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A foto já era conhecida. Donald Trump, no Salão Oval, com o sorriso estático de quem posa para um cenário de loja de souvenirs — e, ao fundo, Flávio e Eduardo Bolsonaro em pose de “encontro histórico”. A imagem correu o mundo. Vários veículos a publicaram como prova de que o senador e pré-candidato à Presidência tinha sido recebido pelo ex-presidente americano. Horas depois, a farsa veio à tona: a foto era uma montagem comprada por 15 dólares na lojinha da Casa Branca, e a tão decantada “medalha de honra” exibida por Eduardo custava 19 dólares no mesmo balcão de lembranças.
Mais do que o vexame da família Bolsonaro, o que se revelou foi um padrão repetido à exaustão pela imprensa brasileira: acreditar, noticiar como verdade absoluta e só depois verificar — quando ainda há tempo. O episódio da cenoura entalada no ânus do ator Mário Gomes, resgatado nas redes e na memória coletiva, serve como um curioso, e nada otimista, paralelo histórico. A diferença é que a "cenourinha" de 1977 foi uma mentira plantada por um diretor de televisão movido a ciúmes; os factoides de hoje são produzidos em série por uma máquina de propaganda familiar que já testa a credibilidade e a paciência da imprensa há mais de três décadas — e, em grande medida, continua colhendo os frutos da sua própria plantação.
O método “bananinha”: de Trump a Vance e Rubio, a mesma encenação
A fotografia com Trump desmascarada serviu apenas como prelúdio. Nos dias seguintes, o roteiro se repetiu. Flávio Bolsonaro voltou à Casa Branca e anunciou encontros com o vice-presidente JD Vance e o secretário de Estado Marco Rubio. Novamente, as “provas” foram fotos compartilhadas em redes sociais — em geral, publicadas por Paulo Figueiredo, aliado histórico dos Bolsonaro — e depoimentos dos próprios envolvidos. Flávio afirmou ter discutido com Rubio por cerca de 30 minutos a possibilidade de os EUA designarem as facções PCC e CV como organizações terroristas. Sobre o encontro com Vance, nenhuma imagem oficial foi divulgada, apenas o relato do senador de que o vice-presidente teria questionado a liberdade de expressão no Brasil.
Conteúdo que seria, em qualquer redação normal, tratado com ceticismo — como se fosse uma nota da assessoria do candidato — foi parar nas manchetes como “Flávio Bolsonaro se encontra com vice de Trump e secretário de Estado dos EUA”. A cobertura, em muitos casos, deixou de fazer o mínimo: checar a agenda oficial da Casa Branca, que não listava nenhum desses encontros da mesma forma que não listara o primeiro; questionar a ausência de imagens oficiais (ou mesmo de vídeos); e perguntar por que, diferentemente do que ocorre com qualquer chefe de Estado (como Lula, que teve reunião com Trump em um dia posterior e foi mencionado pelo republicano em suas redes sociais), nenhuma autoridade americana confirmou a reunião de forma independente.
A pergunta que se impõe, portanto, é a mesma que já deveria ter sido feita décadas atrás: por que a imprensa brasileira insiste em noticiar como fato concreto aquilo que a família Bolsonaro apresenta — e só aquilo — como prova? Por que uma foto publicada por um aliado político, sem qualquer confirmação de fonte oficial americana, é tratada como evidência irrefutável de uma reunião de alto nível? A resposta, desagradável, pode estar na combinação de dois fatores que se retroalimentam: a busca incessante pelo furo jornalístico (publicar primeiro, verificar depois) e, em certos casos, um alinhamento de pauta que transforma o noticiário em plataforma para a propaganda bolsonarista, enquanto escândalos reais — como o desvio de R$ 62 milhões e as investigações que correm nos EUA — são relegados a notas de rodapé.
O caso Mário Gomes, a cenoura e o jornalismo que não aprende com o passado
A história da cenoura de Mário Gomes é, à primeira vista, uma bobagem de época, um factóide sexual que rodou o país nos anos 1970 e que o ator jamais conseguiu se descolar. Em 1977, durante o namoro com a atriz Betty Faria, começou a circular a notícia de que o galã das novelas teria dado entrada em um hospital com uma cenoura entalada no ânus. A fake news, publicada em revistas que foram às bancas, marcou sua carreira de forma indelével. O próprio Mário Gomes, décadas depois, contou a verdadeira origem da mentira: o diretor Daniel Filho, traído por Betty Faria, teria inventado a história para prejudicá-lo.
O que liga o caso da cenoura à cobertura dos factoides bolsonaristas é um traço perverso do ecossistema jornalístico: a credulidade seletiva. Tanto na história do ator quanto nos episódios recentes, a imprensa tomou uma versão — de uma fonte única e interessada — como verdade, publicou, espalhou e só depois, quando o estrago já estava feito, tentou (ou não) corrigir. A diferença é que Mário Gomes, à época, não dispunha de redes sociais para se defender com a mesma rapidez com que a mentira se espalhava. O que ele teve foi décadas de associação involuntária a um boato que o ridicularizava. Os Bolsonaro, ao contrário, controlam os canais de propagação das suas próprias farsas e, quando desmascarados, acusam a imprensa de perseguição.
Em ambos os casos, no entanto, o jornalismo se revelou refém de uma lógica perversa: a de que tudo o que é dito por uma figura pública deve ser noticiado, independentemente da evidência. Como observou editorialmente o jornal O Estado de S. Paulo já em 2022, “talvez seja necessário adaptar os manuais à realidade segundo a qual nem tudo o que o atual presidente produz é digno de ser noticiado”. Mas, na prática, a lição não foi internalizada. Pelo contrário, o ciclo se acelerou.
Os factoides de sempre: uma cronologia da credulidade jornalística
A imprensa entre a “cenourinha” e a “bananinha”
Enquanto a história de Mário Gomes permanece como um símbolo do quanto uma mentira bem contada pode arruinar uma reputação (e do quanto o jornalismo precisa de fontes e verificações cruzadas), o caso dos Bolsonaro revela uma dinâmica ainda mais preocupante: a repetição sistemática do mesmo padrão, com a mesma família, e a mesma falta de ceticismo por parte de parte da imprensa. Como bem observou o colunista Paulo Figueiredo (o mesmo das fotos), o método é previsível: criar uma narrativa, publicar uma imagem — mesmo que artificial —, forçar a pauta na mídia e, quando contestado, virar o jogo acusando a imprensa de “perseguição”. A diferença é que, agora, a produção de factoides ganhou escala industrial e suporte tecnológico (inteligência artificial, deepfakes). O que era uma cenoura artesanal em 1977 tornou-se um souvenir de 15 dólares em 2026.
A insistência da imprensa em noticiar como fatos consumados os encontros de Flávio Bolsonaro com Trump, Vance e Rubio, baseando-se unicamente em fotos publicadas pelos próprios envolvidos e sem qualquer confirmação oficial americana, escancara um problema que vai além da falta de apuração. É uma escolha editorial: a de priorizar o furo e o clique em detrimento da credibilidade. É a escolha de transformar a cobertura política em uma extensão da assessoria de imprensa da família Bolsonaro, enquanto escândalos de corrupção real — como o desvio do Banco Master e a movimentação de recursos em paraísos fiscais — são tratados como tópicos menores.
Em contraste, vale recordar a sugestão do Estadão em 2022: ignorar factoides em série. Ignorar, contudo, não significa silenciar. Significa, antes, não dar manchete a uma afirmação não verificada, não transformar uma fotografia de souvenir em evidência de reunião de Estado, não repetir o erro de 1977, 1990, 2022 e 2025. Significa aplicar o método jornalístico básico: duvidar até que as provas sejam independentes, oficiais e múltiplas. Como mostra a história da cenoura de Mário Gomes, o custo de não fazer isso pode ser a destruição de uma reputação. No caso brasileiro atual, o custo é maior: é a erosão da própria confiança no jornalismo, que deveria separar o fato da ficção, e não se transformar em sua caixa de ressonância.
Assim, entre a “bananinha” — o apelido jocoso que Eduardo Bolsonaro já admitiu publicamente — e a cenourinha que o ator Mário Gomes jamais conseguiu se descolar, a imprensa brasileira parece ter ficado com a pior parte: a de repetir incansavelmente factoides, sem aprender com o passado. A fábrica de sonhos bolsonarista continuará produzindo. Resta saber se o jornalismo, enfim, vai se recusar a comprar esses souvenirs baratos — e, em vez disso, fazer o seu trabalho: investigar, verificar e, quando a mentira estiver provada, tratá-la como mentira desde o primeiro parágrafo.
Nota da Redação: Não faremos qualquer menção ao suposto encontro entre Vance, Rubio, os irmãos Bolsonaro e Paulo Figueiredo, até que haja a devida apuração dos fatos e confirmação das autoridades norte-americanas.
Com informações de G1, Folha de S.Paulo, UOL, jornal O Estado de S. Paulo (editorial de 2022), Conjur, Revista Oeste, O Globo (acervo caso Mário Gomes), Natelinha/UOL, Bahia.ba, GZH, Conteúdo JC/UOL, Revista Fórum, Agenda oficial da Casa Branca, dados apurados em reportagens de Mariana Sanches/UOL, ChatGPT, Grok■