Siga nossas redes sociais
Logo     
Siga nossos canais
   
Tarifa dos EUA sobre Pix acelera adesão da China ao sistema brasileiro de pagamentos
Integração entre UnionPay e Pix é anunciada em meio à escalada protecionista de Washington; Brasil resiste à pressão americana e amplia parcerias estratégicas com o gigante asiático
Leste Asiatico
Foto: https://encrypted-tbn0.gstatic.com/images?q=tbn:ANd9GcSaWQO4aj2HG0zBwgvBIApt73xj_KmDPUDrQcYw0v6BApfKdzDvo-ajMBnZ&s=10
Compartilhar:
■   Bernardo Cahue, 09/08/2026

O que começou como uma estratégia doméstica de inclusão financeira no Brasil transformou-se, em menos de seis anos, no epicentro de uma disputa geopolítica que envolve as duas maiores economias do planeta. O sistema de pagamentos instantâneos Pix, criado pelo Banco Central do Brasil em 2020, tornou-se o argumento central utilizado pelos Estados Unidos para justificar a imposição de tarifas extras de 25% sobre milhares de produtos brasileiros – e, paradoxalmente, o principal catalisador para que a China desse um passo histórico em direção à integração financeira com o país sul-americano.

Em 22 de julho de 2026, o Escritório do Representante de Comércio dos Estados Unidos (USTR) oficializou a tarifa adicional com base na Seção 301 do Trade Act de 1974. Pela primeira vez na história, um país foi sancionado não por práticas comerciais convencionais – como subsídios agrícolas ou barreiras alfandegárias –, mas por operar um sistema público de pagamentos digitais. O documento americano alega que o Pix, por ser gerido diretamente pelo Banco Central, goza de “vantagem competitiva desleal” em relação a empresas privadas como Visa e Mastercard, ambas sediadas nos EUA.

“A natureza pública e gratuita do Pix distorce o mercado de serviços de pagamento no Brasil”, afirmou um alto funcionário do governo Trump, sob condição de anonimato. “Não estamos pedindo o fim do sistema, mas exigimos condições equitativas de concorrência para nossas empresas.”

A reação brasileira foi imediata e contundente. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva, em pronunciamento oficial, defendeu o Pix como “patrimônio nacional” e declarou: “É público, é gratuito e assim continuará – não vamos recuar diante de ameaças unilaterais.” O presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, classificou as alegações americanas como “absurdas”, comparando-as a “cobrar taxas de uma estrada pública porque ela concorre com pedágios privados”. O ministro da Fazenda, Fernando Haddad, reforçou que o Brasil acionará a Organização Mundial do Comércio (OMC) e estuda medidas retaliatórias no âmbito do Mercosul.

Enquanto o embate retórico se intensificava em Washington e Brasília, Pequim agiu nos bastidores com precisão cirúrgica. No dia 30 de julho, a UnionPay International – braço global da principal bandeira de cartões da China – anunciou o início da operação-piloto do projeto de interoperabilidade bidirecional de QR codes entre o Pix e a rede UnionPay. A iniciativa, batizada de “conexão externa com uso interno”, permite que usuários chineses dos aplicativos Yunshanfu (o “Apple Pay” chinês) e de bancos integrados à plataforma UnionPay realizem pagamentos escaneando qualquer código QR do Pix diretamente no Brasil – sem necessidade de converter reais antecipadamente ou abrir conta em instituição financeira local.

O projeto-piloto cobre, de imediato, cerca de 15 milhões de estabelecimentos comerciais brasileiros – praticamente a totalidade da base de aceitação do Pix no país. A expectativa da UnionPay é expandir gradualmente o acesso para outras carteiras digitais parceiras em todo o mundo, criando uma rede de pagamentos alternativa ao domínio ocidental.

Essa aproximação não ocorre por acaso. Ela é fruto de um trabalho diplomático e técnico iniciado em maio de 2025, quando os bancos centrais do Brasil e da China firmaram um memorando de entendimento para cooperação estratégica em serviços financeiros. Em junho de 2026, meses antes do anúncio das tarifas americanas, a quarta reunião do Grupo de Trabalho de Cooperação Financeira Estratégica Brasil-China já delineava os contornos técnicos para a ligação entre os dois sistemas. O que mudou com a ofensiva de Trump foi a urgência política: a decisão chinesa de antecipar o anúncio público da interoperabilidade foi lida por analistas como uma resposta indireta, porém inequívoca, à pressão exercida por Washington.

Os números ajudam a dimensionar o significado desse movimento. O Pix, atualmente, é utilizado por cerca de 80% da população brasileira (mais de 170 milhões de pessoas) e responde por mais da metade do volume total de transações eletrônicas no país. No primeiro semestre de 2026, foram registradas mais de 45 bilhões de operações via Pix, um crescimento de 35% em relação ao mesmo período do ano anterior. Do lado chinês, a UnionPay processa globalmente mais de US$ 12 trilhões em pagamentos anuais e sua rede de QR codes já está presente em mais de 40 países.

Especialistas ouvidos pela reportagem apontam que a integração Pix-UnionPay transcende o aspecto comercial e adentra o terreno da geopolítica monetária. A pesquisadora Li Min, do Instituto de Relações Internacionais de Xangai, resume o fenômeno em três eixos:

  • Soberania digital: Países emergentes buscam infraestruturas financeiras independentes do controle norte-americano, especialmente depois que o uso do sistema SWIFT foi transformado em arma de sanção contra Rússia, Irã e outras nações.
  • Desdolarização tácita: Embora a conversão de reais para yuan ainda não esteja automatizada na camada de liquidação, a interoperabilidade reduz a necessidade de intermediários baseados em dólar, abrindo caminho para futuros acordos de compensação bilateral.
  • Efeito demonstração: O sucesso da conexão com o Pix pode servir de modelo para outros países do Sul Global que possuem seus próprios sistemas de pagamento instantâneo, como o UPI da Índia, o PromptPay da Tailândia e o DuitNow da Malásia.

O cronograma de implementação, contudo, ainda enfrenta desafios técnicos e regulatórios. O Banco Central do Brasil já sinalizou que a interoperabilidade plena – incluindo a liquidação direta em moedas locais sem conversão cambial intermediária – depende de acordos cambiais e de governança de dados ainda em negociação. Galípolo ressaltou, em entrevista recente, que “a internacionalização do Pix exige soluções para três questões centrais: câmbio, responsabilidade por fraudes e tratamento dos metadados transacionais”. A China, por sua vez, tem demonstrado flexibilidade para adaptar seu sistema às regras brasileiras de proteção de dados pessoais (LGPD).

Enquanto isso, o impacto das tarifas americanas já começa a ser sentido na economia real. Setores como aço, alumínio, carnes processadas e suco de laranja – que juntos representam cerca de 20% das exportações brasileiras para os EUA – viram seus custos competitivos despencarem no mercado norte-americano. Estima-se que a tarifa de 25% possa reduzir em até US$ 4 bilhões o saldo da balança comercial bilateral em 2026, pressionando o real e elevando a inflação de alimentos no Brasil.

Diante desse cenário, a aproximação com a China é vista pelo governo brasileiro não apenas como uma oportunidade econômica, mas como uma ferramenta de barganha política. Ao demonstrar que o Pix pode ser integrado a um dos maiores ecossistemas de pagamento do mundo – independentemente do aval de Washington –, o Brasil sinaliza que possui alternativas concretas para escoar sua produção e receber turismo e investimentos.

O movimento chinês também é lido como uma peça em um tabuleiro mais amplo. Com a crescente fragmentação do sistema financeiro global em blocos regionais, Pequim busca ampliar a circulação do yuan digital e do seu sistema de pagamentos transfronteiriços (CIPS) como contraponto ao domínio do dólar e do SWIFT. A porta de entrada escolhida foi o Brasil – maior economia da América Latina e membro dos BRICS –, justamente no momento em que o país enfrenta pressões máximas do Ocidente.

Para além das cifras e dos acordos institucionais, a disputa revela um embate de visões de mundo. De um lado, os Estados Unidos defendem que o mercado e a iniciativa privada devem ditar as regras dos meios de pagamento, tratando qualquer intervenção estatal como distorciva. De outro, Brasil e China apostam na complementaridade entre o setor público e o privado, argumentando que a infraestrutura financeira básica é um bem público que deve ser acessível a todos os cidadãos – e não apenas àqueles com contas bancárias e cartões de crédito.

O desfecho dessa batalha ainda é incerto. O governo americano já adiantou que poderá expandir a lista de produtos taxados caso o Brasil não apresente “reformas estruturais” no modelo de governança do Pix até o fim de 2026. Simultaneamente, o Banco Central chinês estuda acelerar a segunda fase do projeto de interoperabilidade, que permitirá que turistas brasileiros paguem com Pix em estabelecimentos comerciais na China – algo que, até o momento, permanece apenas no campo das intenções.

Uma coisa, porém, já está clara: o Pix deixou de ser um mero instrumento de conveniência bancária para se transformar em um ativo estratégico de primeira ordem. A tarifa americana, que pretendia enquadrar o sistema, acabou por catapultá-lo para o centro das relações Sul-Sul. E, enquanto Trump intensifica a retórica protecionista, a China avança silenciosamente – não com tanques ou mísseis, mas com códigos de barra e algoritmos de liquidação.

O próximo capítulo dessa história será escrito nos gabinetes dos bancos centrais, nas mesas de negociação da OMC e, quem sabe, nos próprios terminais de pagamento – onde um chinês escaneia um QR code verde e amarelo, em São Paulo, e um brasileiro retribui o gesto em Xangai, sem que o dólar sequer precise ser mencionado no processo.

Com informações de Reuters, South China Morning Post, Hong Kong China News Agency, G1, Valor Econômico, Folha de S.Paulo, UOL, Banco Central do Brasil, USTR (Escritório do Representante de Comércio dos EUA), Gazeta de São Paulo e NSC Total ■

Mais Notícias