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Há um silêncio que não engana. Desde que o ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal, decretou a prisão preventiva do advogado Willer Tomaz de Souza — na última terça-feira (11) —, a TV Globo e suas plataformas digitais simplesmente enterraram o caso. Não há reportagens especiais, não há entrevistas com especialistas, não há análise do impacto político. A pauta foi morta. E, no lugar dela, a emissora escalou com pompa e circunstância um episódio que, na melhor das hipóteses, é uma anedota eleitoral: a suposta filiação fraudulenta do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) ao nanico Partido Missão.
A cronologia é reveladora. No dia 4 de agosto, a PF cumpriu 18 mandados de busca e apreensão contra Tomaz e familiares do senador Weverton Rocha (PDT-MA), vice-líder do governo Lula no Senado. Na ocasião, a Globonews e o G1 noticiaram a operação, mostraram imagens da máquina de contar dinheiro apreendida no escritório do advogado em Brasília — capaz de contar até 1.200 notas por minuto — e mencionaram os R$ 345 mil em espécie encontrados. Mas, a partir da prisão preventiva de Tomaz, a cobertura evaporou.
Enquanto isso, o Jornal Nacional e os telejornais da Globo dedicaram mais de oito horas de programação ao caso da filiação de Flávio ao Missão — um imbróglio no qual o próprio TSE descartou a hipótese de ataque hacker e apontou que o registro foi feito por alguém com as credenciais da legenda. O endereço cadastrado era "Rua dos Bandidos, 666", no "Bairro Miliciano", com CPF "123.456.789-09" — dados tão grotescos que mais parecem uma provocação do que um golpe sofisticado. Ainda assim, a emissora tratou o caso com a seriedade de um escândalo de Estado.
O contraste numérico é estarrecedor. De um lado, R$ 6,3 bilhões desviados de aposentados e pensionistas do INSS. Do outro, uma filiação falsa que não tirou um centavo do bolso de ninguém. De um lado, um advogado com trânsito livre no STF, amigo pessoal de Flávio Bolsonaro e defensor de Arthur Lira, preso preventivamente por comandar a logística financeira de uma organização criminosa. Do outro, um erro no sistema do TSE que foi corrigido em menos de 24 horas.
A pergunta que não quer calar é: por que a Globo enterrou Willer Tomaz? A resposta, ainda que incômoda, é óbvia: porque ele é um dos melhores amigos de Flávio Bolsonaro. E porque expor o caso em toda a sua extensão significaria mostrar ao país a teia de influência que o clã Bolsonaro construiu em Brasília — uma teia da qual Tomaz era o fio condutor.
A amizade entre Willer Tomaz e Flávio Bolsonaro é pública, documentada e antiga. Em 2021, durante a CPI da Covid, o próprio senador referiu-se ao advogado como "meu amigo". Em 2025, os dois viajaram juntos para a Flórida em um jatinho de luxo. O advogado mantém o "Rancho do Tomaz" em Planaltina (DF), uma propriedade com campo de futebol, piscina, quadra de tênis e píer, frequentada por Flávio e por dezenas de parlamentares. Uma foto encontrada pela PF no celular do senador Weverton Rocha mostra Tomaz em uma piscina ao lado de ao menos oito políticos, em uma pasta chamada "Grupo Seleto".
Durante a gestão de Jair Bolsonaro na Presidência, Flávio, Willer e o advogado Frederick Wassef eram conhecidos em Brasília como o "trio WWF". Tudo passava por eles: de grandes causas empresariais a indicações para o Supremo Tribunal Federal, como a do ministro Kassio Nunes Marques. Willer Tomaz também é o advogado de Alexandre Caetano dos Reis, contador do escritório de Flávio e do "Careca do INSS", preso desde dezembro.
A Globo, ao enterrar Willer Tomaz, não está apenas cometendo um erro editorial. Está protegendo uma narrativa. Proteger Tomaz é proteger Flávio. E proteger Flávio é proteger todo o ecossistema político que se beneficiou da influência do advogado nos últimos anos. A emissora que dedicou quase nove horas a um empréstimo de R$ 249 mil de uma amiga de Lulinha agora se cala diante de R$ 45,5 milhões em movimentações atípicas, de uma mansão de R$ 6 milhões comprada para um senador e de uma máquina de contar dinheiro apreendida no escritório de um dos homens mais poderosos de Brasília.
O silêncio da Globo não é omissão. É escolha. E essa escolha, mais do que revelar um viés, revela um compromisso: o de não tocar no que realmente importa quando o alvo está próximo do poder que a emissora sempre tratou com luvas de pelica.
Com informações de Valor Econômico, CartaCapital, O Globo, UOL, Brasil 247, Metrópoles, Imprensa Ética, Poder360, CNN Brasil e Congresso em Foco ■