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Em julho de 2026, dois episódios distintos, mas profundamente conectados, expuseram ao mundo uma prática cada vez mais recorrente no tabuleiro político global: a apropriação indevida da música como ferramenta de propaganda por agentes da extrema-direita. De um lado, a megastar pop americana Katy Perry viu seu hino de empoderamento "Firework" ser transformado em trilha sonora de ataques militares dos Estados Unidos contra o Irã. Do outro, a cantora brasileira Fernanda Abreu teve seu clássico "Rio 40 Graus" associado, sem autorização, à campanha ao governo do Rio de Janeiro do deputado Douglas Ruas (PL). Em ambos os casos, as artistas reagiram com indignação, acionaram medidas legais e deixaram claro um recado: a obra artística não pode ser sequestrada por agendas políticas que a própria criação repudia.
Katy Perry versus a Casa Branca: um hino de esperança como trilha de guerra
O caso envolvendo Katy Perry ganhou repercussão mundial no final de julho de 2026, quando a conta oficial da Casa Branca no TikTok publicou um vídeo com imagens de ataques aéreos contra alvos iranianos. A trilha sonora escolhida foi "Firework", o celebrado hit de 2010 cuja letra exalta a autoestima e a força interior - “Baby, you're a firework, come on, show 'em what you're worth”. O vídeo, que acumulou mais de 6 milhões de visualizações, trazia a legenda “Iran has been warned” (“O Irã foi avisado”), com o refrão “boom, boom, boom” sincronizado com as explosões.
Dois dias após a publicação, a cantora se manifestou em suas redes sociais com uma declaração contundente: “Estou profundamente indignada e furiosa ao ver 'Firework' sendo usada na conta da Casa Branca no TikTok como trilha sonora para imagens de ataques militares. Eu não aprovei isso, não fui consultada e absolutamente não apoio”. Em seu desabafo, Perry fez questão de ressaltar a contradição entre a mensagem original da canção e o uso que lhe foi dado: “Escrevi esta música para ser um hino de esperança, cura e força interior para pessoas que passam por seus momentos pessoais mais sombrios. Ver uma mensagem de autoestima e incentivo sendo usada como trilha para destruição e violência é uma violação completa de tudo o que minha música representa. Minha música serve para unir as pessoas, não para celebrar a guerra”.
A reação do governo Trump, no entanto, foi no mínimo irônica. O subsecretário de Comunicação da Presidência, Kaelan Dorr, respondeu à cantora com um vídeo do clipe de "Part of Me" (2012), no qual Perry interpreta uma fuzileira naval americana, acompanhado da provocação: “This you?” (“É você?”). O episódio evidenciou não apenas o desrespeito à vontade da artista, mas também uma tentativa deliberada de cooptar sua imagem para fins belicistas.
Fernanda Abreu e o PL: uma 'péssima surpresa' na campanha eleitoral
A menos de 24 horas da reação de Katy Perry, do outro lado do Atlântico, uma cena similar se desenrolava no Brasil. No domingo, 26 de julho de 2026, a cantora Fernanda Abreu abriu o Instagram e se deparou com uma publicação do portal Diário do Porto que anunciava a candidatura de Douglas Ruas (PL) ao governo do Rio de Janeiro. A trilha do vídeo era "Rio 40 Graus", o hino informal da cidade maravilhosa lançado em 1992 em parceria com Fausto Fawcett e Laufer.
A reação da artista foi imediata e visceral. Em vídeo divulgado nas redes, Fernanda Abreu classificou o ocorrido como uma “péssima surpresa” e disparou: “Isso é uma coisa que não existe, já estou tomando as providências, esse jornal vai ter que tirar imediatamente do ar a minha música. Eu não autorizei, não liberei e jamais autorizarei”. Em seguida, fez questão de explicitar seu posicionamento político: “Eu jamais votarei em nenhum candidato do PL”. A mensagem foi replicada nos stories da cantora com letras maiúsculas: “RETIREM IMEDIATAMENTE A MINHA MÚSICA DESSA POSTAGEM. EU NÃO AUTORIZEI”.
O deputado Douglas Ruas, que preside a Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro (Alerj) desde abril de 2026, teve sua candidatura oficializada na convenção do PL realizada na sexta-feira anterior (24). A associação da música de Fernanda Abreu à sua campanha, ainda que realizada por um veículo de imprensa e não diretamente pelo candidato, gerou um mal-estar que a cantora tratou de sanar com medidas legais. Em seu alerta aos colegas de profissão, Fernanda resumiu o sentimento de muitos artistas: “Artistas e compositores fiquem de olho, pois ninguém tem o direito de utilizar nossas obras sem a nossa aprovação”.
Um fenômeno global: quando a extrema-direita sequestra a cultura pop
Os casos de Katy Perry e Fernanda Abreu não são isolados. Eles se inserem em um fenômeno global que ganhou particular força com a ascensão de lideranças da extrema-direita ao redor do mundo. Nos Estados Unidos, a lista de artistas que já protestaram contra o uso não autorizado de suas músicas pela administração Trump ou por sua campanha eleitoral é extensa e inclui nomes como Ariana Grande, Kesha, Olivia Rodrigo, Sabrina Carpenter, Beyoncé, Bruce Springsteen, Rihanna, Neil Young, os Rolling Stones e a banda sueca ABBA, entre muitos outros.
O padrão se repete: uma canção composta para celebrar o amor, a esperança ou a liberdade é transformada em propaganda política, militar ou xenófoba, sem que o autor seja sequer consultado. Ariana Grande, por exemplo, protestou quando sua música apareceu em um vídeo do Serviço de Imigração e Alfândega dos EUA (ICE) promovendo deportações. Kesha condenou o uso de "Blow" em um vídeo militar, chamando a atitude de “show de desrespeito à vida humana”. Sabrina Carpenter classificou como “doentio e repugnante” o uso de sua música em vídeo do ICE.
No Brasil, o fenômeno também tem raízes profundas. Artistas como Caetano Veloso, Gilberto Gil, Gloria Groove, Preta Gil e Daniela Mercury já tiveram suas obras utilizadas em contextos políticos sem autorização. Em 2021, a deputada Carla Zambelli foi condenada por usar indevidamente uma música em sua campanha. O que os casos de 2026 escancaram, porém, é a escalada dessa prática: não se trata mais apenas de jingles eleitorais, mas da utilização de obras consagradas como vetores de mensagens de ódio, violência e exclusão.
O que diz a lei: direito autoral versus liberdade de expressão
Do ponto de vista jurídico, o uso não autorizado de obras musicais em campanhas políticas ou em conteúdos governamentais fere frontalmente a Lei de Direitos Autorais. No Brasil, a Lei nº 9.610/98 protege as criações artísticas e exige autorização prévia e expressa do titular para qualquer utilização. Conforme especialistas, os jingles utilizados para fins eleitorais se enquadram nessa proteção, sendo “imprescindível a prévia e expressa autorização dos titulares”.
Nos Estados Unidos, a questão é igualmente litigiosa. Artistas como Neil Young já moveram ações judiciais contra a campanha de Trump por violação de direitos autorais. Em 2025, um juiz federal determinou que Trump e sua campanha parassem de usar a música “Hold On, I'm Coming” após ação movida pelo espólio do compositor Isaac Hayes Jr..
Há, contudo, um debate mais profundo que transcende a letra da lei. Quando uma obra é vendida ou licenciada para grandes gravadoras e plataformas, os artistas muitas vezes perdem o controle sobre como ela será usada - como no caso de Katy Perry, que vendeu os direitos de seu catálogo por US$ 225 milhões em 2023. Ainda assim, como Perry deixou claro, a venda dos direitos não equivale a um endosso moral ou político. “Não aprovei isso, não fui consultada e absolutamente não apoio”, reiterou.
O custo simbólico do sequestro artístico
Para além das sanções legais, o que está em jogo é a integridade simbólica da obra artística. Uma música não é apenas um produto; é um enunciado cultural, carregado de intenções, afetos e histórias. Quando "Firework" - uma canção sobre autoaceitação e superação - é usada para celebrar bombardeios, ou quando "Rio 40 Graus" - um retrato poético do caos e da beleza carioca - é associado a uma candidatura conservadora, o que se opera é uma violação ética de primeira ordem.
Katy Perry expressou esse sentimento com precisão cirúrgica: “Ver uma mensagem de autoestima e incentivo sendo usada como trilha para destruição e violência é uma violação completa de tudo o que minha música representa”. Fernanda Abreu, por sua vez, não apenas repudiou o uso, mas deixou claro que sua obra é indissociável de seu posicionamento político e existencial.
Ambas as artistas, cada uma a seu modo, reivindicaram o direito de serem donas não apenas do código legal de suas obras, mas de seu significado. E, ao fazê-lo, lançaram um alerta não apenas para políticos e veículos de imprensa, mas para toda a indústria cultural: a música não é um bem público à disposição de quem quer que seja. Ela é, antes de tudo, expressão de uma subjetividade que não pode ser sequestrada.
Conclusão: o som do silêncio que não será calado
Os episódios envolvendo Katy Perry e Fernanda Abreu em julho de 2026 são sintomas de um mal mais profundo: a instrumentalização da cultura como arma de propaganda por forças políticas que, na maioria das vezes, defendem exatamente o oposto do que aquelas obras representam. A reação das artistas - firme, pública e juridicamente embasada - demonstra que há limites para o que a indústria e o poder político podem fazer com a criação artística.
Ocorre que, no ambiente digital hiperconectado, onde um vídeo viraliza em minutos e uma música pode ser ressignificada à revelia de seu autor, a batalha pelo controle simbólico das obras é cada vez mais desigual. O que resta aos artistas é a voz - e a disposição de usá-la, como fizeram Perry e Fernanda Abreu, para dizer "não" em alto e bom som.
Como lembrou Katy Perry, a música serve para unir, não para dividir. E como alertou Fernanda Abreu, ninguém tem o direito de usar a obra alheia sem consentimento. Que os casos de 2026 sirvam de precedente e de aviso: a próxima vez que uma canção for sequestrada pela política, que o artista possa dizer, com a mesma força, que sua arte não está à venda - nem por US$ 225 milhões, nem por um cargo eletivo.
Com informações de G1, Congresso em Foco, NaTelinha UOL, The Guardian, Fox News, CNN, Vietnam.vn, BBC, Nexo Jornal, Jusbrasil, Migalhas, UBC, Billboard, NPR, Los Angeles Times, DW, Telemundo Chicago, Quien.com, Pipoca Moderna, Brasil Fora da Caverna, TV Fórum ■