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Em plena semana eleitoral, Globo só foca em Lulinha
Enquanto a PF prende preventivamente Willer Tomaz — apontado como "hub financeiro" de esquema que desviou R$ 6,3 bilhões de aposentados —, a emissora carioca transforma uma filiação fraudulenta de Flávio Bolsonaro ao nanico Partido Missão em notícia de primeiro time e mantém Lulinha no centro do radar, numa semana inteira de cobertura desproporcional
Analise
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■   Bernardo Cahue, 14/08/2026

Há um silêncio que não engana. Desde que o ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal, decretou a prisão preventiva do advogado Willer Tomaz de Souza — na última terça-feira (11) —, a TV Globo e suas plataformas digitais simplesmente enterraram o caso. Não há reportagens especiais, não há entrevistas com especialistas, não há análise do impacto político. A pauta foi morta. Em seu lugar, a emissora escalou com pompa e circunstância uma sucessão de episódios que giram em torno do PT e de Lulinha, numa escalada que já dura uma semana inteira e desafia qualquer critério minimamente razoável de relevância jornalística.

A cronologia é reveladora. No dia 4 de agosto, a PF deflagrou a nova fase da Operação Sem Desconto, cumprindo 18 mandados de busca e apreensão contra Tomaz e familiares do senador Weverton Rocha (PDT-MA), vice-líder do governo Lula no Senado. Na ocasião, o G1 e o O Globo noticiaram a operação, mostraram imagens da máquina de contar dinheiro apreendida no escritório do advogado em Brasília — capaz de contar até 1.200 notas por minuto — e mencionaram os R$ 345 mil em espécie encontrados, além de quatro aviões apreendidos.

Mas, a partir da prisão preventiva de Tomaz, a cobertura evaporou. O que era para ser o desdobramento natural de uma das maiores investigações contra a Previdência Social — com prejuízos estimados em R$ 6,3 bilhões — foi relegado a notas de rodapé, quando muito. Enquanto isso, o Jornal Nacional e os telejornais da Globo dedicaram mais de oito horas de programação ao caso da filiação de Flávio Bolsonaro ao Partido Missão — um imbróglio no qual o próprio TSE descartou a hipótese de ataque hacker e apontou que o registro foi feito por alguém com as credenciais da legenda. O endereço cadastrado era "Rua dos Bandidos, 666", no "Bairro Miliciano", com CPF "123.456.789-09" — dados tão grotescos que mais parecem uma provocação do que um golpe sofisticado. Ainda assim, a emissora tratou o caso com a seriedade de um escândalo de Estado.

O contraste numérico é estarrecedor. De um lado, R$ 6,3 bilhões desviados de aposentados e pensionistas do INSS. Do outro, uma filiação falsa que não tirou um centavo do bolso de ninguém. De um lado, um advogado com trânsito livre no STF, amigo pessoal de Flávio Bolsonaro e defensor de Arthur Lira, preso preventivamente por comandar a logística financeira de uma organização criminosa. Do outro, um erro no sistema do TSE que foi corrigido em menos de 24 horas.

Mas o silêncio sobre Willer Tomaz não é um caso isolado. É a ponta visível de um padrão que se repete há pelo menos uma semana. Desde o dia 4 de agosto, a cobertura da Globo tem sido marcada por uma insistência quase obsessiva em pautas que envolvem o PT e, em especial, Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha. Vejamos o que a emissora escalou como prioritário nos últimos dias:

  • Empréstimo de R$ 249 mil de Roberta Luchsinger, amiga de Lulinha, ao ex-chefe de gabinete de Lula, Marco Aurélio "Marcola" Santana — um valor que corresponde a menos de 0,6% das movimentações atípicas atribuídas a Willer Tomaz, estimadas em R$ 45,5 milhões.
  • Três inquéritos no STF abertos contra Lulinha, todos baseados em suspeitas ainda em fase inicial de apuração.
  • A estreia do horário eleitoral e a possibilidade de Flávio Bolsonaro usar Lulinha como alvo principal de sua campanha.
  • Áudios vazados de Lulinha, cuja divulgação a própria campanha de Flávio planejou.

Enquanto isso, o que a Globo não mostrou com a mesma ênfase é igualmente revelador:

  • Que Willer Tomaz é apontado pela PF como o "hub financeiro, patrimonial e logístico" da organização criminosa, colocando à disposição dos beneficiários empresas, imóveis, aeronaves, pilotos, funcionários, operadores financeiros e interlocutores políticos.
  • Que a esposa do senador Weverton Rocha, Samya Rocha, recebeu mais de R$ 11 milhões de empresas ligadas a Tomaz.
  • Que o advogado comprou uma mansão de R$ 6 milhões em Brasília onde o senador Weverton Rocha reside.
  • Que a PF encontrou no celular do senador uma foto de Willer Tomaz em uma piscina ao lado de ao menos oito parlamentares, em uma pasta chamada "Grupo Seleto".
  • Que Willer Tomaz já havia sido preso em 2017, em desdobramento da Operação Lava Jato, suspeito de intermediar propina a um procurador da República.
  • Que a Operação Sem Desconto mantém quatro delações premiadas de personagens-chave do escândalo represadas há mais de quatro meses.

A pergunta que não quer calar é: por que a Globo enterrou Willer Tomaz? A resposta, ainda que incômoda, é óbvia: porque ele é um dos melhores amigos de Flávio Bolsonaro. E porque expor o caso em toda a sua extensão significaria mostrar ao país a teia de influência que o clã Bolsonaro construiu em Brasília — uma teia da qual Tomaz era o fio condutor.

A amizade entre Willer Tomaz e Flávio Bolsonaro é pública, documentada e antiga. Em 2021, durante a CPI da Covid, o próprio senador referiu-se ao advogado como "meu amigo". Em 2025, os dois viajaram juntos para a Flórida em um jatinho de luxo. O advogado mantém o "Rancho do Tomaz" em Planaltina (DF), uma propriedade com campo de futebol, piscina, quadra de tênis e píer, frequentada por Flávio e por dezenas de parlamentares. Durante a gestão de Jair Bolsonaro na Presidência, Flávio, Willer e o advogado Frederick Wassef eram conhecidos em Brasília como o "trio WWF". Tudo passava por eles: de grandes causas empresariais a indicações para o Supremo Tribunal Federal.

Mas há outro fator que explica o silêncio da Globo: o caso Willer Tomaz, embora tenha origem no bolsonarismo, expõe um senador da base do governo Lula — Weverton Rocha. E, ao fazer isso, revela a promiscuidade entre políticos de diferentes espectros, algo que a emissora, historicamente, tem dificuldade em aprofundar quando a narrativa não se encaixa em seu roteiro preferido: PT como vilão, Bolsonaro como vítima ou, quando muito, como coadjuvante de um escândalo que não o atinge diretamente.

O caso do empréstimo de Luchsinger, por sua vez, ainda está em fase inicial de apuração. A própria PF, em nota, não estabeleceu qualquer vínculo direto entre o repasse e os descontos ilegais no INSS. A empresária já acionou o STF por suposto vazamento seletivo de informações, e o ex-chefe de gabinete Marcola afirmou que a transação foi um empréstimo pessoal já quitado. Mesmo assim, a Globo transformou o episódio em manchete de primeira página por dias seguidos.

Para analistas da comunicação política, a escolha editorial da Globo revela um padrão já conhecido: enquanto o escândalo envolve o clã Bolsonaro — mas com ramificações que atingem o governo Lula —, a cobertura é contida, diluída em notas rápidas e rapidamente abandonada; quando o alvo é o governo Lula, ainda que por conexões tênues, o espaço em telejornais de grande audiência é generoso. Prova disso é que o próprio O Globo publicou, em seu site, um perfil de Willer Tomaz e uma reportagem sobre a apreensão da máquina de dinheiro — mas nenhum dos dois conteúdos teve o mesmo destaque na TV aberta.

O resultado é que o público da Globo assiste, estarrecido, a uma cobertura que trata com seriedade um cadastro com endereço fictício e CPF de mentira, enquanto ignora que um advogado com trânsito livre no STF, amigo de Flávio Bolsonaro e defensor de Arthur Lira está preso preventivamente por comandar a logística financeira de um esquema que roubou bilhões de aposentados. A pergunta que fica é: o que a Globo tem a esconder — ou a proteger — ao enterrar uma pauta dessa magnitude?

O silêncio da Globo não é omissão. É escolha. E essa escolha, mais do que revelar um viés, revela um compromisso: o de não tocar no que realmente importa quando o alvo está próximo do poder que a emissora sempre tratou com luvas de pelica. Em plena semana eleitoral, quando o país precisa de informação de qualidade para decidir seu futuro, a Globo prefere entreter com uma novela de bastidores do que informar sobre um dos maiores escândalos de corrupção da história recente.

Com informações de G1, O Globo, UOL, Poder360, Metrópoles, Valor Econômico, Brasil 247, Imprensa Ética, Diário do Centro do Mundo, Jornal de Brasília, Correio do Povo, GaúchaZH e Congresso em Foco ■

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