e Missão apontaram a menção ao número 13 no samba-enredo ("13 dias e 13 noites"), o uso de jingles históricos e a exposição do presidente na TV por 78 minutos como evidências de um suposto viés eleitoral.
O que está em jogo, neste e em outros casos, é uma interpretação extremamente elástica e subjetiva do que configura propaganda eleitoral antecipada. A legislação é vaga, proibindo principalmente o "pedido expresso de voto". No entanto, a simples associação de um número a um partido ou a mera presença de um presidente em um evento cultural já é suficiente para que setores da oposição acionem a Justiça, como fizeram com o desfile. O TSE, por sua vez, já rejeitou pedidos de proibição prévia, entendendo que isso configuraria censura, mas a estratégia de judicializar a cultura e a internet parece ter se consolidado como uma tática política.
Para compreender a dimensão desse fenômeno, é fundamental compará-lo com outros episódios históricos onde memes, mitos e notícias falsas foram usados como armas de campanha, com consequências profundas para a história do país.
O "Kit Gay" e a "Mamadeira de Piroca": o arsenal da desinformação de 2018
As eleições de 2018 foram marcadas por uma enxurrada de desinformação, tendo como dois de seus principais expoentes o "Kit Gay" e a "Mamadeira de Piroca". Ambos os casos são exemplos clássicos de como uma narrativa falsa, quando bem orquestrada, pode moldar a percepção do eleitorado.
O "Kit Gay" foi uma acusação feita pela campanha de Jair Bolsonaro contra o candidato do PT, Fernando Haddad. A alegação era de que o livro "Aparelho Sexual e Cia." faria parte de um "kit gay" distribuído nas escolas pelo Ministério da Educação. A informação, no entanto, era completamente falsa. O livro nunca foi distribuído nas escolas nem fez parte de qualquer programa governamental. O próprio TSE determinou a retirada de vídeos da campanha de Bolsonaro que associavam Haddad ao "kit gay", reconhecendo o caráter desinformativo da peça.
A "Mamadeira de Piroca", por sua vez, levou o absurdo a um novo patamar. A notícia falsa alegava que o PT e Haddad promoveriam a distribuição de mamadeiras com bicos em formato de pênis em creches do país. O vídeo com a "denúncia" teve quase 3 milhões de visualizações em 48 horas e se espalhou como fogo em palha pelo WhatsApp. O TSE também determinou a remoção da postagem. A deputada Joice Hasselmann, em depoimento à CPMI das Fake News, revelou que esses disparos foram coordenados pelo chamado "Gabinete do Ódio". Estas duas farsas não foram apenas mentiras; foram campanhas sistemáticas de difamação que tiveram um impacto real no resultado das eleições.
A Maionese Hellmann's: quando um sobrenome alemão virou coisa do diabo
Antes mesmo da era das redes sociais, a desinformação já encontrava seus caminhos. Um caso emblemático é o da maionese Hellmann's. Um boato que circula há décadas, e que ganhou nova vida na internet, afirma que a marca teria um significado satânico, traduzindo "Hellmann's" como "homens do inferno".
Em 2016, a história ganhou um novo capítulo com a notícia falsa de que o pastor Waldomiro Santiago (grafado também como Waldemiro) teria proibido seus fiéis de consumirem o produto. A realidade, contudo, é bem mais prosaica. Hellmann's é, na verdade, o sobrenome do imigrante alemão Richard Hellmann, que criou a receita da maionese nos Estados Unidos no início do século XX. A tradução do nome do alemão não tem qualquer relação com a palavra "inferno" (que é "Hölle"). O caso ilustra como um simples mal-entendido linguístico, ou uma mentira deliberada, pode se transformar em uma crença popular, mostrando a facilidade com que narrativas falsas se enraízam no imaginário coletivo, muito antes do surgimento do termo "fake news".
A Operação Lava Jato e o Vaza Jato: a maior manipulação da história recente
Se os exemplos anteriores mostram manipulações no campo da comunicação e da cultura, o caso da Operação Lava Jato e de seu desdobramento, o Vaza Jato, expõe uma manipulação em escala muito mais grave: a manipulação do sistema de Justiça para fins políticos, com a participação de atores internacionais.
O que começou como uma aclamada operação contra a corrupção se revelou, com o tempo, um dos maiores escândalos judiciais do país. As revelações do Vaza Jato, a partir de 2019, vieram a público por meio de reportagens do The Intercept Brasil. As conversas vazadas do aplicativo Telegram entre o então juiz Sergio Moro, o procurador Deltan Dallagnol e outros membros da força-tarefa expuseram um conluio para direcionar as investigações.
As provas são contundentes e numerosas. Os diálogos revelaram que Moro orientava os procuradores, sugerindo inclusive a inclusão de provas em processos, e que a força-tarefa usava vazamentos seletivos para a imprensa com o objetivo de manipular a opinião pública e coagir suspeitos. A parcialidade do juiz, que deveria ser um garantidor da lei, ficou escancarada, resultando na prisão de Lula e em sua exclusão da corrida presidencial de 2018.
O alcance da manipulação, no entanto, foi além das fronteiras nacionais. Há relatos e investigações que apontam para o envolvimento da inteligência estrangeira no processo. O próprio Deltan Dallagnol, em uma fala que se tornou famosa, referiu-se à prisão de Lula como um "presente da CIA". A participação dos Estados Unidos, por meio de sua agência de inteligência, e as conexões com o serviço secreto de Israel são temas que permeiam as análises sobre a operação. O jornal francês ConJur, por exemplo, publicou reportagem mostrando como os EUA usaram Moro e a Lava Jato. Essa interferência externa, somada à atuação parcial de juízes e procuradores, configura um quadro de manipulação sistêmica que culminou na anulação, pelo Supremo Tribunal Federal (STF), de todas as condenações de Lula, reconhecendo o vício processual e a suspeição do juiz Moro.
Ao comparar a perseguição ao meme "six seven" com esses episódios históricos, fica evidente o descompasso e a gravidade de cada um. Enquanto o primeiro é uma interpretação forçada e quase risível de uma brincadeira de internet, os segundos são exemplos reais e documentados de como a mentira, a difamação e a manipulação do poder podem ser usadas para distorcer a realidade e influenciar o destino de uma nação.
A tentativa de enquadrar o "six seven" e o "farmar aura" como propaganda eleitoral antecipada não é apenas um exagero; é um sintoma de uma patologia política que banaliza o debate e desvia o foco do que realmente importa. Ao gastar energia judicial e narrativa com supostas mensagens subliminares em gestos de jovens, ignora-se o peso das grandes fraudes e manipulações que já abalaram as instituições do país.
A história demonstra que o perigo não está em um meme ou em um número, mas na capacidade de certos grupos de transformar qualquer coisa em arma política, seja um livro, uma mamadeira, um pote de maionese ou uma operação judicial. A lição que fica é a necessidade de um olhar crítico e histórico, que saiba distinguir uma brincadeira de internet de uma campanha de desinformação orquestrada, e um gesto viral de uma conivência criminosa com o abuso de poder.
Com informações de CNN Brasil, JuriNews, Wikipedia, Bahia Notícias, Agência Brasil, Boatos.org, The Intercept Brasil, ConJur, DW Brasil, O Globo, Diário do Centro do Mundo, CartaCapital, Congresso em Foco, Migalhas, TV Pampa, EM.com.br, Ric.com.br, Poder360, Conexão Política, Swissinfo, Correio do Estado, UOL, Revista Fórum, Diário do Nordeste, SBT News, O Liberal, CGN Inf ■